Mostrar mensagens com a etiqueta Simon Glücklich. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Simon Glücklich. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 23 de junho de 2020

"Eu te amo" - Poema de Adalgisa Nery


Simon Glücklich (1863-1943), Young woman sitting, 
in a blue dress (Mrs. Trinkl), 1920



Eu te amo


Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.


Adalgisa Nery
(1905-1980)



quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Os passos da Poesia" - Poema de Eduarda Chiote





Os passos da Poesia


Deslizas pela delicadeza
com teus pés magoados.
Por que caminhas agora sobre vidros,
por que exiges de ti essa aguda cautela?
Os céus teriam sido a morada, as areias finas
do nosso desencontro?
Soubera-o eu e ter-te-ia ajudado a não descalçar os sapatos.
As meias também.
Deixar-te ficar com elas, durante o amor,
tem sido (foi sempre) um motivo de deleite.
De carinho.
Uma inclinação natural
de proteger-te.
Se te pintara, numa imensa e clara tela, começaria
por essa mancha: estremecida.
Estremecida!
Ia jurar que nunca te apercebeste de como posso,
em discrição, exceder-lhe os pormenores
– convocar o fascínio,
a cor, a textura; pressagiar-lhe os passos de um suor doloroso.
Por que permiti, então, o caminhares por lugares
penosos?
Não mo perdoo.
Agora que os aperfeiçoas na fuga, espero bem poder acolhê-los
como pombas,
lavar-tos com a imaginação perfumada
das nuvens,
o olhar atento ao delicado equilíbrio, no quadro,
da moldura.
Anunciavam já, no tempo em que ao meu encontro
corriam, esse enredo de minuciosas
dores? – Quais? As de viver? O competente espaço
onde os acolho para a frescura da relva
por nascer?


sábado, 13 de julho de 2019

"Risos" - Poema de Casimiro de Abreu



Simon Glücklich (1863 - 1943), Children on a meadow in blossom



Risos


Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!

A vida é triste — quem nega?
— Nem vale a pena dizê-lo.
Deus a parte entre seus dedos
Qual um fio de cabelo!

Como o dia, a nossa vida
Na aurora é — toda venturas,
De tarde — doce tristeza,
De noite — sombras escuras!

A velhice tem gemidos,
— A dor das visões passadas —
A mocidade — queixumes,
Só a infância tem risadas!

Ri, criança, a vida é curta,
O sonho dura um instante.
Depois... o cipreste esguio
Mostra a cova ao viandante!


Rio, 1858

segunda-feira, 3 de junho de 2019

"Infância" - Poema de Helena Kolody



Simon Glücklich (Polish-born German painter, 1863 - 1943), "Blind men’s buff" 
(Children dancing in a round).
Date unknown



Infância


Aquelas tardes de Três Barras,
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
“Mais bom dia, Vossa Senhoria”...
“Bom barqueiro! Bom barqueiro...”
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras.
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras! 

in A Sombra no Rio, 1951



Simon Glücklich, Children in the Evening
 

Arco-íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.


Helena Kolody
(Haicai)


domingo, 2 de junho de 2019

"A Escola Portuguesa" - Poema de Guerra Junqueiro


Simon Glücklich (1863-1943), The Homework, 1893 



A Escola Portuguesa 


Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão:
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.

Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora
Dos corpos feitos de arminho,
Das almas feitas d'aurora.

Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrela.

Contemplam de quando em quando,
E com inveja, Senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor.

Oh, que existência doirada
Lá cima, no azul, na glória,
Sem cartilhas, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!

E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos,
E as cifras tristes dão ais!

Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix com as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!

Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é — Ontem
E o do discípulo — Amanhã!

Como é que há de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o Passado quem ensina
O b a ba ao Futuro!

Entregar a um tarimbeiro
Um coração infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!

Barbaridade irrisória,
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!

A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada!
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvoradal

Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.

Da pequenina semente,
Que a escola régia destrói,
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.

Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoireiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.

Deixai ver o Sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço.
Esta escola é um atentado,
Um roubo feito ao progresso.

Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paul;
Rasgai no muro Ignorância
Trezentas portas de azul!

O professor asinino,
Segundo entre nós ele é,
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.

Empunhando as rijas férulas
Vós esmagais e partis
As crianças — essas pérolas
Na escola — esse almofariz.

Isto escolas!... que índecência
Escolas, esta farsada!
São açougues de inocência,
São talhos d'anjos, mais nada. 


Guerra Junqueiro
(1850-1923),
in 'A Musa em Férias'

'A Musa em Férias' de 1879, é um volume de poesias de Guerra Junqueiro, subintitulado Idílios e Sátiras. No poema inicial, "A Musa", o autor aponta por antonomásia os atributos da sua poesia: é "reta como a justiça", "detesta os velhos pedantes, / ama o justo, o belo e o nu"; "vai neste caminho escuro / lutando, cantando e rindo, / senta-se junto ao Futuro". Nestes versos resumem-se as orientações temáticas das composições, distribuídas por três partes - "As crianças", "À sombra das árvores", "Combates" -, que aduzem à componente de crítica social uma forte intenção progressista. (daqui)
(Este poema de Guerra Junqueiro,´A Escola Portuguesa',  é um retrato da Escola do seu tempo.)

sábado, 17 de dezembro de 2016

"Os anjos" - Poema de Vitorino Nemésio


Simon Glücklich (1863-1943), Santa Cecília acompanhada de anjos, 1886



Os anjos


Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as plumas.
Na leira rasa de aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
—Deus, de teu nome! —sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te,
Ó ser de Anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Anjos são os terríveis
Modos de Deus connosco;
Nós, as suas possíveis
Transparências a fosco.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que múrmura os evoque,
E vão-se, e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem à memória
Como uma bolha de ar na água do olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo…
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo, de si, é àvido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo, hora a hora:
É ele que não entende
A nossa estupidez.


in O Pão e a Culpa, Lisboa 1955


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"Poema da malta das naus" - António Gedeão


Simon Glücklich (1863-1943), Boy with sailing boat



Poema da malta das naus


Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
Com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


António Gedeão
Rómulo de Carvalho (pseudónimo  António Gedeão)


Mariza - Barco Negro


“Os ventos que às vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que nos trazem algo que aprendemos a amar. Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre.” - Bob Marley

[Bob Marley, (Nine Mile, 6 de fevereiro de 1945 — Miami, 11 de maio de 1981), foi um cantor, guitarrista e compositor jamaicano, o mais conhecido músico de reggae de todos os tempos, famoso por popularizar o género. Grande parte do seu trabalho lidava com os problemas dos pobres e oprimidos.]