A meu favor Tenho o verde secreto dos teus olhos Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor O tapete que vai partir para o infinito Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor As paredes que insultam devagar Certo refúgio acima do murmúrio Que da vida corrente teime em vir O barco escondido pela folhagem O jardim onde a aventura recomeça.
A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos.
"Muito pouco da grande crueldade mostrada pelos homens pode ser atribuída realmente a um instinto cruel. A maior parte dela é resultado da falta de reflexão ou de hábitos herdados."
O portão fica aberto o dia inteiro mas à noite eu mesmo vou fechá-lo. Não espero nenhum visitante noturno a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos. A noite é tão silenciosa que me faz escutar o nascimento dos mananciais nas florestas. Minha cama branca como a via-láctea é breve para mim na noite negra. Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta derruba uma estrela e enxota um morcego. O bater de meu coração intriga as corujas que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma do dia e da noite paridos pelas águas. No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo. Sou o vento que apalpa as alcachofras e enferruja os arreios pendurados no estábulo. Sou a formiga que, guiada pelas constelações, respira os perfumes da terra e do oceano. Um homem que sonha é tudo o que não é: o mar que os navios avariaram, o silvo negro do trem entre fogueiras, a mancha que escurece o tambor de querosene. Se antes de dormir fecho o meu portão no sonho ele se abre. E quem não veio de dia pisando as folhas secas dos eucaliptos vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou — coberto por uma mortalha, como todos os que sonham e se agitam na escuridão, e gritam as palavras que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim e ao doce esterco fermentado. os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam. Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite. Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras e pelos meus cães que sonham de olhos abertos. À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens. Embora o meu portão vá amanhecer fechado sei que alguém o abriu, no silêncio da noite, e assistiu no escuro ao meu sono inquieto. Lêdo Ivo,
do livro “A noite misteriosa”, 1982.
Max Pechstein, Die Schwalben sammeln sich (Ückeritz i. Pommern), 1949
Trabalhou num expressionismo moderado, influenciado pela pintura fauvista francesa, especialmente por Matisse.
Em 1908 deslocou-se a Berlim onde participou da fundação da New Secession (1910), o que o levou a ser expulso de Die Brücke em 1912.
Os seus temas favoritos relacionam-se ao exotismo e à união com a natureza, motivo pelo qual visitou as ilhas Palau do Pacífico em 1914.
Ligou-se com Der Blaue Reiter, sendo um dos membros do grupo que mais cedo alcançou a popularidade.
Após a Primeira Guerra Mundial fez parte do Novembergruppe(1918), ensinando na Academia das Artes da Prússia até a chegada do nazismo, que o retirou dos seus cargos e o condenou ao ostracismo. Em 1945 foi reabilitado e trabalhou como professor da Escola Superior de Artes Figurativas. Max Pechstein faleceu em Berlim Ocidental, a 29 de Junho de 1955. (Daqui)
O Expressionismo designa um movimento cultural que se manifestou nos mais
diversos campos artísticos como as artes visuais, o teatro, a
literatura e o cinema. Nas artes plásticas (pintura, escultura,
fotografia) e na arquitetura, esta tendência, de dimensão internacional
desenvolveu-se a partir dos finais do século XIX, tendo conhecido uma
importante expansão na Alemanha, no contexto de angústia e de agitação social que antecedeu a Primeira Guerra Mundial.
O Expressionismo apresentou-se em oposição tanto ao sentido cientista do Impressionismo como à vocação decorativa da Arte Nova
e caracteriza-se pela procura de formas artísticas que exprimissem mais
livre e subjetivamente os sentimentos do artista em relação à
realidade. Os quadros tornaram-se o retrato intenso de emoções,
transmitidas através de cores violentas e de pinceladas vincadas e as
esculturas apresentavam formas agressivas, modelações vincadas e
texturas rudes.
