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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Sonetos do Regresso" - de Carlos de Oliveira


Henry Mosler, The Lost Cause, 1869



Sonetos do Regresso

I

Volto contigo à terra da ilusão, 
mas o lar de meus pais levou-o o vento 
e se levou a pedra dos umbrais 
o resto é esquecimento: 
procurar o amor neste deserto 
onde tudo me ensina a viver só 
e a água do teu nome se desfaz 
em sílabas de pó 
é procurar a morte apenas, 
o perfume daquelas 
longínquas açucenas 
abertas sobre o mundo como estrelas: 
despenhar no meu sono de criança 
inutilmente a chuva da lembrança. 

II 

Acordar, acender 
o rápido lampejo 
na água escusa onde rola submersa 
como o lodo no Tejo 
a vida informe, peso dúbio 
desse cardume denso ou leve 
que nasce em mim para morrer 
no mar da noite breve; 
dormir o pobre sono 
dos barbitúricos piedosos 
e acordar, acender 
os tojos caudalosos 
nesta areia lunar 
ou, charcos, nunca mais voltar.


in 'Cantata'



Ana Moura - Tens os olhos de Deus


quarta-feira, 4 de maio de 2016

"Leitura" - Poema de Carlos de Oliveira


Félix Augustin Milius (1843-1894), An Afternoon’s Reading



Leitura


Quando por fim as árvores 
se tornam luminosas; e ardem 
por dentro pressentindo; 
folha a folha; as chamas 
ávidas de frio: 
nimbos e cúmulos coroam 
a tarde, o horizonte, 
com a sua auréola incandescente 
de gás sobre os rebanhos. 

Assim se movem 
as nuvens comovidas 
no anoitecer 
dos grandes textos clássicos. 

Perdem mais densidade; 
ascendem na pálida aleluia 
de que fulgor ainda? 
e são agora 
cumes de colinas rarefeitas 
policopiando à pressa 
a demora das outras 
feita de peso e sombra. 


Carlos de Oliveira,
in 'Pastoral'


quinta-feira, 7 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Carlos de Oliveira


Khariton Platonov, Spilled Milk, 1876



Infância


Sonhos 
enormes como cedros 
que é preciso 
trazer de longe 
aos ombros 
para achar 
no inverno da memória 
este rumor 
de lume: 
o teu perfume, 
lenha 
da melancolia. 


Carlos de Oliveira, in 'Cantata'






"A infância é como a água que desce da bica e nunca mais sobe."




segunda-feira, 4 de maio de 2015

"Soneto 73" - William Shakespeare


Charles Spencelayh (1865-1958), His Old Wedding Hat




Soneto (73)


Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.
E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.
Ou podes ver o lume extraordinário,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortuário
que é a cinza da sua mocidade.
      Eis o que torna o amor mais forte:
      amar quem está tão próximo da morte.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)

domingo, 3 de maio de 2015

"Comparar-te a um Dia de Verão?"... Soneto 18 de William Shakespeare




Comparar-te a um Dia de Verão?
(Versão de Carlos de Oliveira )


Comparar-te a um dia de verão? 
Há mais ternura em ti, ainda assim: 
um maio em flor às mãos do furacão, 
o foral do verão que chega ao fim. 
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; 
outras, desfaz-se a compleição doirada, 
perde beleza a beleza; e o que perdeu 
vai no acaso, na natureza, em nada. 
Mas juro-te que o teu humano verão 
será eterno; sempre crescerás 
indiferente ao tempo na canção; 
e, na canção sem morte, viverás: 
      Porque o mundo, que vê e que respira, 
      te verá respirar na minha lira. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)






Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
      enquanto alguém respire ou possa ver
      e viva isto e a ti faça viver.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura (1942-2014)


                       Fac-símile da impressão original do Soneto 18.


