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segunda-feira, 9 de março de 2026

"Entrega" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna



Jeanna Bauck (Swedish-German painter, 1840–1926), "The Danish Artist
Bertha Wegmann Painting a Portrait", Nationalmuseum.



Entrega


Abandonar o corpo à pessoa amada
para que faça dele o que quiser.
Não opor qualquer resistência
entregar-se natural, suavemente.
O outro sabe as veredas
como o rio desce encostas
para seu gozo no mar.

Abandonar o corpo ao outro
para que invente, projete
pontes de suspiros,
liberte seus demónios e poemas
e se converta em anjo
num ruflar de penas.

Abandonar o corpo à sorte alheia
fundida à própria sorte,
dissolver-se no corpo alheio
como quem na vida, dissolve a morte.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Textamentos, 1999.

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"Espera" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
"Pondering the Scriptures", 1900's.
 
 
Espera 

 
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene
  
 
 in Geografia, 1967.
 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"O livro dos mortos" - Poema de Regina Guimarães

 

Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
Woman sewing in an interior, 1891.

O livro dos mortos


Entra sim mas não repares
no estado em que a casa está.
Não repares no que vês por mim
já não vale a pena
o estado, a casa é pequena,
e os olhos sempre cruéis.
Se entrares fica então sabendo
que o corpo só de si fala
se de pés e mãos atadas
e se paisagem correndo
tapar todas as entradas.
Não passes além da porta
e escolhe um ponto de vista
que te dê razão de sobra
para não seguires em frente
- quem irá adivinhar que não mandas, 
obedeces,
que escutas e não te ouvem?
Não entres, nem que quisesses
não poderias galgar o estorvo
que significa chegar
sem ser convidado.
Existe um pacto do corpo
com o espaço e com o tempo
no primeiro o corpo para
no segundo julga andar.
Em vez de quereres entrar
onde nem porta nem fecho
repara no que há lá dentro
e não esqueças que a nudez
vestida como castigo
e usada no pensamento
por desgosto delirante
viria a ser castigada.
Ou seja: se não entrares
darás a subentender
que só de livre vontade
que só por vontade tua
ficas no olho da rua.
Quem sai da mira dos deuses
passa a ser presa dos homens.
Ou alvo em movimento. 


Regina Guimarães,
in "Antes de mais e depois de tudo."
 

 
"Antes de mais e depois de tudo" de Regina Guimarães
Editora Exclamação, 2020


SINOPSE

Regina Guimarães
(Porto, 1957) é autora de uma obra poética colossal, iniciada em 1974, e que se estende por várias dezenas de livros.
Esta é a primeira antologia com textos escolhidos a partir de vários dos seus livros.
É uma seleção breve e pensada para oferecer, tanto quanto possível, uma visão panorâmica da extensa e singularíssima obra de Regina Guimarães. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Felicidade" - Poema de Abgar Renault



Bertha Wegmann (Danish portrait painter of Swiss ancestry, 1847–1926),
Young Mother with a Child in a Garden, 1883, Nationalmuseum.


Felicidade


Felicidade - o título tão comprido deste poema tão pequeno!
Felicidade - substantivo comum, feminino, singular, polissilábico.
Tão polissilábico. Tão singular. Tão feminino. E tão pouco comum.
Substantivo complicado, metafísico,
que cabe todo
na beleza clara de alguém que eu sei
e no sorriso sem dentes de meu filho.


Abgar Renault,
 in "A outra face da lua", 1983.