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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

"O Vento e Eu" - Poema de Mário Quintana

 


Antônio Parreiras (Pintor, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937),
Ventania, 1888, Pinacoteca do Estado de São Paulo.



O vento e eu


O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia…

Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo…
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele…
E me dedica um amor solidário, profundo!


Mário Quintana, in "Velório sem defunto", 1990.

 

quinta-feira, 18 de julho de 2024

"A morte, o espaço e a eternidade" - Poema de Jorge de Sena


Antônio Parreiras (Pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937),
 "Fim de romance, 1912", 1915, Pinacoteca do Estado de São Paulo.


A morte, o espaço e a eternidade

(Ao José Blanc de Portugal,
em memória de um seu ente querido,
que eu muito estimava.)
 
De morte natural nunca ninguém morreu.
Não foi para morrer que nós nascemos,
não foi só para a morte que dos tempos
chega até nós esse murmúrio cavo,
inconsolado, uivante, estertorado,
desde que anfíbios viemos a uma praia
e quadrúmanos nos erguemos. Não.
Não foi para morrermos que falámos,
que descobrimos a ternura e o fogo,
e a pintura, a escrita, a doce música.

Não foi para morrer que nós sonhámos
ser imortais, ter alma, reviver,
ou que sonhámos deuses que por nós
fossem mais imortais que sonharíamos.
Não foi. Quando aceitamos como natural,
dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
o inominável fim da nossa carne; quando
ante ele nos curvamos como se ele fora
inescapável fome de infinito; quando
vontade o imaginamos de outros deuses
que são rostos de um só; quando que a dor
é um erro humano a que na dor nos damos
porque de nós se perde algo nos outros, vamos
traindo esta ascensão, esta vitória, isto
que é ser-se humano, passo a passo, mais.

A morte é natural na natureza. Mas
nós somos o que nega a natureza. Somos
esse negar da espécie, esse negar do que
nos liga ainda ao Sol, à terra, às águas.
Para emergir nascemos. Contra tudo e além
de quanto seja o ser-se sempre o mesmo
que nasce e morre, nasce e morre, acaba
como uma espécie extinta de outras eras.
Para emergirmos livres foi que a morte
nos deu um medo que é nosso destino.
Tudo se fez para escapar-lhe, tudo
se imaginou para iludi-la, tudo
até coragem, desapego, amor,
tudo para que a morte fosse natural.

Não é. Como, se o fora, há tantos milhões de anos
a conhecemos, a sofremos, a vivemos,
e mesmo assassinando a não queremos?
Como nunca ninguém a recebeu
senão cansado de viver? Como a ninguém
sequer é concebível para quem lhe seja
um ente amado, um ser diverso, um corpo
que mais amamos que a nós próprios? Como
será que os animais, junto de nós,
a mostram na amargura de um olhar
que lânguido esmorece rebelado?

E desde sempre se morreu. Que prova?
Morrem os astros, porque acabam. Morre
tudo o que acaba, diz-se. Mas que prova?
Só prova que se morre de universo pouco,
do pouco de universo conquistado.

Não há limites para a Vida. Não
aquela que de um salto se formou
lá onde um dia alguns cristais comeram;
nem bem aquela que, animal ou planta,
foi sendo pelo mundo este morrer constante
de vidas que outras vidas alimentam
para que novas vidas surjam que
como primárias células se absorvam.
A Vida Humana, sim, a respirada,
suada, segregada, circulada,
a que é excremento e sangue, a que é semente
e é gozo e é dor e pele que palpita
ligeiramente fria sob ardentes dedos.
Não há limites para ela. É uma injustiça
que sempre se morresse, quando agora
de tanto que matava se não morre.
É o pouco de universo a que se agarram,
para morrer, os que possuem tudo.
O pouco que não basta e que nos mata,
quando como ele a Vida não se amplia,
e é como a pele do ónagro, que se encolhe,
retráctil e submissa, conformada.
É uma injustiça a morte. É cobardia
que alguém a aceite resignadamente.
O estado natural é complacência eterna,
é uma traição ao medo por que somos,
àquilo que nos cabe: ser o espírito
sempre mais vasto do Universo infindo.

O Sol, a Via Láctea, as nebulosas,
teremos e veremos até que
a Vida seja de imortais que somos
no instante em que da morte nos soltamos.
A Morte é deste mundo em que o pecado,
a queda, a falta originária, o mal
é aceitar seja o que for, rendidos.

