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sábado, 24 de junho de 2023

"João Batista" - Poema de Sílvia Araújo Mota


Bartolomé Esteban Murillo (Spanish Baroque painter, 1617–1682),
The Christ Child and the Infant John the Baptist (right) with a Shell
or The Holy Children with a Shell, c. 1670/75. Oil on canvas.
Museo del Prado, Madrid.


João Batista

 
João Batista, pregador judeu,
no início do Séc. I, chamado
de João, o Batizador,
citado por Evangelizadores
nasceu 2 a.C e morreu 30 d.C.

Filho do Sacerdote Zacarias
e de Isabel, prima de Maria,
a jovem Mãe de Jesus.
Batizou muitos judeus,
incluindo seu primo Jesus.

João foi reconhecido Profeta!
Considerado pelos cristãos,
como o precursor do Prometido,
o Messias, Jesus Cristo, por ele
batizado no Rio Jordão.

João Batista introduziu
o Batismo de Gentios
nos Rituais Judaicos
de Conversão, adaptados
para o Batismo do Cristão.

João nasceu na cidade de Judá,
a seis quilómetros de Jerusalém.
Sua mãe pertencia à Sociedade
Religiosa para a Educação,
das “Filhas de Aarão”.

João foi muitas vezes chamado
de “Encarnação de Elias.”
Até na forma de se vestir,
com peles de animais
e no método de exortação.

O Discurso principal de João
era sobre a vinda do Messias
fonte de Esperança para a Nação
que esperava sempre o dia
de tornar-se digna e independente.

Os judeus defendiam a ideia
da sua nacionalidade
ter iniciado com Abrahão
e que culminaria, na Verdade,
com a chegada do Messias da Salvação.

João, na aldeia chamada
“Adão” pregou sobre o Messias:
“Aquele que viria”, do qual
não seria digno de atar-lhe as alparcas...”
A polémica surgiu, naturalmente...

Importante notar o novo Batismo
que João trouxe aos arrependidos...
A experiência do Batismo de Jesus
motivou ainda mais a sua fé
e seus Ministérios vividos.

A mando do Rei Herodes Antipas,
João ficou dez meses preso até à morte,
porque lhe fez críticas pelo discurso...
A cabeça de João foi entregue ao Rei
e o corpo queimado, em uma fogueira.

Belo Horizonte, 27 de agosto de 2007.
(Professora e escritora brasileira, n. 1951)


Bartolomé González y Serrano (Spanish Baroque painter, 1564–1627),
Saint John the Baptist, c. 1621. Oil on canvas, 150 x 90 cm,
Museum of Fine Arts, Budapest.
 

 
 Anton Raphael Mengs (German painter, 1728-1779),
  St. John the Baptist Preaching in the Wilderness, 1760
 

Personagem bíblica e santo do Cristianismo, S. João Baptista terá nascido na Judeia, no ano 2 a. C., e morrido em 30 d. C. Era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria. Introduziu o batismo, como prática na conversão de gentios, cerimónia que mais tarde seria adotada pelo cristianismo.
Surge como um precursor de Jesus Cristo, que veio a batizar, no rio Jordão, e a reconhecer como o verdadeiro messias. Partiu para o deserto para pregar.
Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade. (daqui)




O Nascimento de João Batista (ou Dia de São João ou Nascimento do Precursor) é uma festa cristã celebrando o nascimento de João Batista, um profeta que previu o advento do Messias na pessoa de Jesus Cristo e o batizou. Esta festa é amplamente comemorada no mundo cristão no dia 24 de junho e é uma das festas juninas. É também o único santo cujo nascimento e martírio, este último em 29 de Agosto, são evocados em duas solenidades pelo povo cristão.
A noite de 23 de Junho, véspera do Dia de São João, marca o início da celebração da festa de São João Batista. O Evangelho de Lucas (Lucas 1:36, 56-57) afirma que João nasceu cerca de seis meses antes de Jesus; portanto, a festa de São João Batista foi fixada em 24 de junho, seis meses antes da véspera de Natal. Este dia de festa é um dos poucos dias santos que comemora o aniversário do nascimento, ao invés da morte, do santo homenageado.  (daqui)
 

domingo, 13 de dezembro de 2020

"Nascença Eterna" - Poema de José Régio


Anton Raphael Mengs (1728-1779), The Adoration of the Shepherds,1770


Nascença Eterna

 
Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.

Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.
 

 José Régio, em ‘Obra Completa’

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"Cristo e Madalena" - Poema de Nuno Júdice



Albert Edelfelt (1854–1905), Christ and Mary Magdalene, 1890
 


Cristo e Madalena


No museu de Helsínquia, uma arrependida Madalena
atira-se aos pés de um cristo mais humano do que
é habitual. Talvez por isso os olhos de madalena
procuram os olhos de cristo, e uma hipótese de
 sorriso (ou será ironia?) abre-se nos lábios dele
mais húmidos que o habitual. Ao contrário de
quadros antigos, com a mesma madalena e o mesmo
cristo, esta tem uma fita a prender os louros
cabelos, veste um casaco de veludo, e o peito
apenas se deixa adivinhar sob uma camisa branca e
jóias de boa qualidade. Ali, no museu de Helsínquia, é
normal que esta situação não siga os modelos
canónicos: o norte não é um lugar para excessos, para
tragédias, e tanto a madalena como cristo fazem bem
em corportarem-se como burgueses. De facto, o cristo de
sandálias que estende a mão à madalena de edelfeldt,
até lhe fala com ar desprendido, como se comentasse
o tempo. Por outro lado, tudo se passa à beira de um
lago, a não ser que o que se vê seja um braço
do mar báltico, como é frequente nesta região: e
para que haveria o pintor de imaginar cenários
exóticos, quando o que interessa é dar um
fundo compreensível (percetível) ao mistério que
envolve esta cena. De facto, por que haveria cristo
de perder tempo com uma pecadora? A não ser que ela
usasse argumentos fortes na sua discussão, mais fortes
do que o banal arrependimento que, nestas situações
não parece das coisas mais consistentes. Sim: que
desgosto de amor o terá provocado?, que conflito de
 cama, que suspeita de doença, que súbito cansaço
na vida de bordel? Nada que o tempo não possa curar...
a não ser que esta troca de olhares, à luz do sol,
se prolongue para lá das árvores, do céu que se
reflete na água da dureza das pedras em que
 os seus joelhos se magoam, mesmo que o chão esteja
coberto das folhas mortas do outono. Então,
deixo-os sozinhos. Há conversas que não se podem
interromper, segredos que não se devem desvendar.


Nuno Júdice, 1999
 In Teoria Geral do Sentimento - Poesia Reunida 1967-2000,
 Assírio & Alvim, Lisboa: 2000, pp.925-26

Antologia de poemas dedicados a Madalena de Helena Barbas (Ler)


Fra Angelico (born Guido di Pietro; c. 1395–1455), Crucifixion with the Virgin, 
Saint John and Mary Magdalene, Monastery of San Marco in Florence


Girolamo Savoldo Mary Magdalene, ca. 1535–40, oil on canvas, London, National Gallery


Appearance of Jesus Christ to Mary Magdalene, 1835,  by Alexander Andreyevich Ivanov.
 In John 20:1–13, Mary Magdalene sees the risen Jesus alone and he tells her 
"Don't touch me, for I have not yet ascended to my father." (Noli me tangere)



"Madalena – História e Mito"

  •  Introdução

"Primeiro que tudo é preciso esclarecer que a Verdade sobre Maria Madalena é que não há verdade nenhuma. Todos os mistérios com que os romances mais recentes pretendem envolver a figura são o segredo da mera ignorância dos seus autores, ou da exploração da total ausência de factos e artefactos históricos.

Em 1988, quando fiz tese de doutoramento sobre Maria Madalena na Literatura e artes portuguesas (F.C.S.H. – U.N.L.), terminei com uma frase que me surgiu arrogante e subitamente se tornou vaticinadora. Que a figura de Madalena preenchia as necessidades psicológicas típicas de um mito, que talvez estivesse a começar a encontrar o seu momento de efetivação. E assim parece estar a acontecer.