As primeiras manifestações que se podem considerar
precursoras do movimento expressionista datam de meados de 1880. Entre
estas contam-se as obras do pintor holandês Vincent Van Gogh,
marcante pelo uso intenso dos valores cromáticos e texturais, e do
francês Toulouse-Lautrec, nomeadamente pelos temas abordados e pela
liberdade e espontaneidade do desenho. Os pintores Edvard Munch,
expoente do Expressionismo nórdico, e James Ensor representaram outro
momento de afirmação dos fundamentos da estética expressionista, como
temas dramáticos e obsessivos e pela violência das formas e da cor.
Todas estas referências vão cruzar-se no contexto artístico da Alemanha de inícios do século, encontrando eco em artistas que procuram afirmar novos caminhos.
A primeira corrente organizada dentro no interior do movimento expressionista foi o grupoDie Brücke
(A Ponte), formado em Dresden em 1905, por Ernst Ludwig Kirchner, Karl Schmidt-Rottluff, Emil Nolde (1867-1956) e Max Pechstein (1881-1955)
entre outros, com objetivo de agregar as várias tendências de vanguarda,
rejeitando o academismo, o Impressionismo, o Jugendstil e a Secessão.
Procurava, através de uma expressão direta, emotiva e muitas vezes
violenta, a representação da realidade social e política desse período.
Mais tarde, em 1912, é formado em Munique o grupo Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul) pelos pintores Wassily Kandinsky e Franz Marc,
que reúne um vasto número de artistas alemães, suíços e russos,
constituindo um novo período de afirmação do Expressionismo, mais ligado
às manifestações do inconsciente e à atenção aos valores cromáticos e
formais.
A correnteNova Objetividade (Die Neue Sachlichkeit)formada no período entre as duas guerras mundiais, num clima de intensos problemas sociais
e de desilusão e decadência de determinadas formas da cultura e da
civilização ocidental, assumiu a recuperação e o ressurgimento do
Expressionismo, após a interrupação ditada pela Primeira Guerra Mundial. Teve com protagonistas os pintores Otto Dix (1891-1969), George Grosz (1893-1959) e Max Beckmann (1884-1950), cujos trabalhos denunciam uma atitude eminentemente satírica e de crítica social.
A pintura expressionista foi uma das principais precursoras do movimento do Expressionismo Abstrato e do Informalismo, surgidos respetivamente nos Estados Unidos da América e na Europa nas décadas de quarenta e cinquenta.
A escultura expressionista foi grandemente impulsionada pela obra do francês Auguste Rodin. De facto, um dos principais representantes deste movimento no campo da escultura foi Antoine Bourdelle
(1861-1929), um dos discípulos do mestre francês. Destacam-se ainda
alguns trabalhos do americano Jacob Epstein (1880-1959) e do alemão Ernst Barlach (1870-1938), representando geralmente figuras humanas de
carácter maciço às quais imprimem diferentes tipos de distorção e uma
modelação livre e intencionalmente imperfeita. (Daqui)
Em minha casa, detestávamos pessoas bem- -falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê: – Fiquei muito confrangida. Passámos a chamar-lhe “a confrangida”. Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligáva- mos a televisão.
Neto do criador da psicanálise, libertino - há quem afirme que foi pai
cerca de 40 vezes -, pintor de celebridades,Lucian Michael Freud, morreu no dia 20 Julho de 2011, em Londres, aos 88 anos. Conhecido sobretudo pelos seus
retratos, foi também um exímio executante de naturezas-mortas e gostava
que as obras por si criadas fossem sentidas como carne - daí a contínua
necessidade de representar a nudez humana, revelando-a nos seus
extremos: do corpo magro de Kate Moss à gordura disforme de Sue Tilley, a
gerente de um centro de emprego que posou para ele durante quatro anos,
no início da década de 1990. Contudo, a sua obra mais discutida terá
sido a imagem de Isabel II, encomendada pela monarca britânica no início
deste século.
