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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Onde o Homem não chega tudo é puro" - Poema de Fernanda de Castro


Ilustração de Arthur Sarnoff
 

Onde o Homem não chega tudo é puro


Onde o Homem não chega tudo é puro, 
dessa pureza da primeira infância. 
Tudo é medida, ritmo, concordância, 
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro. 

E nem o vendaval é dissonância 
mas promessa de sol e de futuro. 
Quem levantou esse primeiro Muro 
que do perto fez longe, ergueu distância? 

Foi o Homem, com suas mãos de barro, 
com suas mãos perjuras, fel e sarro 
de inútil sofrimento e vil prazer. 

Não é tarde, porém: sacode a lama, 
ergue o facho, levanta a Deus a chama 
e recomeça: acabas de nascer. 


in "Ronda das Horas Lentas"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"A primeira adoração dos ídolos foi sem dúvida o medo das coisas, mas também, relacionado com este, o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia tão gigantesca, que nem mesmo se ousou impô-la a um único ser humano, pois, pela mera mediação de um ser, a responsabilidade humana não teria sido aliviada o suficiente, o convívio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso, deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, também, uma medida da responsabilidade para o ser humano."

Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade' 


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Crueldade é algo que está presente em famílias humanas por incontáveis eras. É quase impossível alguém que é cruel com os animais ser generoso com as crianças. Se se permite às crianças a crueldade contra seus animais de estimação ou outros que cruzem seus caminhos, elas aprenderão facilmente a ter o mesmo prazer com a miséria de seus semelhantes. Essas tendências podem facilmente levá-las ao crime."
 
Frederic McGrand, in "The extended circle: a dictionary of humane thought"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Os animais selvagens nunca matam por diversão. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte de seus semelhantes são divertidas." - James Froude

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Medo de Casar" - Texto de Franz Kafka


Sir Frank Dicksee (English Victorian painter and illustrator, 1853-1928), An Offering
 

Resumo de todos os argumentos a favor e contra o meu casamento: 

1. Incapacidade de suportar a vida sozinho, o que não implica incapacidade de viver, pelo contrário; até é improvável que eu saiba viver com alguém, mas sozinho não consigo aguentar o assalto da minha própria vida, as exigências da minha pessoa, os ataques do tempo e da idade, a vaga pressão do desejo de escrever, a insónia, a proximidade da loucura — não consigo aguentar isto só. É claro que junto «talvez» a tudo isto. A relação com F. vai dar à minha existência mais força para resistir. 

2. Tudo me faz imediatamente pensar. Todas as piadas no jornal humorístico, o que me lembro de Flaubert e de Grillparzer, as camisas de noite nas camas dos meus pais, ali postas para a noite, o casamento de Max. Ontem a minha irmã disse: «Todas as pessoas casadas (as pessoas que conhecemos) são felizes. Não percebo», esta afirmação também me fez pensar, fiquei outra vez com medo. 

3. Tenho de estar só muito tempo. O que consegui fazer foi apenas o resultado de estar só.

4. Odeio tudo o que não se relacione com a literatura, as conversas aborrecem-me (mesmo quando são sobre literatura), fazer visitas aborrece-me, as mágoas e as alegrias das pessoas da minha família aborrecem-me até ao fundo da alma. As conversas, a importância, a seriedade, a verdade de tudo o que penso. 

5. O medo da relação, o passar para o outro. Então nunca mais fico só. 

6. Antigamente a pessoa que sou na companhia das minhas irmãs era diferente da pessoa que sou na companhia de outras pessoas. Sem medo, poderoso, surpreendente, sensível como só sou quando escrevo. Se pela mediação da minha mulher eu pudesse ser assim em frente de toda a gente! Mas não seria então à custa do que escrevo? Isso não, isso não! 

7. Só, eu talvez pudesse um dia desistir do meu emprego. Casado, isso nunca seria possível. 
 

Franz Kafka, in 'Diário (21 Jul 1913)'


Aurea - I Didn't Mean It (Official Music Video)


"Voltar a casar-se é o triunfo da esperança sobre a experiência."



