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segunda-feira, 3 de março de 2025

"Versos à infância" - Poema de Cruz e Sousa


Harold Harvey (Cornish impressionist painter, 1874 - 1941), Cornish Children, 1920.

 
 
Versos à infância

I

Nos roseirais, ao vir da madrugada,
Desabrocham no val todas as rosas,
Nos galhos cheios de uma luz doirada,
Meigas e frescas, rubras, perfumosas,
Nos roseirais, ao vir da madrugada.

Como em bocas cheirosas e vermelhas
Pousam beijos de amor e de ventura,
O mel lhe sugam todas as abelhas
Pousando em cima da corola pura
Como em bocas cheirosas e vermelhas.

Desde os campos, o bosque, até aos montes
Tudo renasce num jardim de flores;
E pelo azul do céu, nos horizontes,
Há os mais vivos, raros esplendores,
Desde os campos, o bosque, até aos montes.

Pelos ninhos sonoros, delicados,
Cantam e trinam muitos passarinhos
Nos altos arvoredos enflorados,
A margem verdejante dos calminhos,
Pelos ninhos sonoros, delicados.

As borboletas brancas e amarelas,
Azuis, cor de ouro, cor de prata e brasa,
Leves, ligeiras, ténues e singelas,
Abrem a fine talagarça da asa,
As borboletas brancas e amarelas.

Tudo no val acorda de desejos
À musica dos cantos mais risonhos;
E as aves soltas, peregrinos beijos,
Dizem, cantando, que através de sonhos
Tudo no val acorda de desejos.

II

Na alma da infância, tal e qual roseiras,
Abrem festões de límpida fragrância
Os sonhos e as quimeras passageiras
Que são mais próprias do vergel da infância,
Na alma da infância, tal e qual roseiras.

O pequenino coração ditoso
Canta canções de uma ave pequenina;
E é um encanto ver assim radioso
No peito de uma cândida menina
O pequenino coração ditoso.

A existência de sol das criancinhas
Lembra um pomar de frutas bem serenas,
Por onde os colibris e as andorinhas
Gozam amores sacudindo as penas,
A existência de sol das criancinhas.

Não sei dizer se adore mais crianças
Ou mais também as flores de um arbusto;
Nessas tão puras, castas semelhanças
Eu, para ser bem carinhoso e justo,
Não sei dizer se adore mais crianças.


Cruz e Sousa
, in O Livro Derradeiro
 
 
  
Harold Harvey, Pioneer of Aerial Navigation, 1913.


"Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um."

Platão, in "A República"
 
“Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um.” — Platão De crianças, jogos

Fonte: https://citacoes.in/autores/platao/
“Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um.” — Platão De crianças, jogos

Fonte: https://citacoes.in/autores/platao/

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

"Quando eu partir" - Poema de Cruz e Sousa


Alberto da Veiga Guignard (Pintor e professor brasileiro, 1896-1962), 
Paisagem de Ouro Preto, 1958.



Quando eu partir


Quando eu partir, que eterna e que infinita
há de crescer-me a dor de tu ficares;
quanto pesar e mesmo que pesares,
que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
que sentimento, grande como os mares,
que sombra e luto pelos teus olhares
onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
quanta saudade mais, que atroz saudade…
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

quando eu tiver já de uma vez partido,
ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa! 


Cruz e Sousa, "O livro Derradeiro", 1961.
 
["O livro Derradeiro" é uma publicação póstuma de poemas de autoria de Cruz e Sousa, contendo inéditos e outros publicados anteriormente apenas pela imprensa. Sua primeira publicação se deu em 1945, sendo expandida novamente em 1961.] 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

"Amor" - Poema de Cruz e Sousa


Jan van Beers (Belgian painter and illustrator, 1852–1927), 
Rendez-vous in the Bois de Boulogne, 1889.
 
 
Amor
 

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os notâmbulos
À fresca exalação salúbrica das flores...

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!... 


Cruz e Sousa
, in O Livro Derradeiro 
 
 ["O livro Derradeiro" é uma publicação póstuma que reune diversos poemas de autoria de João da Cruz e Sousa. Contém versos inéditos e outros divulgados pela imprensa. A obra foi lançada em 1945, mas em 1961 ganhou uma nova versão, com a inclusão de outros trabalhos do poeta.]

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Pássaro Marinho" - Poema de Cruz e Souza



Filippo Palizzi (Italian painter, 1818–1899), Young girl on a rock in Sorrento, 1871.


Pássaro Marinho


Manhã de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas.

Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um pássaro rosado,
Nas cristalinas águas murmurosas.

Dás o bom dia ao mar nesse mergulho
E das águas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços.

Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços!