Mas os mitos também nascem, crescem e morrem. E porque o nosso tempo é de velocidades, o auge da recuperação presente de Madalena pode também corresponder ao princípio do seu fim, pelas tentativas de atribuir uma consistência física e real a uma entidade que só funcionará fora delas.

O mito, feito a partir da história, desembaraça-se dela. Sobrevive e alimenta-se da capacidade de significação infinita dos símbolos profundos a que recorre para se manifestar. Quando se procura explicá-lo, ou circunscrevê-lo a eventos concretos, está-se a cortar-lhe as asas, a reduzi-lo – a forçá-lo a regressar à tal história da qual se libertou.

Quando se tenta reencaixar a figura de Maria Madalena no contexto de onde terá saído – atribuir-lhe um corpo, um bilhete de identidade, uma relação familiar concreta, uma descendência – está a matar-se o mito e a empobrecer a figura. Ficamos, pois, também todos nós mais pobres.

Assim, o objetivo deste livro não é explicar quem foi de facto Maria Madalena há dois mil anos, mas tentar perceber e mostrar como, durante dois mil anos, um nome de uma figura que nem sequer se sabe se existiu foi, sucessivamente, atraindo a si acontecimentos e narrativas que levaram à criação, primeiro de uma lenda, depois de uma biografia imaginária.

Essa biografia é resultado das várias leituras da personagem que foram sendo feitas ao longo dos séculos por centenas de escritores e artistas plásticos, dedicados às práticas sagradas e profanas. Procurarei, a partir de textos abrigados pelas tradições portuguesa e espanhola, detetar quais os modos particulares que reveste a figuração e o mito ibéricos de Maria Madalena.

O momento primeiro em que o nome de Maria de Magdalo nos aparece é nos Evangelhos. Referida no texto tido por sagrado que inspirou e inspira religiões e seitas, foi vasto o seu público e ficou garantida a sua permanência. Olharemos para esses livros como meras narrativas literárias, parte das proto-histórias das quais omito se libertou (cap. 1.1).

No Novo Testamento – no romance de Jesus Cristo – Maria aparece como uma pecadora convertida que segue Jesus até casa de Simão, lhe unge os pés e os limpa com seus belos e longos cabelos. É também a primeira testemunha da Ressurreição – sozinha, ou na companhia de outras mulheres. E acaba por tornar-se suficientemente fascinante para se autonomizar face aos outros actores do drama evangélico.

Também não se pode esquecer que Madalena aparece referida noutras obras, como os Evangelhos Apócrifos que sempre tão bem a trataram (cap. 1.2) e que nos Evangelhos Gnósticos se encontra um atribuído a Maria (cap. 1.3). A si vai chamar também episódios da vida de outras mulheres além das que seguem o rasto de Cristo.

Encontram-se outros vestígios mais antigos, arcaicos, que deixaram igualmente a marca de um gesto insólito em narrativas judaicas. Veremos o que Madalena herda através de algumas das mais célebres cenas e mulheres da Bíblia (cap. 1.4) e os seus comentários. A sua grandeza e fama, porém, Maria deve-as a Jesus Cristo. Os vários tipos possíveis de relacionamento entre ambos estão actualmente a sustentar muita literatura espúria.

A hipótese de uma relação amorosa entre Madalena e Jesus não é novidade – na vertente profana alimentou autos e dramas na Idade Média; na vertente mística foi alimentada pelas reflexões dos Padres da Igreja, pelos comentários de Hipólito e Orígenes ao Cântico dos Cânticos de Salomão que a relacionam com a Sulamita. (cap. 1.5).

É a partir destas referências que se vão elaborar as primeiras lendas – resumidas e condensadas na Legenda Aurea de Jacopo da Varazze – (cap. 2) e se consolidam os elementos base para a construção do que se entende ser a Vita de Madalena. Aqui se incluem a polémica medieval sobre as relíquias, bem como a aceitação da sua viagem até Marselha – os modos da apropriação da Santa e dos seus restos mor tais por via francesa (cap. 2.2).

Madalena gálica vai ser aceite também em Portugal (cap. 2.3) logo desde o Flos Sanctor um publicado em 1513, um manual das vidas e milagres dos santos em português vernáculo – traduzido do castelhano – para ser usado pelos pregadores nos seus sermões.