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Aldeia" - Poema de Manuel da Fonseca


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), A Latada
 


Aldeia


Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar,
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.


in Poemas Completos 


ÁUREA - Busy (for me)


Livros

"É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos a ler não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes, poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós."


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Não diga tudo o que sabe" - Sabedoria popular






Não diga tudo o que sabe


Não digas tudo o que sabes,
Não faças tudo o que podes,
Não acredites em tudo o que ouves,
Não gastes tudo o que tens,


Porque:
Quem diz tudo o que sabe,
Quem faz tudo o que pode,
Quem acredita em tudo o que ouve,
Quem gasta tudo o que tem,


Muitas vezes:
Diz o que não convém,
Faz o que não deve,
Julga o que não vê,
Gasta o que não pode.


(Sabedoria popular)



Sarah Mclachlan - In The Arms Of The Angel 


"Um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós. 
A literatura só é digna desse nome quando descongela o sangue de quem lê."


(Franz Kafka)

 Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 — Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Kafka nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa). O corpo de suas obras escritas— a maioria incompleta e publicadas postumamente — destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose (1915) e romances incluindo O Processo (1925) e O Castelo (1926) retrata indivíduos preocupados com o pesadelo de um mundo impessoal e burocrático.


"Onde o mar falta" - Poema de Octávio Mora


Édouard Manet, 'Rochefort's Escape' ('L'évasion de Rochefort'), 1881


Onde o mar falta



Entreabertas as pernas, e pousada
de leve, sobre os ombros, a cabeça,
parecias às vezes, derramada
no fundo, mais espessa.

E eras líquida: vias, através
de tua própria sombra transparente
a luminosidade dos teus pés,
alados. Porque ausente.

Jamais dizias nada. Sempre tinhas
entre os lábios, a voz silenciosa
dos que voltam. Onda após onda, vinhas
(e vens) misteriosa.

Desde a profundidade, do mar. Brusco
nas suas reações, onde o mar falta
sob as ondas, aí, aí te busco —
e és, como as ondas, alta.

Quando olho o horizonte: quando tudo
se dissolve em si mesmo e, onda após
onda, me calo. Vejo, e estou mudo.
O mar na tua voz.

Porque vias o mar (tinhas o mar
no olhar) fechando os olhos. E defronte
o víamos surgir. Bastava olhar,
que tudo era horizonte.


Octávio Mora,
in 'Terra Imóvel', 1959 

[Octávio Mora (1933–2012), poeta nascido na Argentina e radicado no Brasil, participou da Geração de 1945 da poesia brasileira.
Aposentou-se como professor titular de Literatura n UFRJ. Estreou em poesia com o livro Ausência viva (1956). Depois publicou Terra imóvel (1959). A esses se seguiram Corpo habitável (1967), Pulso horário (1968), Saldo prévio (1968) e Exílio urbano (1975). Também formado em Medicina, exerceu durante alguns anos a profissão de médico.]


Dulce Pontes e Andrea Bocelli - O Mar E Tu 



"O tempo é teu capital; tens de o saber utilizar. Perder tempo é estragar a vida." 

Franz Kafka (1883–1924)
 
 

"Chuva" - Poema de Hermann Hesse



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'At the end of the Avenue'
 

Chuva 


Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de árvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de bênção
Uma vez mais sonhar de verdade!

Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.

Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.

Coração, como estás machucado
Porém feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.


Hermann Hesse, in 'Caminhada'

[Publicado originalmente em 1920, "Caminhada" (Wanderung) é um livro de reflexões, poemas e diário de viagem de Hermann Hesse. Ilustrado com aquarelas do próprio autor, a obra celebra a vida simples, a natureza e o poder da solidão através das suas caminhadas pela Suíça.]
 
 
 
Jeff Rowland, 'Memories are made of this'


"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece." 

(Franz Kafka)