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sábado, 23 de setembro de 2017

"A Cor da tua Alma" - Poema de Juan Ramón Jiménez


Adolf Hölzel (1853-1934), The Love Letter



A Cor da tua Alma


Enquanto eu te beijo, o seu rumor 
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro 
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro 
da árvore que é a árvore de meu amor. 

Não é fulgor, não é ardor, não é primor 
o que me dá de ti o que te adoro, 
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro, 
é o ouro feito sombra: a tua cor. 

A cor de tua alma; pois teus olhos 
vão-se tornando nela, e à medida 
que o sol troca por seus rubros seus ouros, 
e tu te fazes pálida e fundida, 
sai o ouro feito tu de teus dois olhos 
que me são paz, fé, sol: a minha vida! 


Juan Ramón Jiménez, in "Ríos que se Van" 
Tradução de José Bento


quinta-feira, 3 de julho de 2014

"Este é um dos Lugares" - Poema de José Bento


Joaquín Sorolla y Bastida, "La siesta en el jardin", 1904



Este é um dos Lugares


 Este é um dos lugares (ou parte alguma?) 
que nunca esperei ocupar ou ver sequer; 
alheio em tudo, igual a tantos outros 
que breves soube e de que nada guardo. 
Um só espaço em verdade me pertence, 
- meu berço, meu texto, meu legado: 
a casa que é a mãe e viverá 
enquanto eu não abdique do seu sangue. 
Lá estou e serei: sou as paredes, 
a escuridão que a procura e adormece, 
sublimando-a tanto como a luz, 
trave do seu lar frio e seu apelo, 
pelas janelas vendadas defendida. 
Batei à porta, chamai do seu jardim 
devastado até não me ser senão lembrança: 
lá dentro, responderei, embora aqui, 
desde sempre à espera de ninguém. 


José Bento, 
in 'Silabário', 1992


Joaquín Sorolla, Autorretrato, Museu Sorolla - Madrid


Joaquín Sorolla y Bastida (27 de Fevereiro de 1863, Valência - 10 de Agosto de 1923, Cercedilla), foi um pintor espanhol. Sua obra tem sido rotulada como impressionista, pós-impressionista e Luminista.
Sua formação académica foi realizada na Escola de Belas Artes e, em 1889, mudou-se para Madrid. Um ano antes, casou-se com Clotilde García del Castillo, com quem teve duas filhas e um filho. 
Em 1894 viajou até Paris, onde desenvolveu seu peculiar estilo pictórico. 
Começou a pintar ao ar livre, dominando com maestria a luz e combinando-a com cenas quotidianas e paisagens da vida mediterrânea. 
Depois de muitas viagens pela Europa e América, onde realizou diversas exposições de destaque, foi reconhecido internacionalmente.


Joaquin Sorolla, "Beach at Valencia", 1908.


Em 1911, assinou um contrato com a Hispanic Society of America para a realização de um enorme painel mural, de 3.5m de altura por 70m de comprimento. Este projeto, ao qual se dedicou entre 1913/1919, tornou-se um grande monumento de celebração ao seu país natal, com representações características de diversas províncias espanholas.
 

Joaquín Sorolla, Retrato de Raquel Meller, 1918.


Conhecido como o Pintor da Luz, foi o mais prolífico dos pintores  espanhóis, com mais de 2 200 obras em seu poder. Foi um retratista notável e, entre essas obras, deve-se ressaltar o retrato de Juan Ramón Jiménez (Nobel de Literatura,1956).


Joaquín Sorolla, Retrato de Juan Ramón Jiménez, 1903 


Em 1920, enquanto pintava, sofreu um colapso que afetou drasticamente suas capacidades, vindo a falecer três anos depois. Após sua morte, foi criado o Museu sediado na casa onde viveu a partir de 1911, graças ao esforço e desejo de sua mulher, que em seu testamento ditado em 1925, ofereceu ao Estado Espanhol todos os bens da família, incluído a coleção de quadros pintados pelo artista.


Joaquín Sorolla, "My Wife and Daughters in the Garden", 1910.


Joaquin Sorolla, "Walk on the Beach", 1909. Sorolla Museum, Madrid


"Custa tanto escrever um bom livro como um mau livro; mas só merece respeito a Arte que é em nós uma imposição, um destino, um fogo inconsumível de espírito, ainda que a obra, relativa à nossa exigência, nos pareça medíocre." 



segunda-feira, 30 de junho de 2014

"Stabat Mater" - Poema de José Bento


 Maria Oakey Dewing, A Bed of Poppies, 1909



Stabat Mater


Estava a mãe de pé, já sem o filho
que fora a razão de ter aceite
um quotidiano rasteiro e o prodígio:
entre ambos, não ousava distingui-los.