Retrato da rainha Isabel II por Lucian Freud
A decisão de convidar Lucian Freud para pintar o
retrato da rainha Isabel II começou a ganhar consistência depois de o artista ter
realizado, entre 1999 e 2000, a imagem do ex-secretário privado da
monarca, Lorde Robert Fellowes, uma obra de pequenas dimensões (25,6 x
22,4 cm). Este é também o tamanho aproximado do trabalho onde está
figurado o rosto da monarca, um óleo sobre tela com 23,5 x 15,2 cm,
criado entre Maio de 2000 e Dezembro de 2001, em sessões que tiveram
lugar no Friary Court Studio, situado no Palácio de St. James, em
Londres, lugar onde habitualmente se conserva a Real Colecção de
Pintura.
O facto de a retratada ser uma personalidade fora do círculo de
amizades do artista fez com que Freud não só comparasse a tarefa a uma
expedição polar - a maioria das suas obras eram realizadas no seu
estúdio -, mas também adivinhasse a dificuldade do desafio, sobretudo
nas questões relacionadas com a tentativa de captar a vida interior de
uma figura pública. A escolha de uma tela de pequenas dimensões e a
vontade de retratar a rainha enquanto esta usava o célebre Diadema de Diamantes - uma jóia criada em 1820 para a coroação do reiJorge IV,
visível também nas notas e selos onde é representada Isabel II -, podem
sugerir uma tentativa do artista em sublinhar as ambiguidades de um
poder que decide encomendar uma imagem de si próprio.
Pintado no estilo de Freud, que usava muitas vezes a técnica do impasto
para dar espessura às cores, deixando visíveis os movimentos do pincel
sobre a tela, o retrato de Isabel II revela um rosto severo, pétreo, de
formas envelhecidas, sobressaindo ainda a sua carnalidade. A ambiguidade
da representação pode ser detectada quer na escolha da dimensão do
trabalho - a rainha é colocada ao mesmo nível de Lord Fellowes, ou da
neta do artista, Frances Costelloe, modelo de vários trabalhos, como um
grande plano do rosto, executado em 2002, com 30,5 x 20,3 cm -, quer na
escolha daquela jóia, composta por 1333 diamantes, criada pela casa
Rundell, Bridge & Rundell para ser usada por um homem, George IV,
nas cerimónias da sua coroação, e hoje em dia envergada pela monarca na
abertura anual do Parlamento britânico, o lugar mais relevante da
democracia inglesa.
Quando revelado, em Dezembro
de 2001, o retrato de Isabel II provocou diferentes tipos de reacções:
Charles Saumarez-Smith, então director do National Portrait Gallery, em
Londres, descreveu a pintura como "provocante e psicologicamente
penetrante", enquanto Richard Cork, crítico de arte do The Times,
adjectivou a imagem criada por Freud como "dolorosa, corajosa, honesta,
estóica e, acima de tudo, transparente". No mesmo jornal, a opinião de
Richard Morrison era distinta, apontando a particularidade de o queixo
ostentar "aquilo que só pode ser descrito como uma barba por fazer". O
pescoço, diz ainda Morrison, "não envergonharia um avançado do râguebi".
Finalmente, Adrian Searle, do The Guardian, considerou a obra do
artista como a melhor representação pictórica de um monarca britânico
nos últimos 150 anos: "Retratar significa penetrar na pele." E continua:
"Ambos, modelo e pintor, viram demasiado e sentem-se, com facilidade,
estoicamente entediados. Eles conhecem os limites que os enquadram. Esta
é uma pintura da experiência."