Cruz e Sousa, in "O Livro Derradeiro" 
 
 

domingo, 7 de julho de 2013

“Cárcere das Almas” - Poema de Cruz e Souza


Konrad Witz, Saint Christopher, c. 1435, at the Kunstmuseum, Basel


Cárcere das Almas


Ah! Toda a alma num cárcere anda presa, 
soluçando nas trevas, entre as grades 
do calabouço, olhando imensidade, 
mares, estrelas, tardes, natureza 

Tudo se reveste de uma igual grandeza 
quando a alma entre os grilhões as liberdades 
sonha e sonhando, as imortalidades 
rasga no etéreo Espaço da Pureza. 

Ó almas presas, mudas e fechadas 
nas prisões colossais e abandonadas 
da Dor no calabouço atroz, funéreo! 

Nesses silêncios solitário, graves, 
que chaveiro do Céu possui as chaves 
para abrir-vos as portas do Mistério?!


Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro. Alcunhado Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.




"Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta 
quando o Amor toma conta dele." 



sexta-feira, 26 de abril de 2013

"Grande Amor" - Poema de Cruz e Souza


 Coles Phillips (American artist and illustrator, 1880-1927)


Grande Amor 


Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas trémulas enlaça...
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

Cântico de anjos e de arcanjos vagos
Junto às águas sonâmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido...

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.


Cruz e Sousa


João da Cruz e Sousa


Nascido há 152 anos no porão de um velho sobrado pertencente a um militar que lutou na Guerra do Paraguai, na antiga ilha de (Nossa Senhora do Desterro (atual  Florianópolis), na província de Santa Catarina, João da Cruz e Sousa (24-11-1861/19-03-1898) é hoje, sem sombra de dúvida, a maior referência da chamada escola simbolista brasileira, mas não é só. O seu legado literário — seja como poeta, seja como jornalista — soma-se à sua militância política durante o processo abolicionista, sobretudo após a eclosão desse movimento, que, em maio de 1888, teve nele um dos mais ardorosos próceres. Some-se a isso também a sua jornada existencial, em que uma falsa ideia de liberdade, igualdade e fraternidade — lema revolucionário, de origem francesa, difundido e defendido por ele — caiu totalmente por terra, sobretudo após o advento da República, de coloração positivista.

Cruz e Sousa, negro e filho de escravos, criado sob o forte regime escravista, foi educado nos moldes do padrão europeu, no Ateneu Provincial Catarinense, sob a tutela dos padres e dos catedráticos, mas jamais deixou de pensar e sentir como africano — ou agir, na esteira dos demais, como um dos seus descendentes. Na terra natal, mesmo na fase estudantil, tornou-se um caso raro entre os colegas do educandário, pela dedicação e pelo aproveitamento, apesar de ser aluno externo e filho de um “pobre jornaleiro, que tudo sacrifica pela educação dos filhos”.

Era aluno aplicado, um dos melhores de sua turma, derrubando, com o seu exemplo, estereótipos racistas em grande voga na época, sobretudo por meio de Cesare Lombroso, defensor da tese do “criminoso nato”, mas que no fundo atribuía erroneamente aos negros, especialmente aos negros, a pecha da incapacidade do aprendizado científico e da falta do desenvolvimento intelectual. Sociedade local não admitia ver um “negro letrado”

A militância literária e política de Cruz e Sousa teve início durante a juventude. Começou a escrever para a imprensa local, publicando poesia e prosa, esta no formato de contos e crónicas. A prática jornalística o fez sonhar com o poder e a glória. Num arroubo de entusiasmo, diante do sucesso de suas conquistas, teria dito, num tom meio profético e desafiador, à noiva desterrense: “Hei de morrer, mas hei de deixar nome!” ou “Ainda hei de governar Santa Catarina!”.

Desenvolto e compenetrado, não percebia a sorrateira calda dos inimigos que lhe rondavam, prontos para aplicar o bote fatal: era visto como um negro moleque, pernóstico, folgado. Surgem daí as consequências: o irmão Norberto, embora tenha tido, como ele, sólida formação, precisou trabalhar como tanoeiro para sobreviver; a mãe, Carolina Eva da Conceição, passou a ser dispensada das casas das patroas, que não admitiam ver nos jornais os textos abolicionistas do filho da empregada, passadeira e quituteira. O próprio jornal que editava, “O Moleque”, deixou de constar na lista de convidados da comunidade francesa, no aniversário da Bastilha, pela razão de ser seu editor um homem negro.

