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domingo, 27 de novembro de 2011

"Não és tu" - Poema de Almeida Garrett

 
Évariste Carpentier, 'Promenade en bord de mer', Menton, 1888


Não és tu 


Era assim, tinha esse olhar, 
A mesma graça, o mesmo ar, 
Corava da mesma cor, 
Aquela visão que eu vi 
Quando eu sonhava de amor, 
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo, 
O semblante pensativo, 
E uma suave tristeza 
Que por toda ela descia 
Como um véu que lhe envolvia, 
Que lhe adoçava a beleza. 

Era assim; o seu falar, 
Ingénuo e quase vulgar, 
Tinha o poder da razão 
Que penetra, não seduz; 
Não era fogo, era luz 
Que mandava ao coração. 

Nos olhos tinha esse lume, 
No seio o mesmo perfume, 
Um cheiro a rosas celestes, 
Rosas brancas, puras, finas, 
Viçosas como boninas, 
Singelas sem ser agrestes. 

Mas não és tu... ai!, não és: 
Toda a ilusão se desfez. 
Não és aquela que eu vi, 
Não és a mesma visão, 
Que essa tinha coração, 
Tinha, que eu bem lho senti.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'


Michael Bolton - Said I Loved You... But I Lied


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"Noites de minha terra" - Poema de Florbela Espanca


Noites de minha terra 


Anda o luar espalhando fios de prata
Pelos campos fora ... Lírios a flux
Lança o azul do céu... e a terra grata
Transforma em mil perfumes toda a luz!

As estrelas cadentes vão espalhando
Lírios brancos também... agora a terra
Parece noiva linda, que sonhando
Caminha pró altar, além na serra...

É meia-noite agora. Tudo quieto
Na noite branda, dorme ... Entreaberto
Vai esfolhando o lírio do luar

As alvas folhas, que cobrindo o céu,
E todo o mar e toda a terra, um véu
Branco, de noiva, lembra a palpitar!.. 


Florbela Espanca
,
in “Trocando olhares”, 1916


Michael Bolton - How Am I Supposed To Live Without You



"Quando sinto uma terrível necessidade de religião,
saio à noite para pintar as estrelas."