A relação entre modelo e pintor,
tema de tantos artistas, é também central na obra de Lucian Freud. Desde
cedo que o retrato foi o seu assunto de eleição: "De forma a
abalar-nos, a pintura nunca deve apenas lembrar-nos da vida, mas deve
adquirir a sua própria vida", dizia o artista. As obras em que figura
corpos e rostos humanos foram sendo realizadas com a colaboração
daqueles que lhe eram próximos, nomeadamente família e amigos, porque as
sessões de trabalho eram longas e a conclusão de uma obra podia demorar
mais de um ano: em Girl with a White Dog (1950-1951), última de
uma série de obras em que Freud representa a sua primeira mulher - Kitty
Garman, filha do escultor modernista Jacob Epstein e da sua amante
Kathleen Garman, conhecida pela sua beleza e modo de vida liberal -,
observa-se a modelo em robe, sentada num sofá, com o seio direito à
mostra, e com um bull terrier branco deitado na perna - o cão
tinha sido uma prenda de casamento. Esta poderosa imagem acerca da
fidelidade - a mão direita de Kitty está pousada sobre o coração e na
mão esquerda é visível uma aliança - é assombrada pelo olhar da
retratada, no qual se percebe uma infinita solidão.
Se, nessa época, o estilo do pintor se poderia definir facilmente
como realista - a sua primeira exposição individual aconteceu na
londrina Alex Reid and Lefèvre Gallery, em 1944 -, figurativo ou mesmo
naturalista, o encontro com Francis Bacon, que conheceu em 1945 através
de um outro artista, Graham Sutherland, fez com que essa tentativa de
representar o mundo segundo "regras empíricas e seculares" se
transformasse numa obsessão enérgica em traduzi-lo em obras onde é
objectivado através da materialização de diferentes manifestações
carnais: os corpos e rostos parecem revelar o processo de decomposição a
que são sujeitos pela passagem do tempo. Como nota o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty: "É que a espessura da carne entre o vidente e a
coisa é constitutiva da sua visibilidade para ela, como da sua
corporeidade para ele; não é um obstáculo entre ambos, mas o meio de
comunicarem entre si."
A amizade entre Francis Bacon e Lucian
Freud, os nomes mais relevantes da pintura britânica do pós-II Guerra
Mundial, foi duradoura - a relação entre ambos apenas esfriou no fim da
década de 1970, após uma discussão. O percurso de ambos foi feito muitas
vezes em comum: quando se encontraram, na casa de campo de Sutherland,
Bacon tinha 36 anos, Freud 22, e a partir de então os encontros
tornaram-se quase diários - os artistas frequentavam o mesmo drinking club,
o heterodoxo Colony Room, no Soho, em Londres. O convívio intenso -
podem encontrar-se semelhanças na intensidade da ligação entre Gauguin e
Van Gogh - resultou em obras nas quais os pintores se representavam um
ao outro. Bacon chamou Freud ao seu atelier em 1951 com o
objectivo de realizar um retrato do amigo; o procedimento pouco habitual
por parte do anfitrião, que habitualmente realizava os seus trabalhos a
partir de fotografias, foi entendido pelo modelo quando este regressou
ao estúdio e descobriu a imagem de um dos seus autores favoritos, Franz
Kafka, como fonte para a criação da sua figura.
Freud
realizou dois retratos de Bacon, um em 1952, comprado pela Tate Britain
e roubado em 1988, durante uma exposição em Berlim, outro em 1956,
propriedade de um coleccionador privado. O primeiro, marcado pela
proximidade ao desenho, demorou três meses a ser terminado: sentaram-se
ambos de joelhos, com Bacon a olhar para o chão, uma pose já
experimentada um ano antes num trabalho sobre papel, sendo esta também a
postura adoptada para a realização da segunda pintura. O modelo, apesar
de mostrar sinais de impaciência e de ter resmungado, ficou na sua
posição de forma consistente. Na obra mais tardia, que ficou incompleta,
o rosto de Bacon parece fatigado, uma sensação potenciada pelo uso de
tons verdes e amarelos, sendo também notórias as marcas das pinceladas,
uma forma de dar movimento à representação - diz-se que este retrato
ficou inacabado não só pelo facto de o modelo se ter cansado de posar,
mas também por ter decidido viajar com o seu amante, Peter Lacy, para
Tânger.