Em um dos seus famosos sonetos, escrito já no final da vida, dizia: “Vê como a Dor te transcendentaliza!/ Mas do fundo da Dor crê nobremente./ Transfigura o teu ser na força crente/ Que tudo torna belo e diviniza.” Desde cedo, provou das agruras e da reação preconceituosa que a sua luta provocava. Mas não estava só. Relacionava-se com a comunidade familiar negra da ilha, que lhe ouvia ao piano, ou interagia com os jovens artistas de sua geração, que queriam espanar da terra a poeira da imbecilidade e da pieguice. Sabia que pagaria alto preço por suas ousadias, traduzidos no fechamento de portas de cargos públicos, censuras e deboches pelos jornais.
Sobreviver a isso era uma tarefa nem sempre prazerosa e fácil: a sociedade não admitia ver um negro elegante, falante e letrado, sem sotaques regionais, envolvido com a política e com as letras clássicas. Por que ele não enxergava, de fato, o seu lugar? Por que ele, afinal, não agia à luz dos seus irmãos de cor? Mas Cruz e Sousa, o negro provocador, sempre tocava na mesma tecla, em seus eloquentes discursos: “Não se liberta o escravo por pose, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreende, nem se adaptando ao meio humanista, a palavra escravo, não se compreende da mesma forma a palavra senhor”. Não! Cruz e Sousa estava fadado a grandes voos. As provações da vida, que não lhe foram poucas, iriam persegui-lo até a hora da morte.

O fazer literário tornou-se para Cruz e Sousa um meio de vida e uma obsessão. Não que, ao transferir-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde logo se casou com a preta Gavita, dispensasse o magro emprego de Arquivista da 5 Divisão da Estrada de Ferro Central do Brasil. Mas gostava de fazer o que lhe dava mais prazer. Na repartição pública, a toda hora, precisava se livrar de um chefe mulato e racista. “É que eu lhe recordo a origem — dizia o poeta —, tenho talvez a mesma cor da mãe.” A chatura do emprego, as dificuldades financeiras, a família numerosa, a ronda da miséria cada vez mais próxima faziam com que a roda literária e a boémia do centro da cidade lhe oferecesse melhor regalo e conforto de espírito. Mas não convivia, como podia se supor, com os grandes: Machado de Assis, Olavo Bilac, Araripe Júnior, Graça Aranha, Artur Azevedo, José Veríssimo, Raimundo Correa ou José do Patrocínio. Ao contrário, sua roda de escritores era praticamente anónima e muitos, por incrível que pareça, nem obra publicada tinham: Oscar Rosas, Alvares de Azevedo Sobrinho, Pardal Mallet, Emiliano Pernetta, Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, B. Lopes, Emilio de Meneses, entre outros.
A esta “plêiade” (para empregar um termo muito usado pelos parnasianos) é que Cruz e Sousa se liga no Rio de Janeiro para alçar o almejado voo literário e artístico. Dotado de grande talento imaginativo, consegue criar uma literatura de sugestão, de nuance, de plena sonoridade, de teor do vago, do indefinido e da espiritualidade, e que, no rastro da literatura portuguesa de Antero de Quental e Cesário Verde, ou francesa de Mallarmé e Baudelaire, absorveu o cromatismo dos nossos trópicos e se transformou, pela linguagem, carregada dos vestígios bantos, na ancestralidade do seu sangue africano, numa poesia nova, sensualizada e sonora: “Vozes veladas, veludosas vozes,/ Volúpias dos violões, vozes veladas,/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos vivas, vãs, vulcanizadas”.

Lutando contra o meio adverso, estabeleceu uma guerrilha literária, à moda que empreendeu na província onde nasceu. Com isso, sofreu os reveses do aguerrido combate, ficando de fora do grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras, liderado por Machado e Lúcio de Mendonça, e que convidou para a Casa um Graça Aranha, à época sem qualquer livro publicado, enquanto Cruz e Sousa havia lançado, num único ano, o “Missal”, de prosa, e os “Broquéis”, de versos, ambos considerados inauguradores do simbolismo no Brasil.

Isolamento no fim da vida não diminuiu combatividade
. A glória de Cruz e Sousa veio mesmo depois da sua morte. Magoado e só, restava ao poeta negro apenas cuidar da família e escrever, escrever, sem dar trégua para a tuberculose que lhe minava o organismo, agravada após os seis meses de loucura da mulher. O vate não se cansava de protestar, de pedir justiça, de cobrar responsabilidade dos poderosos. Sentindo que todos os olhos estavam voltados contra si, a imprensa amordaçada nas mãos do grupo rival, pouco lhe restava como alternativa à sua criação e à veiculação de sua profícua produção.

Já no final dos seus dias, alimenta ainda mais sua dor e seu ódio (“Ó meu ódio, meu ódio majestoso”, cantava no soneto “Ódio sagrado”). A doença faz dele um homem amargo e soturno, visionário, tornando a sua poesia noturna e levemente trágica. É nesse momento que se fecha, se enclausura, trancando-se na Torre de Marfim da sua criação e do seu isolamento. Vê-se ferido (“Alma ferida pelas negras lanças/ Da Desgraça, ferida do Destino,/ Alma a que as amarguras tecem o hino/ Sombrio das cruéis desesperanças”) e emparedado dentro do seu próprio sonho.

UELINTON FARIAS ALVES é jornalista e escritor, autor da biografia “Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil” (Pallas Editora, 2008), entre outros livros. (daqui)