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quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

"A poesia que desce ao poeta" - Poema de Múcio Leão


Johannes Vermeer also known as Jan Vermeer (Dutch painter, 1632–1675),
"
The Art of Painting" or "The Allegory of Painting Painter in his Studio", c. 1666–1668.
Kunsthistorisches Museum


A poesia que desce ao poeta

 
Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.

E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres e de outras regiões.


Múcio Leão
, in "Poesias", 1949.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

"Elegia para a Adolescência" - Poema de Carlos Pena Filho


Johannes Vermeer also known as Jan Vermeer (Dutch painter, 1632–1675),
Girl with a Pearl Earring, c. 1665, Mauritshuis, The Hague, Netherlands.



Elegia para a Adolescência 

 
E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que há de ser de
nós que então seremos definidos.

No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos
seremos atirados de repente,
puros e inúteis como sempre fomos.

Veremos que as vogais e as consoantes
não são mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.

E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.


Carlos Pena Filho
, in 'Livro Geral', 1959

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

"O Trabalho" - Texto de Khalil Gibran


Johannes Vermeer also known as Jan Vermeer (Dutch painter, 1632–1675), 
The Milkmaid, c. 1657-1658, Rijksmuseum in Amsterdam.


O Trabalho
(Do Livro "O Profeta")


Então, um lavrador disse: “Fala-nos do trabalho”.
E ele respondeu:

“Vós trabalhais para acompanhar o ritmo da terra, e da alma da terra.
Porque ser indolente é tornar-se um estranho às estações e afastar-se do cortejo da vida, que avança com majestade e orgulhosa submissão rumo ao infinito.
Quando trabalhais, sois uma flauta através da qual o murmúrio das horas se transforma em melodia.
Quem de vós aceitaria ser um caniço mudo e surdo quando tudo o mais canta em uníssono?
Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição; o labor, uma desgraça.
Mas eu vos digo que, quando trabalhais, realizais parte do sonho da terra, desempenhando assim uma missão que vos foi designada quando esse sonho nasceu.
E, apegando-vos ao trabalho, estais na verdade amando a vida. E quem ama a vida através do trabalho, partilha do segredo mais íntimo da vida.
Mas se em vossas dores, chamais o nascimento uma aflição e a necessidade de suportar a carne, uma maldição inscrita na vossa fronte, então eu vos direi que só o suor de vossa fronte lavará esse estigma.
Disseram-vos que a vida é escuridão; e no vosso cansaço, repetis o que os cansados vos disseram.
E eu vos digo que a vida é realmente escuridão, exceto quando há um impulso.
E todo impulso é cego, exceto quando há saber.
E todo saber é vão, exceto quando há trabalho.
E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor.
E quando trabalhais com amor, vós vos unis a vós próprios e uns aos outros, e a Deus.
E o que é trabalhar com amor?
É tecer o tecido com fios desfiados de vosso próprio coração, como se vosso bem-amado tivesse que usar esse tecido.
É construir uma casa com afeição, como se vosso bem-amado tivesse que habitar essa casa.
É semear as sementes com ternura e recolher a colheita com alegria, como se vosso bem- amado fosse comer-lhes os frutos.
É por em todas as coisas que fazeis um sopro de vossa alma.
E saber que todos os abençoados mortos vos rodeiam e vos observam.
Muitas vezes ouvi-vos dizer como se estivésseis falando em sonho: “Aquele que trabalha no mármore e encontra na pedra a forma de sua alma, é mais nobre do que aquele que lavra a terra.
E aquele que agarra o arco-íris e o estende na tela em formas humanas, é superior àquele que confeciona sandálias para nossos pés”.
Porém eu vos digo, não em sono, mas no pleno despertar do meio-dia, que o vento não fala com maior doçura aos carvalhos gigantes do que à menor das folhas da relva;
E grande é somente aquele que transforma o ulular do vento numa canção tornada mais suave pelo seu próprio amor.
O trabalho é o amor feito visível.
E se não podeis trabalhar com amor, mas somente com desgosto, melhor seria que abandonásseis vosso trabalho e vos sentásseis à porta do templo a solicitar esmolas daqueles que trabalham com alegria.
Pois se cozerdes o pão com indiferença, cozereis um pão amargo, que satisfaz somente a metade da fome do homem.
E se espremerdes a uva de má vontade, nossa má vontade se destilará no vinho como veneno.
E ainda que canteis como os anjos, se não tiverdes amor ao canto, tapais o ouvido do homem às vozes do dia e às vozes da noite.


Khalil Gibran, Excertos de O Profeta"

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

"Soneto a Vermeer" - Poema de Alberto da Costa e Silva



Johannes Vermeer also known as Jan Vermeer (Dutch painter, 1632–1675),
'The Lacemaker', c. 1669/1670, Louvre Museum.



Soneto a Vermeer


De luto, a minha avó costura à máquina,
e gira um cata-vento em plena sala.
Vejo seu rosto, sombra que a janela
corrompe contra um pátio amarelado

de sol e de mosaicos. Sobre a mesa,
a tesoura, um esquadro, alguns retalhos
e a imóvel solidão. A minha avó,
com seus olhos azuis, o tempo acalma.

A minha avó é jovem, mansa e apenas
a limpidez de tudo. Sonho vê-la
no seu vestido negro, a gola branca,
contra o corpo de cão, negro, da máquina:

a roda, de perfil, parece imóvel
e a vida não se exila na beleza.


Alberto da Costa e Silva,
in 'A Roupa no Estendal, o Muro, as Pombas' 
 


Johannes Vermeer, 'Woman with a balance', 1665


"Quem escrever a respeito de mulheres, deve molhar a pena nas cores do arco-íris 
e secar-lhe a tinta com a poeira dourada das borboletas."

(Denis Diderot