Veremos como as narrativas interagem com a pintura, o teatro e a poesia (cap. 2.4). Pelo século XVI dá-se uma grande transformação na abordagem e representações de Madalena, principalmente em consequência das Reforma e Contra-Reforma, concentradas nas propostas do Concílio de Trento (cap. 3). Rebenta também neste momento a grande querela francesa sobre os enigmas da identidade da(s) Maria(s) evangélica(s) (cap. 3.1).

Em Itália é escrita uma nova versão da lenda – a Rosa Aurea – que vai tentar desligar Madalena da vida de Cristo, censurar e rasurar todos os momentos em que entram em diálogo – inclusive os presentes nos textos canónicos (cap. 3. 2). É também neste texto que Madalena passa a estar associada ao Graal.

A partir de todas estas contribuições torna-se possível delinear uma «biografia imaginária» de Maria Madalena, conjugando todos os episódios e todas cenas que os séculos lhe foram atribuindo (cap. 4), já que o próprio das lendas é absorverem si todos os esforços – tanto os de acrescentamento quanto os de rasura – engordar e enriquecer-se à conta deles.

Destas caracterizações exteriores e psicologizantes (cap. 4.1) começa a delinear-se uma identidade, e uma individualidade (cap.4.2) para a personagem. A partir do literário, vários autores tentam submeter Madalena ao ideário pre-tarquizante do tempo (cap. 5). Têm que se confrontar com as decisões saídas de Trento (cap. 5.1) e obedecer aos decretos (5.2).

O amor de Madalena é reconduzido ao profano (cap. 5.2.1), a sua imagem começa a invocar metáforas nacionais, torna-se Leonor (cap. 5.2.2). Enquanto mito amoroso começa a aproximar-se da figura de Inês de Casto (cap. 5.3.2). Em termos internacionais a ópera italiana recupera a castelã medieval. Exibe uma personagem algo libertina (cap. 6) que nos chega por via das traduções.

O esforço francês para criar uma epopeia magdaleniana tem eco em dois poemas nacionais diretamente inspirados por Camões. Provam estes que, literária e pictoricamente, o problema da identidade de Madalena fica resolvido desde os primórdios. O seu peso como figura, as ações e gestos que lhe são atribuídos, exigem que seja uma única personagem. Só assim pode transformar-se, inclusive, em heroína épica (cap. 7) da demanda amorosa, uma nova Inês.

Um outro caminho que reforça a recondução ao profano é o seguido pela literatura edificante (cap. 8) que procura domar Madalena tornando-a doméstica. Tudo isto a desaguar nas paródias à personagem e seus gestos: Madalena torna-se lavadeira, Leonor a caminhar «descalça pela calçada» (cap. 9).

Nos países protestantes, após a Reforma, Madalena devém símbolo da distância entre o homem e Deus. Desce até ao Sul representada como figuração da Melancolia (cap. 10). Uma herdeira da acédia, a exibição do sofrimento causado pela influência astrológica do planeta Saturno, vai transformar-se no «mal-de-vivre» e no «spleen». O espelho é o das vaidades e o crânio um espelho funesto (cap. 10.1).

Madalena converte-se na cortesã francesa ou pré-rafaelita (cap. 12). Mantém a qualificação que quase nunca a abandona – a prostituta. Carregada agora com a doença da melancolia é fácil aos nossos autores simbolistas recuperarem-na – junto com Salomé – como exemplo da figura das mulheres fatais (cap. 12.1).

Madalena fica posta em sossego durante as duas Grandes Guerras. É resgatada pelo revivalismo hippy dos anos de 1960, pelos novos feminismos, como exemplo de um poder matriarcal perdido e recuperável. Regressa em 1970 como Superstar (cap. 13), diva na ópera-rock e no cinema (cap. 13.1).
Já no século XXI há um segundo surto desencadeado pelo polémico best-seller mundial, o Código Da Vin (2003), que sobre ela dirigiu os olhos do mundo. As lendas são recuperadas e deturpadas (cap. 13.2), Madalena é associada ao Graal e aos Templários (cap. 13.3).