"Gostava que os meus retratos fossem das pessoas, não
parecidos com elas", afirmou Freud um dia. E prosseguiu: "Não ter o
olhar do modelo, sê-lo. Não quero apenas obter uma semelhança, como uma
imitação, mas retratá-lo, como um actor. Naquilo que me diz respeito, a
pintura é a pessoa. Quero que funcione para mim tal como a carne o faz."
Talvez por esta razão, um crítico alcunhou o artista de "Ingres do
existencialismo". Em 1987, numa entrevista conduzida pelo crítico de
arte Robert Hughes, Freud revela ter a esperança de que, se estivesse
suficientemente concentrado durante o processo de realização de uma
obra, "a intensidade do escrutínio daria por si só força vital às
pinturas."
Lucian Freud, Bella and Esther, 1988
A veemência das relações entre Freud e os seus modelos
tornou-se mítica, tendo o artista sempre preferido trabalhar com pessoas
das suas relações pessoais. "Cada vez que posava para ele, jurava que
não voltava a fazê-lo, mas voltava com a palavra atrás porque era uma
forma de manter uma relação com o meu pai", afirmou um dia a filha Bella Freud. Uma outra das suas descendentes, a escritora Esther Freud,
conheceu o pai aos 16 anos, quando posou para um dos seus trabalhos - a
sua mãe e ele tinham-se separarado quando cerca de três anos após o seu
nascimento. O facto de terem posado nuas para o pai não chega a ser
sequer um problema, pois era clara a distinção entre o progenitor e o
artista: "Tirava simplesmente a roupa e sentava-me no sofá quando ele
pedia", diz Esther. E acrescenta: "Nunca me ocorreu sentir-me
envergonhada."
Os momentos de pose eram compensados por refeições
onde se comia galinhola e se bebia champanhe. Enquanto pintava, Freud
gostava também de trautear canções de Cole Porter, recitar sonetos de
Shakespeare e poemas de Rudyard Kipling ou de Hilaire Belloc, que sabia
de cor. Entre os seus modelos, que iam da mãe a Kate Moss, passando por
Jerry Hall e Frank Auerbach, contava-se ainda Sue Tilley, a gerente de
um centro de emprego que posou para o pintor durante quatro anos, no
início da década de 1990. Um desses retratos, Benefits Supervisor Sleeping (1995), tornou-se no quadro mais caro de um artista vivo quando foi
adquirido, em 1998, por Roman Abramovich, durante um leilão organizado
pela Christie"s, em Nova Iorque - o magnata russo pagou 33,6 milhões de
dólares por esta obra em que se vê Tilley, então com 127 quilos, nua, a
dormir num sofá - este móvel é omnipresente no trabalho de Freud, tal
como o constante registo de momentos de repouso -, numa evocação quer de
Rubens - neste caso, pela preferência dada a corpos pesados, volumosos
-, quer de Velázquez, Ticiano e Goya, que representaram o feminino em
situações semelhantes à pintada pelo autor inglês.
Tilley, em tempos caixa do
lendário Taboo, clube nocturno londrino, tinha sessões de trabalho com
Freud todos os sábados, domingos e tempos livres: eram momentos
"fantásticos" e o artista a pessoa mais divertida que tinha conhecido.
Nota o modelo: "Tinham-se imensas conversas, ouviam-se inúmeras
histórias, e ia-se a restaurantes simpáticos, onde se acabava por
conhecer todas as outras pessoas pintadas por ele. Isto era, realmente,
aquilo que gostava mais de fazer."
Neto de Sigmund Freud, pioneiro
da psicanálise, Lucian Freud, nasceu em Berlim, a 8 de Dezembro de 1922,
filho de Ernst Ludwig Freud, arquitecto, e de Lucie Freud. Em 1933,
viajou com os pais, ambos judeus, para a Grã-Bretanha, devido à ascensão
de Hitler ao poder, na Alemanha. Tornou-se cidadão inglês em 1939. (Daqui)
Marie Freud and their cousin Simon
Nathanson. Seated: Adolfine, Amalia, Alexander and
Jacob Freud. The
other boy and girl are unidentified.