E Deus não quer que nós, nenhum de nós,
nenhum aceite nada. Ele espera,
como um juiz na meta da corrida
torcendo as mãos de desespero e angústia,
porque nada pode fazer nada e vê
que os corredores desistem, se acomodam,
ou vão tombar exaustos no caminho.
De nós se acresce ele mesmo que será
o espírito que formos, o saber e a força.
Não é nos braços dele que repousamos,
mas ele se encontrará nos nossos braços
quando chegarmos mais além do que ele.
Não nos aguarda – a mim, a ti, a quem amaste,
a quem te amou, a quem te deu o ser –
não nos aguarda, não. Por cada morte
a que nos entregamos ele se vê roubado,
roído pelos ratos do demónio,
o homem natural que aceita a morte,
a natureza que de morte é feita.

Quando a hora chegar em que já tudo
na terra foi humano — carne e sangue —,
não haverá quem sopre nas trombetas
clamando o globo a um corpo só, informe,
um só desejo, um só amor, um sexo.
Fechados sobre a terra, ela nos sendo
e sendo ela nós todos, a ressurreição
é morte desse Deus que nos espera
para espírito seu e carne do Universo.
Para emergir nascemos. O pavor nos traça
este destino claramente visto:
podem os mundos acabar, que a Vida,
voando nos espaços, outros mundos,
há de encontrar em que se continui.
E, quando o infinito não mais fosse,
e o encontro houvesse de um limite dele,
a Vida com seus punhos levá-lo-á na frente,
para que em Espaço caiba a Eternidade.

Assis, 1 de Abril de 1961, sábado de Aleluia

Jorge de Sena
, in “Metamorfoses”, 1963.

terça-feira, 18 de junho de 2024

"O Acre" - Poema de Rachel de Queiroz


Antônio Parreiras (Pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937),
A conquista do Amazonas, 1907. Óleo sobre tela, 400 x 800 cm,
Museu Histórico do Estado do Pará, Brasil.



O Acre 


Na ambição de encontrar mais borracha e mais ganho
de enricar mais depressa,
a gente deixou atrás Manaus e o Rio Negro...

Foi-se trepando pela correnteza
na procura ansiosa do ouro elástico,
ver se cumpria o eterno fado dos êxodos:
a fuga, a luta, o ganho e - coroando tudo -
a volta triunfante e endinheirada.

Lá acima, muito acima
— já longe dos rios das icamiabas guerreiras —,
tinha uma terra salubre,
onde a borracha corria livre nas veias da seringueira
sem saber de tigela e machadinha.

Os cearenses, aí, botaram a mochila no chão
e ficaram trabalhando.

Depois, eles, que chegaram sozinhos, desamparados,
acharam umas índias bonitas
que chamavam todo o mundo de usted...
E elas trataram deles, quando veio o beribéri,
e lhes deram muitos filhos entroncados e viçosos,
que enchiam os barracões de algazarra e de alegria.

E eles foram querendo bem àquela terra,
tão rica, tão sem dono,
que dava tanto dinheiro e tanta felicidade...

Mas lá vem o ditado
"Tudo no mundo se acaba,
tudo no mundo tem fim".. .
E um belo dia
apareceu o dono...

"—Vá-se embora, cearense, vá-se embora!
Você veio desbravar este buraco de mundo
pra meu proveito e meu gozo!...
A borracha, que lhe deve tanta noite mal dormida,
sou eu que quero vender!

Eu nunca abri estrada na seringa
e agora vou andar nas que você abriu...
A barraca que você levantou quando brabo
— ai! A tristeza do brabo que soluça de saudade, olhando o rio correr! -
pois também sua barraca/ filha da sua saudade,
eu quero tomar pra mim...

Eu nunca fazia nada,
porque tinha medo dos bichos que rodeiam os barracões;
você aceirou em redor,
demarcou os seringais,
e agora os bichos se amoitam com receio do seu rifle,
com medo do seu terçado.

Vá! Volte pra sua terra! Volta pior do que veio...
numa proa de navio, tão magro, tão empambado!
Chegando lá, que é que acha?
A ramada do roçado, já queimaram nas coivaras;
sua barraca de taipa, o tempo já derrubou...
E sua criaçãozinha? Mas você não comeu toda,
quando o legume faltou?...

Lá mesmo na sua terra, quem se lembra de você?
" — Aquele foi embarcado... morreu ou ficou por lá.. "
Vá! Só leve a sezão que apanhou por aqui
e a saudade de sua cunhã acreana,
dos seus curumins caboclos,
que eu também tomo pra mim..."

A resposta, qual seria?
Insolente e audacioso,
mostrou-lhe a ponta da língua,
mostrou-lhe a ponta da faca...

E, na luta pela terra,
o cearense fez mais um pouco
que tudo aquilo que os livros contam
na grande lista dos heroísmos...

Ah! O horror das trincheiras parecidas
a sepulturas encarrilhadas num zigue-zague macabro!...
Nos matagais doentios, onde as maleitas têm casa
e devoram mais vidas do que as balas,
nos combates lá no rio, na casca frágil das montarias,
e que sempre acabavam em festim de jacarés...