Traspassara-se quando o viu deixar a casa
para se completar longe das mãos
que o receberam e fizeram crescer,
- nela sempre menino, e tão inerme
que de si nunca o desprenderia.

Soubera que ele fora domado, escarnecido,
mais bem pago para ser mais proveitoso,
soldado em guerras de outros
em que sempre foi um derrotado;
traído por mulheres de uma beleza
não somente fascínio e um ardil,
mas perdão para quem por elas se jogasse.
Mais que ninguém, ela sofrera-o sem dizê-lo.

Devolveram-lho por fim, já só em parte,
para uni-lo na cama onde nascera.

Tudo nela ruiu, os seus escombros
são o mais intenso túmulo,
sem ter onde vá sorver a força
para sumir-se no apagamento
de si mesma e de tudo,
até da manhã que a saudou a anunciar-lhe
o fruto que sua flor tinha alcançado.

E pede que nenhuma luz venha acordá-la.


José Bento
, in 'Alguns Motetos'



 
José Bento

Poeta e tradutor português, mas também professor do ensino técnico e autor de várias obras especializadas na área da contabilidade, comércio e fiscalidade, José Bento de Almeida e Silva nasceu a 17 de novembro de 1932, em Pardilhó, no concelho de Estarreja. Colaborou, desde muito jovem, com poesia e crítica literária em revistas como Sísifo, Árvore, Cassiopeia, Cadernos do Meio-Dia, Eros, entre outras. Entre 1963 e 1969 pertenceu à redação da revista O Tempo e o Modo.
Tradutor de mérito reconhecido da poesia espanhola clássica e contemporânea, traduziu, entre muitos outros autores, Miguel de Cervantes, Calderón de la Barca, Ortega y Gasset, Jorge Luis Borges, Luis Cernuda, Ángel Crespo, Pablo Neruda, Federico Garcia Lorca, Unamuno, Octavio Paz, Garcilaso de la Vega; os místicos S. João da Cruz e Santa Teresa de Ávila; sendo ainda autor de coletâneas de poesia espanhola como a Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea.
Até à publicação de Silabário, a sua poesia encontrava-se, com exceção de três títulos, dispersa por periódicos, o que não significa que o seu nome fosse desconhecido do meio literário português, pelo contrário, além de a sua colaboração figurar nas revistas que tiveram uma ação cultural relevante nos anos 50, é autor de textos de crítica poética, inseridos em prefácios ou artigos, que atestam um conhecimento aprofundado da poesia contemporânea portuguesa.
O sujeito poético que exprime um pessimismo existencial que o conduz a "proclamar o estado de absoluta privação do homem ou a irremediável mudança que o tempo nele opera, tornando-o irreconhecível a seus próprios olhos, ou ainda a sua inescapável condição caída, acaba por encontrar nas palavras (...) a única paz, a única existência" (p. 290). Ponderada, decantada, em diálogo subtil com textos e autores, da sua poesia pode-se, parodiando a introdução do autor às Poesias Completas de S. João da Cruz, dizer que raras vezes, como nos seus poemas, "a crítica sentirá as suas limitações e a fragilidade de alguns dos seus juízos críticos: esgotadas as minuciosas e indispensáveis pesquisas textuais, detetadas as fontes, explicitado o pensamento subjacente a estes poemas, o crítico fica frente a frente com eles na sua nudez total, o que acontece então não pode senão ser um ato de amor, pois tudo o mais sobra, é inútil." (p. 13)
Ao longo de toda a sua carreira literária, tem sido alvo de várias homenagens como aconteceu, por exemplo, em 1991, quando foi condecorado, pelo Rei Juan Carlos de Espanha, com a medalha de ouro de Belas-Artes; em 1992, quando foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República Mário Soares; ainda nesse ano, com os prémios Pen Clube Português e D. Dinis da Fundação Casa de Mateus, pelo trabalho Silabário; em 2005, com a atribuição do Grande Prémio de Tradução do Pen Clube Português; e, em 2006, com o 1.º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

  José Bento. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-30].


Galeria de Maria Oakey Dewing
Woman in Black: Portrait of Maria Oakey Dewing, 
by Thomas Wilmer Dewing, oil on panel, 1887. 


Maria Oakey Dewing (October 27, 1845 – December 13, 1927) was an American painter known for her depiction of flowers. Her work was inspired by John La Farge and her love of gardening. She also made figure drawings and was a founding member of the Art Students League of New York. Dewing won bronze medals for two of her works at world expositions. She was married to artist Thomas Wilmer Dewing.

Maria Oakey Dewing, Girl with Violets, 1877


Maria Oakey Dewing, Carnations, 1901


Maria Oakey Dewing, Garden in May, 1895


Maria Oakey Dewing, Iris at Dawn, 1899