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terça-feira, 28 de março de 2017

"Oiça vizinha: o melhor" - Poema de Augusto Gil


Paul Gustav Fischer, Portrait of a young woman in a green dress,1913



Oiça vizinha: o melhor


Oiça vizinha: o melhor
É combinarmos o modo 
De acabar com este amor 
Que me toma o tempo todo. 

Passo os meus dias a vê-la 
Bordar ao pé da sacada. 
Não me tiro da janela, 
Não leio, não faço nada... 

O seu trabalho é mais brando, 
Não lhe prende o pensamento. 
Vai conversando, bordando 
E acirrando o meu tormento... 

O meu, não: abro um artigo 
De lei, mas nunca o acabo, 
Pois dou de cara consigo 
E mando as leis ao diabo. 

Ao diabo mando as leis 
Com exceção de um artigo 
O mil e cinquenta e seis... 
Quer conhecê-lo? Eu lho digo:

"Casamento é um contrato 
Perpétuo." Este adjetivo 
Transmuda o mais lindo parto 
No assunto mais repulsivo. 

"Perpétuo!" Repare bem 
Que artigo cheio de puas 
Ainda se não fosse além 
Duma semana ou duas... 

Olhe tivesse eu mandato 
De legislar e poria: 
"Casamento é um contrato 
Duma hora – até um dia..." 

Mas não tenho. É pois melhor 
Combinarmos algum modo 
De acabar com este amor 
Que me toma o tempo todo. 


 (1873-1929)


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Luar de Janeiro" - Poema de Augusto Gil


Marcel Rieder  (1862-1942) A vigil by the sea, Côte d'Azur



Luar de Janeiro


Luar de Janeiro,
Fria claridade

À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já... envelhecesse.

Luar de Janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade...
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficou apenas a amizade...

Luar das nevadas,
Àlgido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas,
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
-E ainda sorrindo...

Luar de Janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
-Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada...

Luar dos poetas e dos miseráveis...
Como se um laço estreito nos unisse,
São semelháveis
O nosso mau destino e o que tens;

De nós, da nossa dor, a turba - ri-se
- E a ti, sagrado luar... ladram-te os cães!





Marcel Rieder, Moonlight on Annecy's lake



Lua na água
alguma lua
lua alguma




domingo, 28 de agosto de 2016

"Grão de incenso" - Poema de Augusto Gil


Émile Bernard, Lady in the rain, 1895



Grão de incenso


Entraste com ar cansado 
Numa igreja fria e triste. 
Ajoelhei-me ao teu lado 
– E nem ao menos me viste...

Ficaste a rezar ali, 
Naquela imensa tristeza. 
Rezei também, mas a ti. 
– Que aos anjos também se reza...

Ficaste a rezar até 
Manhã dentro, manhã alta. 
Como é que tens tanta fé 
E a caridade te falta?...


In, Luar de Janeiro


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Balada de Neve" - Poema de Augusto Gil


Wright Barker (pintor britânico, 1864-1941), A Shepherd and his Flock on a Path in Winter 



Balada de Neve 


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim. 

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho… 

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza. 

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu! 

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho… 

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança… 

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!… 

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!… 

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração. 


Augusto Gil


(Augusto César Ferreira Gil (Lordelo do Ouro, 31 de julho de 1873 - Guarda, 26 de fevereiro de 1929) advogado e poeta português, viveu praticamente toda a sua vida na Cidade da Guarda onde colaborou e dirigiu alguns jornais locais.
Estudou inicialmente na Guarda, a "sagrada Beira", de cuja paisagem encontramos reflexos em muitos dos seus poemas e de onde os pais eram oriundos, e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra.
Começou a exercer advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde diretor-geral das Belas-Artes. Na sua poesia notam-se influências do Parnasianismo e do Simbolismo. Influenciado por Guerra Junqueiro, João de Deus e pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspetiva neo-romântica nacionalista.)



Beethoven - "Moonlight" Sonata (Valentina Lisitsa)
(Valentina Lisitsa é uma pianista clássica Ucraniana, nascida em Kiev em 1973. Valentina vive actualmente na Carolina do Norte, EUA e é casada com Alexei Kuznetsoff, que é também pianista e seu parceiro em vários duetos.)



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