Pobre dono escorraçado! Chorava de fazer dó!...

E o barão do Rio Branco teve pena
e deu-lhe, pra consolo, um bocado de libras esterlinas...
e ele agarrou no dinheiro
e foi brincar de cara ou coroa...


Rachel de Queiroz, em "Mandacaru"
Org. Elvia Bezerra.
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. 
 
 
Bacia Amazónica com a localização do Rio Acre


Acre

O estado de Acre fica no extremo sudoeste da região Norte do Brasil. Faz fronteira com o estado da Amazónia, a norte, a leste com o estado da Rondónia, a sul com o Peru e a oeste e a sudeste com a Bolívia. A capital é Rio Branco. Tem uma área de 152,581 km2 e uma população de 686 652 habitantes (censo de 2006) com uma densidade de 4,5 hab/km2 e uma esperança média de vida de 70,5 anos.

O estado de Acre fica quase todo ele na floresta amazónica, daí o relevo, dominado pelos planaltos, varia entre os 200 e 300 metros de altitude. A exceção é a serra de Contamara a oeste, com 609 metros de altitude, o ponto mais alto do território. A norte existe uma zona de planície. Os rios que atravessam o Acre nascem no Peru e, ou são afluentes do Amazonas, como o Juruá e o Purus, ou vão desaguar nos seus afluentes como o Tarauacá, o Embirá, e o Acre. Durante a estação seca, os rios ficam sem caudal para a navegação, isolando a área. O clima é equatorial, quente e húmido com temperaturas de 25ºC e precipitação de 2000 a 2500 mm anuais. A vegetação é dominada pela floresta amazónica.

Em 1867, este território foi atribuído à Bolívia, pelo Tratado de Ayacucho, firmado com o Brasil. Na viragem do século XIX para o século XX, foi declarada a 1.ª República do Acre, seguida de uma segunda tentativa de implantação do regime republicano, igualmente mal sucedida. Até 1903, o Acre era território boliviano e nesse ano, José Plácido de Castro, um soldado brasileiro declarou a 3.ª República do Acre. Contudo, tropas governamentais, comandadas pelo Barão do Rio Branco, apressaram-se a tomar uma posição e marcharam para o local. Por fim, em 1903 foi assinado o Tratado de Petrópolis que entregou a região do Acre ao Brasil. A ação diplomática exercida pelo barão do Rio Branco valeu-lhe o nome para a nova capital do território. Em 1962, foi elevado à categoria de estado federal.

O estado do Acre é pouco povoado devido às dificuldades de acesso. A população concentra-se quase toda ela em duas cidades: na capital, Rio Branco e no Cruzeiro do Sul, onde também se encontra um polo de desenvolvimento económico.
A principal atividade é a extração da borracha, que teve um pico de produção no virar do século XIX para o XX e depois durante os anos 40, quando muitos nordestinos emigraram para a região. Para além do látex, tem-se apostado na extração de produtos naturais para a indústria alimentar, farmacêutica e para a cosmética. O desbravamento da floresta para criar pastagens tem sido uma ameaça à biodiversidade da região. Os rios são o principal meio de transporte e quase todos os núcleos urbanos foram construídos à beira dos rios, mas durante a época das chuvas, a comunicação por terra fica cortada e as cidades isoladas. Sem um sistema de esgotos, nem mesmo em Rio Branco, a mortalidade infantil devido à malária e à disenteria é muito elevada. (daqui)
 

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

"Dois de Julho" - Poema de Tobias Barreto


Antônio Parreiras (Pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937), 
O Primeiro Passo para a Independência da Bahia
, 1931,  Palácio Rio Branco,  Salvador, Bahia. 

[A Independência da Bahia também chamada de Independência do Brasil na Bahia, foi um movimento que, iniciado em 19 de fevereiro de 1822 e com desfecho em 2 de julho de 1823, motivado pelo sentimento federalista emancipador de seu povo, terminou pela inserção da então província na unidade nacional brasileira, consolidando a Independência do Brasil.] (daqui)


Dois de Julho

 
Na frente dos belos dias
Que trajam mais viva luz,
Desfilando entre harmonias
No vasto império da cruz,
Passa um dia sublimado,
Qual guerreiro namorado,
Valente, bravo e gentil,
Que traz a glória estampada,
Na face meio embaçada
Pelo alento do fuzil.

Neste dia, sempre novo,
Entre os aplausos do mar,
Entre os ruídos do povo,
Vai a cidade falar...
Atriz majestosa e bela,
Falando só e só ela
Diante de duas nações,
Representa um alto feito,
Que arranca brados do peito
De emudecidos canhões.

1861

Tobias Barreto
, in Dias e Noite, 1881