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quarta-feira, 7 de março de 2012

"Portugal" - Poema de Alexandre O'Neill


Jaime Murteira, Rio Minho - Monção, s.d., óleo sobre tela, 50x65


Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill


Madredeus - "Haja o que houver"



"A arte é uma flor nascida no caminho da nossa vida, e que se desenvolve para suavizá-la."

Arthur Schopenhauer

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"O Lobo de S. Francisco de Assis" - Poema de Afonso Lopes Vieira

















O Lobo de S. Francisco de Assis
(Lenda)


Andava o povo assustado
A fazer a montaria
Ao grande lobo esfaimado,
Que tanto mal lhe fazia.

Ele levava nos dentes,
Agudos e carniceiros,
Os meninos inocentes
Que são os alvos cordeiros.

E as pessoas assaltando,
Vinha de noite, em segredo,
Com seus olhos chamejando,
Encher a gente de medo.

Ora S. Francisco, era
Incapaz de querer mal
Mesmo que fosse a uma fera,
Até ao tigre real.

Tinha tão bom coração
Que homens e bichos o amavam,
E as andorinhas poisavam
Na palma da sua mão...

E como ele desejava
Que tudo vivesse em paz,
Enquanto o povo caçava,
O Santo, o Poeta, que faz?

Procura o lobo cruel,
E, tendo-o encontrado enfim,
Chamou-o, foi para ele
Sorriu-lhe e falou assim:

- «Eu sei porque fazes mal,
«Eu sei o que te consome:
«Tu és tão mau afinal,
«Tu és mau porque tens fome...

«Pois bons amigos seremos,
«Para nosso e teu descanso;
«E de comer te daremos
«Para poderes ser manso.

«Promete que hás-de mudar
«De vida, neste momento;
E em sinal de juramento,
Alevanta a pata no ar
«E põe-na na minha mão!

Jurou o lobo. E cumpriu...
Depois, toda a gente o viu
Tão mansinho como um cão. 







"Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência." 

(Arthur Schopenhauer)


Madredeus - Destino



"Em geral, chamamos de destino às asneiras que cometemos." 

(Arthur Schopenhauer)

Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 — Frankfurt, 21 de Setembro 1860) foi um filósofo alemão do século XIX. 
Seu pensamento é caracterizado por não se encaixar em nenhum dos grandes sistemas de sua época. Sua obra principal é 'O mundo como vontade e representação' (1819), embora o seu livro 'Parerga e Paralipomena' (1851) seja o mais conhecido. Schopenhauer foi o filósofo que introduziu o Budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Ficou vulgarmente conhecido por seu pessimismo e entendia o Budismo (e a essência da mensagem cristã, bem como o essencial da maior parte das culturas religiosas de todos os povos em todos os tempos) como uma confirmação dessa visão realista-pessimista. 
Schopenhauer também combateu fortemente a filosofia hegeliana e influenciou fortemente o pensamento de Eduard von Hartmann e Friedrich Nietzsche.

"Cão" - Poema de Alexandre O'Neill



Clifton Tomson (British painter, 1775–1828), 
Lord Byron's Dog 'Boatswain', c.1803–1808


Cão


Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!


Alexandre O'Neill,
Poesias Completas, 1951-1986
Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)



Clifton Tomson, Lord Byron's Dog 'Lyon', 1808


Sobre a poesia de Alexandre O'Neill

«O’Neill usa com frequência imagens de animais como referência dum destino ou duma situação infra-humanos ou para-humanos. A mosca entre a cortina e a vidraça é a imagem da nossa situação «entalada» no microcosmos do quotidiano e, dum modo mais geral, no macrocosmos do País e até da condição humana. Os ratos são a referência imagética que aparece por exemplo no «Poema pouco original do medo» para sugerir a existência degradante no silêncio e no medo. O poema «Cão» utiliza também a imagem animal, desta vez para mostrar o homem-cão na sua condição existencial («cão passageiro»), social («cão de gravata pendente»), civilizacional («cão pré-fabricado»), psicológia («cão: esfera do sono»), afectiva («cão estouvado de alegria»). O verso «cão rasteiro cor de luva amarela», que é uma citação de Rilke (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge), dá ainda uma dimensão transtextual à descrição.» 

Clara Rocha, prefácio a Poesias Completas, 1951/1986 de Alexandre O'Neill.



Clifton Tomson, Two Springer Spaniels in a Landscape, 1811


- Frases sobre animais -
 

Clifton Tomson, A Saddled Grey Hunter with a Spaniel in a Wooded Landscape, 1824


"Como zeladores do planeta, é nossa responsabilidade lidar com todas as espécies com carinho, amor e compaixão. As crueldades que os animais sofrem pelas mãos dos homens está além do nossa compreensão. Por favor, ajude a parar com esta loucura." - Richard Gere



Clifton Tomson, Groom Holding a Bay Horse, c.1800 


"Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais." - Victor Hugo



Clifton Tomson, Horses and Dog in a Landscape, 1830


"Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante." - Albert Schweitzer



Clifton Tomson, Horse and Greyhound


"Virá o dia em que a matança de um animal será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem." - Leonardo da Vinci


 Madredeus - "Um raio de luz ardente"

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Ode ao Mar" - Poema de Miguel Torga


Caspar David Friedrich, The Stages of Life (Die Lebensstufen), 1835.
Museum der Bildenden Künste, Leipzig. 
 

Ode ao Mar 


Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!


Miguel Torga, in Odes, 1946

Poeta, contista, romancista, diarista, ensaísta e dramaturgo, Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. 


Madredeus - Ao longe o mar 


"Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te."

(William Shakespeare)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

"Amigo" - Poema de Alexandre O’Neill



August Allebé (Dutch artist and teacher, 1838–1927), The Butterflies, 1871



Amigo


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo.

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada. 

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill,
in
'No Reino da Dinamarca'


Madredeus - O Pastor
 


“O futuro tem muitos nomes. Para os fracos, é o inatingível. Para os temerosos, o desconhecido. 
Para os valentes, é a oportunidade.”


Victor Hugo
[Escritor, poeta, ensaísta, dramaturgo, ativista e político francês, 1802–1885]