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sexta-feira, 19 de abril de 2019

"Narciso" - Poema de José Régio


Narciso


Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho! 


José Régio, in 'Biografia'


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

"Entrega" - Poema de Pedro Homem de Mello





Entrega


Descalço venho dos confins da infância,
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância.
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas.
Menino, irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Quem te ignorar ignora os que são tristes,
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!


Pedro Homem de Mello




Ricardo Ribeiro e Pedro Jóia - Entrega 

sexta-feira, 31 de março de 2017

"A Música" - Poema de Charles Baudelaire





A Música


A música p'ra mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera! 


Tradução de Delfim Guimarães




Caravaggio, The Lute Player1595-1596,  Hermitage MuseumSaint Petersburg (Hermitage version)



"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia." 



Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Adagio
(Τhis version is made by Elise Robineau)


segunda-feira, 27 de julho de 2015

"O Primeiro Filho" - Poema de António Nobre





O Primeiro Filho


A virgem de ontem é já hoje Mãe: 
O leito azul e branco do noivado 
Ei-lo, em bem pouco tempo, transformado 
Num berço onde existe mais alguém. 

Na rósea alcova atapetada, além, 
Uma velhota, ex-noiva do passado, 
Beijando o pequenito com cuidado, 
Diz: — Bom tempo em que eu fui assim, também. 

No entanto a boa Mãe cheia de Graça, 
Estende-se no leito, exausta e lassa, 
Cercada duma auréola de luz. 

E beijando o filhito que adormece, 
Olhada assim, de súbito, parece 
A Virgem Mãe a acalentar Jesus... 


António Nobre, in 'Antologia Poética'


sexta-feira, 21 de março de 2014

"À fragilidade da vida"... Poema de Francisco de Vasconcelos


Bartolomé Esteban Murillo, A Girl and her Duenna, 1670




À fragilidade da vida


Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.


Francisco de Vasconcelos
,
Fénix Renascida




Francisco de Vasconcelos foi um poeta barroco, um dos mais importantes poetas barrocos portugueses, nascido em 1665, no Funchal, e falecido em 1723, na mesma cidade. 
Do conjunto da sua obra são de destacar Feudo do Parnaso (1729) e Hecatombe Métrico (1729). Alguns dos seus textos encontram-se incluídos na importante coletânea Fénix Renascida (1716).





Bartolomé Esteban Murillo


Bartolomé Esteban Murillo (Sevilha, 31 de dezembro de 1618 — Cádiz, 3 de abril de 1682) foi um pintor barroco espanhol.



Bartolomé Murillo: Autorretrato




Bartolomé Murillo: Boys Eating Fruit
(Grape and Melon Eaters)
, 1645-46





Bartolomé Murillo: Sagrada Familia del pajarito, 1649-1650,
óleo sobre lienzo, 144 x 188 cm, Madrid, Museo del Prado





Bartolomé Murillo: Madonna in the Clouds, 1656-1660.
Oil on canvas. Rijksmuseum, Amsterdam.




Bartolomé Murillo: La Inmaculada Concepción 
de El Escorial, (1660-1665), 
Museo del Prado, Madrid



Bartolomé Murillo: The Little Fruit Seller (1670),

Bartolomé Murillo: Tres muchachos
(Dos golfillos y un negrito)
, hacia 1670,

Londres, Dulwich Picture Gallery.




Bartolomé Murillo: Niño riendo asomado a la ventana, 
1675, óleo sobre lienzo, Londres, National Gallery.




Bartolomé Murillo: Los niños de la concha (1670 - 1675)





Bartolomé Murillo: Imaculada Conceição, 1678. 
Museu do Prado, Madrid




Pintura Barroca


A pintura barroca é uma pintura realista, concentrada nos retratos no interior das casas, nas paisagens, nas naturezas mortas e nas cenas populares (barroco holandês). No norte da Europa, Rembrandt e Vermeer ampliaram os limites do realismo.

Por outro lado, a expansão e o fortalecimento do protestantismo fizeram com que os católicos utilizassem a pintura como um instrumento de divulgação da sua doutrina. Na Itália e na Espanha, a Igreja Católica, em clima de militância e Contra-Reforma, pressionava os artistas para que buscassem o realismo mais convincente possível.


Características da pintura barroca


  • Composição simétrica, em diagonal - que se revela num estilo grandioso, monumental, retorcido, substituindo a unidade geométrica e o equilíbrio da arte renascentista.
  • Acentuado contraste de claro-escuro (expressão dos sentimentos) - era um recurso que visava a intensificar a sensação de profundidade.
  • Realista, abrangendo todas as camadas sociais.
  • Escolha de cenas no seu momento de maior intensidade dramática.
  • A luz não aparece por um meio natural, mas sim projetada para guiar o olhar do observador até o acontecimento principal da obra, como acontece na obra "Vocação de São Mateus", de Caravaggio.


"Vocação de São Mateus", de Caravaggio.


A Vocação de São Mateus ou Invocação de São Mateus é uma pintura realizada pelo o pintor barroco italiano Caravaggio concluída em 1599-1600 para a Capela Contarelli em San Luigi dei Francesi, onde ainda se conserva em Roma. Mais de uma década antes, o cardeal Matteo Contarelli tinha deixado fundos e as instruções específicas para a decoração de uma capela com base em temas de seu santo padroeiro.