Os Sonetos de Shakespeare perfazem um conjunto de 154 poemas publicados em 1609, embora as datas de composição sejam imprecisas. Eles tratam de assuntos como amor, beleza, política e mortalidade

Outras traduções: Soneto 18 (aqui)


Soneto

Soneto (do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som) é um poema de forma fixa, composto por catorze versos, de origem atribuída a poetas da Sicília ou da Provença.
Pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos:
  • Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
  • Soneto inglês ou Shakespeariano: três quartetos e um dístico;
  • Soneto monostrófico: Apresenta uma única estrofe de 14 versos. (Daqui)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Soneto da Chuva"... Poema de Carlos de Oliveira


Pintura de Leonid Afremov



Soneto da Chuva


Quantas vezes chorou no teu regaço 
a minha infância, terra que eu pisei: 
aqueles versos de água onde os direi, 
cansado como vou do teu cansaço? 

Virá abril de novo, até a tua 
memória se fartar das mesmas flores 
numa última órbita em que fores 
carregada de cinza como a lua. 

Porque bebes as dores que me são dadas, 
desfeito é já no vosso próprio frio 
meu coração, visões abandonadas. 

Deixem chover as lágrimas que eu crio: 
menos que chuva e lama nas estradas 
és tu, poesia, meu amargo rio. 


Carlos de Oliveira, in 'Terra de Harmonia'



Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira (Belém do Pará1921 — Lisboa1981), poeta e romancista, veio para Portugal com dois anos de idade. Até à sua partida para Coimbra, onde se licenciaria em Ciências Histórico-Filosóficas, a região da Gândara, terra árida e pobre, onde o pai exerceu clínica, marcou profundamente a sua formação, vindo a constituir o cenário privilegiado da sua produção romanesca e poética. 
A sua estreia literária, na poesia, com Turismo, em 1942, e, no romance, com A Casa na Duna, em 1943, editados, respetivamente, pelas coleções "Novo Cancioneiro" e "Novos Prosadores", coleções consideradas ambas marcos no processo de afirmação da estética neorrealista, inscreve-o numa tradição literária que, na senda de Afonso Duarte (o "Mestre") ou Miguel Torga, conjuga, temática e formalmente, elementos populares e rurais com uma postura de modernidade. Colaborou, entre outras publicações, com Vértice, Seara Nova, Altitude, Portucale ou Cadernos do Meio-Dia. 
Segundo Manuel Gusmão, gerada no neorrealismo, a poesia de Carlos de Oliveira evoluiu em conexão com as várias tendências que marcaram a poesia portuguesa desde os anos 50 e até aos movimentos afirmados após os anos 60, num processo que apontaria para uma expressão onde "a poesia vai assumindo explicitamente a consciência de si como um trabalho específico, vai desagregando o discursivismo anterior, vai encontrando, na fragmentação e na descontinuidade e, ao mesmo tempo, no construtivismo interno, o tempo histórico da nossa contemporaneidade poética" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira, Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 25). O mesmo crítico divide a produção poética de Carlos de Oliveira em duas fases distintas, embora caracterizadas por certa unidade. Num primeiro momento, que englobaria as obras publicadas até Terra da Harmonia e Ave Solar, a escrita de Carlos Oliveira é marcada pela relação com uma tradição literária, popular e culta, clássica e moderna, numa relação pautada, a nível formal, pelo recurso a formas técnicas firmadas nesta tradição, embora com preferência pelo longo poema narrativo; e, a nível enunciativo, pela correlação entre o sujeito poético e a entidade coletiva ("Acusam-me de mágoa e desalento, / como se toda a pena dos meus versos / não fosse carne vossa, homens dispersos, / e a minha dor a tua, pensamento." ("Colheita Perdida", in Poesias). Ao mesmo tempo, esse conjunto aponta já para a recorrência de elementos que integram o mundo inorgânico, mineral e cósmico, apresentando uma rede de imagens que se organiza "por uma série de tensões dialéticas entre a realidade e o sonho (o apelo) de uma nova realidade, entre a vida e a morte, entre a esperança e o desespero" (GUSMÃO, Manuel, op. cit., p. 66), numa tentativa ainda de perceber "o que no real é fator de imobilidade (e logo de prolongamento da miséria, da estagnação), fator de decadência" ou fator, raiz, esperança de movimento e de transformação (id. ibi., p. 67). A segunda fase da sua poesia é pautada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva "(id. ibi., p. 68), tendência que se reflete no "rigor de construção", no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna". Neste momento, marcado por certo pendor auto-reflexivo, "o poema agudiza a consciência de si como trabalho específico sobre materiais próprios e com instrumentos próprios" (id. ibi., p. 70), num privilégio da relação "poesia-escrita", em detrimento da relação "poesia-voz"; ao mesmo tempo que o sujeito poético, privilegiando as referências ao mundo mineral e mineralizado, integra um "processo de 'apagamento'" (id., ibi., p. 72): "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ('Estalactite', in Micropaisagem). 
Muitos destes traços de caracterização sobre a evolução da estética poética de Carlos de Oliveira transparecem também na escrita romanesca, estabelecendo também, sem pôr em causa o seu empenhamento, em romances como Uma Casa na Duna, Pequenos Burgueses ou Uma Abelha na Chuva, uma abertura relativamente a certos modelos técnico-narrativos que o neorrealismo inicial tinha postergado, como o uso do monólogo interior e da focalização interna, a individualização da personagem (sem recusar o seu carácter de tipo social), ou a intrusão do discurso do narrador. Sintetizando, no volume O Aprendiz de Feiticeiro, muitas das reflexões sobre a sua postura estética, enumera do seguinte modo os aspetos que o definem como escritor: "a) o meu ponto de partida, como romancista e poeta, é a realidade que me cerca; tenho de equacioná-la em função do passado, do presente e do futuro; e, noutro plano, em função das suas características nacionais ou locais; b) o processo para a transpor em termos literários está sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e até ao condicionamento dela [...]; c) é essencial porém não esquecer estas duas coisas: a realidade cria em si mesma os germes da transformação; o processo consiste em [...] captá-los e desenvolvê-los num sentido autenticamente moderno; d) não concebo uma literatura intemporal, nem fora de certo espaço geográfico, social, linguístico; quer dizer, não a vejo inteiramente desligada das condições de tempo, de lugar [...] ; e) o processo, para ter alguma validez, necessita portanto de atender às circunstâncias de época e de país, precisa de ser atual e português; f) não pode ignorar [...] a tradição literária, culta e popular [...]; g) por outro lado, sempre se fez ao longo da história literária aquilo a que chamarei 'transfusão cultural', isto é, emigração de ideias, homens, formas, estéticas, de país para país" (O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Dom Quixote, 1971, pp. 93-94). 
Escritor que não desistiu de ligar todos os seus pensamentos "ao mundo comum, quotidiano: os objetos, a paisagem, os homens." (ibi., p. 35), e que sempre entendeu "mal a incompatibilidade entre uma ideia ou uma imagem e a busca das palavras que as tornam cintilantes." (ibi., p. 90), na sua obra avultam, em suma, dois traços maiores, o "trabalho oficinal, trabalho que consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que [...] obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento." (ibi., p. 268), o que conflui tendencialmente num sentido profundo da "brevidade"; e uma problemática unitária: a da "imagem", já que, "mais do que informarem o sentido vital da poesia e de toda a obra de Carlos de Oliveira, as imagens constituem o mais constante corpo teórico e temático da sua obra", seja pelo carácter simbólico ou exegético-divinatório assumido pela descrição, seja globalmente por um "processo total da inscrição imagem / palavra" segundo o "modelo da cifra" (cf. BRANDÃO, Fiama Hasse Pais, "Nexos sobre a obra de Carlos de Oliveira", in Colóquio /Letras, n.º 26, julho de 1975, p. 64). (Daqui)
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