Stabat Mater Estava a mãe de pé, já sem o filho
que fora a razão de ter aceite
um quotidiano rasteiro e o prodígio:
entre ambos, não ousava distingui-los.
Traspassara-se quando o viu deixar a casa
para se completar longe das mãos
que o receberam e fizeram crescer,
- nela sempre menino, e tão inerme
que de si nunca o desprenderia.
Soubera que ele fora domado, escarnecido,
mais bem pago para ser mais proveitoso,
soldado em guerras de outros
em que sempre foi um derrotado;
traído por mulheres de uma beleza
não somente fascínio e um ardil,
mas perdão para quem por elas se jogasse.
Mais que ninguém, ela sofrera-o sem dizê-lo.
Devolveram-lho por fim, já só em parte,
para uni-lo na cama onde nascera.
Tudo nela ruiu, os seus escombros
são o mais intenso túmulo,
sem ter onde vá sorver a força
para sumir-se no apagamento
de si mesma e de tudo,
até da manhã que a saudou a anunciar-lhe
o fruto que sua flor tinha alcançado.
E pede que nenhuma luz venha acordá-la.
José Bento, in 'Alguns Motetos'

José Bento
Poeta e tradutor português, mas também professor do ensino técnico e autor de várias obras especializadas na área da contabilidade, comércio e fiscalidade,
José Bento de Almeida e Silva nasceu a 17 de novembro de 1932, em
Pardilhó, no concelho de
Estarreja. Colaborou, desde muito jovem, com poesia e crítica literária em revistas como
Sísifo, Árvore, Cassiopeia, Cadernos do Meio-Dia, Eros, entre outras. Entre 1963 e 1969 pertenceu à redação da revista
O Tempo e o Modo.
Tradutor de mérito reconhecido da poesia espanhola clássica e contemporânea, traduziu, entre muitos outros autores,
Miguel de Cervantes,
Calderón de la Barca,
Ortega y Gasset,
Jorge Luis Borges,
Luis Cernuda,
Ángel Crespo,
Pablo Neruda,
Federico Garcia Lorca,
Unamuno,
Octavio Paz,
Garcilaso de la Vega; os místicos
S. João da Cruz e
Santa Teresa de Ávila; sendo ainda autor de coletâneas de poesia espanhola como a
Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea.
Até à publicação de
Silabário, a sua poesia encontrava-se, com exceção de três títulos, dispersa por periódicos, o que não significa que o seu nome fosse desconhecido do meio literário português, pelo contrário, além de a sua colaboração figurar nas revistas que tiveram uma ação cultural relevante nos anos 50, é autor de textos de crítica poética, inseridos em prefácios ou artigos, que atestam um conhecimento aprofundado da poesia contemporânea portuguesa.
O sujeito poético que exprime um pessimismo existencial que o conduz a
"proclamar o estado de absoluta privação do homem ou a irremediável mudança que o tempo nele opera, tornando-o irreconhecível a seus próprios olhos, ou ainda a sua inescapável condição caída, acaba por encontrar nas palavras (...) a única paz, a única existência" (p. 290). Ponderada, decantada, em diálogo subtil com textos e autores, da sua poesia pode-se, parodiando a introdução do autor às Poesias Completas de S. João da Cruz, dizer que raras vezes, como nos seus poemas,
"a crítica sentirá as suas limitações e a fragilidade de alguns dos seus juízos críticos: esgotadas as minuciosas e indispensáveis pesquisas textuais, detetadas as fontes, explicitado o pensamento subjacente a estes poemas, o crítico fica frente a frente com eles na sua nudez total, o que acontece então não pode senão ser um ato de amor, pois tudo o mais sobra, é inútil." (p. 13)
Ao longo de toda a sua carreira literária, tem sido alvo de várias homenagens como aconteceu, por exemplo, em 1991, quando foi condecorado, pelo Rei Juan Carlos de Espanha, com a medalha de ouro de Belas-Artes; em 1992, quando foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República Mário Soares; ainda nesse ano, com os prémios Pen Clube Português e D. Dinis da Fundação Casa de Mateus, pelo trabalho
Silabário; em 2005, com a atribuição do Grande Prémio de Tradução do Pen Clube Português; e, em 2006, com o 1.º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.
José Bento. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-30].
Maria Oakey Dewing
Maria Oakey Dewing, 'Girl with Violets', 1877
Maria Oakey Dewing, 'Carnations', 1901
Maria Oakey Dewing, 'Garden in May', 1895
Maria Oakey Dewing, 'Iris at Dawn', 1899