Rebenta a quarta querela da identidade com as pseudo-descobertas de novas relíquias (cap. 13.4) e interessantes consequências científicas. Em Portugal, caminha da lenda a uma reformulação do mito. Surge na pintura de Paula Rego que lhe chama «Bruxa Branca» e exibe-se como eremita mística em Barahona Possolo. No teatro vão ainda ecoar as paródias, surgindo negra e pulverizada.

No geral encontramos a reescrita de ecos antigos também na poesia. Na prosa, José Saramago transforma-a numa nova Diotima. Já no século XXI, por interferência das novas importações (cap. 14.1) surge-nos um ensaio. No teatro Madalena é reconduzida ao seu esplendor gnóstico (cap. 14.1.1) por Armando Nascimento Rosa; encontra uma atualização verdadeiramente inédita do seu mito no romance de Rui Zink (cap. 14.1.1).

 Em 2007 estreia-se a versão portuguesa de Jesus Cristo Super Star. Em todos os momentos irão ser dados exemplos da sua representação literária e pictórica e dos modos como foi sendo recebida em Portugal, na Península. Madalena chega-nos por importação – de França, de Itália por via de Espanha.

Far-se-á, pois, uma pequena resenha das grandes diferenças que por tal apresenta relativamente às tradições estrangeiras. Maria de Magdalo é uma figura do nosso património coletivo, exibe as marcas das mudanças e evolução dos modos de pensamento e filosofias, da história psicológica do Ocidente, pertence ao campo da História das Ideias, exige uma abordagem Comparatista.

Enquanto mito, desempenha uma função no mínimo terapêutica, e não deverá ser tratada de ânimo leve. Diz-nos Jung que, quando há coincidência em testemunhos vindos de origens diversas, quando o tema renasce após séculos de aparente desgaste, é prova que se pode estar em presença de um Arquétipo. Assim, o tema de Madalena pertencerá ao depósito das imagens proto-arcaicas do inconsciente coletivo cuja manifestação, e leitura, relevam da ordem da linguagem do sonho e/ou do sagrado."
Antonio da Correggio, Noli me Tangere, c. 1525, Oil on canvas, 130 × 103 cm,
Museo del Prado, Madrid


Anton Raphael Mengs (1728-1779), Noli me tangere, 1770

sexta-feira, 5 de julho de 2019

"Recordamo-nos dos nossos sonhos" - Poema de Marguerite Yourcenar


Anton Raphael Mengs,"Diana as Personification of the Night", 1765



Recordamo-nos dos nossos sonhos


Recordamo-nos dos nossos sonhos:
não nos recordamos dos nossos sonos.

Apenas duas vezes penetrei nesses fundos
atravessados por correntes
onde os nossos sonhos
não são mais do que embarcações
de realidades submersas.

No outro dia,
bêbado de felicidade
como se fica bêbado de ar
no final de uma longa corrida,
atirei-me para a cama,
como um nadador
que se atira de costas,
os braços cruzados:
mergulhei num mar azul.

Encostado ao abismo
como uma nadadora que nada com prancha,
sustentada pela bóia de oxigénio
dos meus pulmões cheios de ar,
emergia desse mar grego
como uma ilha recém-nascida.

Esta noite,
bêbada de desgosto,
deixo-me cair sobre a cama
com os gestos de uma afogada
que se abandona:
cedo ao sono como à asfixia.

As correntes de recordações persistem
através do embrutecimento noturno,
levam-me para uma espécie de lago Asfáltico.

Não há forma
de mergulhar nessa água saturada de sais,
amarga como a secreção das pálpebras.

Flutuo como a múmia sobre o seu betume,
na apreensão de um acordar
que será no máximo uma sobrevivência.

O fluxo,
depois o refluxo do sono
fazem-me rebolar contra minha vontade
nessa praia de cambraia.

A cada momento,
os meus joelhos batem um no outro
à tua lembrança.

O frio acorda-me,
como se me tivesse deitado
ao lado de um morto.


Marguerite Yourcenar,
in Fogos
Trad. de Maria da Graça Morais Sarmento