A pintura retrata a história do Evangelho de Mateus (Mateus 9:9 - conhecida como Chamado de Mateus): Partindo Jesus dali, viu sentado na coletoria um homem chamado Mateus, e disse-lhe: "Segue-me". E ele, levantando-se, o seguiu.

As três telas adjacentes de Caravaggio na capela Contarelli representam uma mudança decisiva do maneirismo idealizante de que d'Arpino foi o último grande praticante, e a arte nova, mais naturalista representado por Caravaggio e Annibale Carracci. Foi uma das primeiras pinturas religiosas, expostas ao público, na que se dava uma representação realista.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Arte inspirada nas Histórias da Bíblia - Obras de Caravaggio (Michelangelo Merisi da Caravaggio)


Caravaggio, São João Batista no deserto (c. 1604)





Personagem bíblica e santo do Cristianismo, o pregador judeu do início do século I, citado pelo historiador Flávio Josefo e os autores dos quatro Evangelhos da Bíblia, S. João Batista terá nascido na Judeia, no ano 2 a.C. e morrido em 27 d.C
Segundo a narração do Evangelho de São Lucas, João Batista era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria, mãe de Jesus.
Foi profeta e é considerado, principalmente pelos cristãos ortodoxos, como o "precursor" do prometido Messias, Jesus Cristo. 
Batizou muitos judeus, incluindo Jesus, no rio Jordão, e introduziu o batismo de gentios nos rituais de conversão judaicos, que mais tarde foram adptados pelo cristianismo. Partiu para o deserto para pregar.
Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade.


Caravaggio (Vida e Obra)

Caravaggio, pintura de Ottavio Leoni, cerca de 1621.


Pintor italiano, Michelangelo Merisi ficou conhecido como Caravaggio, o nome da aldeia onde nasceu em 1573, situada perto de Milão. É normalmente identificado como um artista barroco, estilo do qual foi o primeiro grande representante.
Aluno de Simone Peterzano, influenciado por Ticiano, partiu depois para Roma, onde começou por trabalhar para o Cavaliere d'Arpino, um pintor maneirista. Nos primeiros trabalhos reflete-se desde logo a preocupação pelo jogo do claro-escuro, um elemento que viria a definir a sua arte. O Tocador de Alaúde e A Cigana que prevê o Futuro contam-se entre os trabalhos desta época, encomendados pelo Cardeal Francesco del Monte. A maturação do seu estilo começou com a decoração de uma capela em S. Luigi dei Francesi, em Roma, que provocou controvérsia. Os modelos das suas composições eram figuras vulgares, camponeses e membros das classes mais baixas. O realismo, a ousadia, a originalidade com que representava cenas religiosas levou à rejeição da obra pelo clero. A versão finalmente aceite de S. Mateus e o Anjo data de 1599. As primeiras versões de O Martírio de S. Pedro e A Conversão de S. Paulo, pintadas na capela de Santa Maria del Popolo em 1600, foram igualmente rejeitadas. A irreverência que caracterizava a sua obra fazia igualmente parte do seu caráter. Turbulento e desordeiro, viu-se obrigado a fugir à justiça em 1606, partindo para Nápoles. O seu périplo, assinalado por disputas e vinganças, conduziu-o de Nápoles a Malta, depois à Sicília e novamente a Nápoles, onde foi gravemente ferido. Acabou por morrer, em 1610, num pequeno porto toscano com um ataque de malária, contraída durante uma passagem pela prisão local, vítima de um mal-entendido. As últimas obras, realizadas em Malta e na Sicília, acentuam a simplicidade das formas e o poder dramático criado pelo contraste entre a luz e sombra. A sua influência é sobretudo assinalável nos artistas flamengos e holandeses, o que inclui Rubens e até Rembrandt e os pintores da escola de Utrecht. Vai ainda influenciar a pintura espanhola, designadamente Velásquez e Murillo.

Caravaggio. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-06-21].


Caravaggio, A Anunciação, 1608 (The Annunciation)


Caravaggio, Repouso na Fuga para o Egito (1595-1596)


Caravaggio, Ceia em Emaús (1601)


Caravaggio, A Captura de Cristo, (O Beijo de Judas), 1602, Galeria Nacional da Irlanda


Caravaggio, A flagelação de Jesus, 1607


Caravaggio, A deposição de Cristo no túmulo, c. 1602-1604  
 Óleo sobre tela - 300 x 203


Caravaggio, São João Batista (1609-1610)


 Outro João Batista (1604/1609) por Caravaggio


Caravaggio, A Decapitação de São João Batista, 1608


 Caravaggio, Salomé com a cabeça de São João Batista 


 Caravaggio, A incredulidade de Tomé


Ao longo da história da arte, muitos artistas foram inspirados por histórias da Bíblia.
No Art and the Bible, site de língua inglesa, apresenta uma seleção de artistas e seus quadros, todos relacionados a uma passagem da Bíblia. (http://www.artbible.info)

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