Sigmund Freud
Sigmund Freud, neurologista austríaco, nasceu em 1856, em Freiberg, Morávia (atual República Checa), e morreu em 1939, em Londres. Freud fundou a Psicanálise e esta teoria teve um grande efeito na psicologia e na psiquiatria.
Publicou, em colaboração com Josef Breuer, Estudos sobre a Histeria
(1895); obra que contém a apresentação pioneira do método psicanalítico
da livre associação. Desenvolveu teorias que dizem respeito a uma
camada profunda da nossa mente: o inconsciente e a forma como este
influencia as ações dos homens.
As principais obras de Freud são: A Interpretação dos Sonhos (1899), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), O Inconsciente (1915), Introdução à Psicanálise (1916-1917), Psicologia das Massas e Análise do Ego (1923), Psicanálise e Teoria da Libido (1923), Neurose e Psicose (1924).
No livro A interpretação dos Sonhos,
Freud analisa a grande complexidade simbólica subjacente à formação dos
sonhos. Em 1905 aparece o seu estudo mais controverso, no qual Freud
apresenta a teoria que afirma que a repressão da sexualidade infantil
está na origem de neuroses em adulto (de que o complexo de Édipo
é um exemplo). Formulou os conceitos de «id», «ego» e «superego».
As
suas teorias levaram a uma maior aproximação ao tema da sexualidade. A
partir dele, os comportamentos antissociais são compreendidos como um
resultado, em muitos casos, de forças inconscientes.(Daqui)
[Erich Heckel (1883—1970) foi um pintor e ilustrador alemão e membro fundador do grupo expressionistaDie Brücke ("A Ponte"), que existiu de 1905 até 1913.]
Die Brücke
Die Brücke (A Ponte) é uma associação artística formada em 1905, em Dresden, que marca o início da arte moderna na Alemanha.
Fundada por Ernst-Ludwig Kirchner, Karl Schmidt-Rottluff, Fritz Bleyl e
Erich Heckel (que na altura eram ainda estudantes), aos quais se
juntaram mais tarde, entre outros, os artistas Emil Nolde e Max
Pechstein. Artistas de outros países, como o austríaco Oscar Kokoshka,
estiveram também ligados a este movimento embora não o integrassem.
O Die Brücke pretendia promover o interesse pela arte avançada,
rejeitando a tradição académica e naturalista, o impressionismo
berlinense e a Arte Nova.
Tal como o seu nome indica, pretendia constituir uma ponte para o
desenvolvimento da arte na sua relação com a vida moderna, para o que
procurou atrair todos os artistas com interesses vanguardistas. Sofreu
influência direta do movimento fauvista, da obra dos pintores franceses Vincent Van Gogh e Paul Gauguin e também de Munch, de Ensor e de Roualt.
Durante um primeiro período (1905-1911), este movimento esteve sedeado
em Dresden e as suas reuniões efetuavam-se no atelier de Kirchner. Esta
fase foi marcada pela precariedade dos meios materiais mas, ao mesmo
tempo, por um clima de forte motivação e de intensidade criativa. Desde
1905, o grupo organizou exposições, entre as quais se destacam as
grandes exposições de 1906 e de 1910. Embora não existisse um programa
ou uma orientação estética única, verifica-se a existência de alguns
pontos comuns entre o trabalhos dos vários artistas, como a tentativa de
transposição para a pintura, de forma direta e primitiva (através de um
cromatismo violento), de todo um conjunto de emoções e de sentimentos
determinados pela realidade social, política e religiosa da altura.
Em 1910 o grupo instalou-se em Berlim, cidade que se transforma no centro da vida artística na Alemanha. Neste período torna-se mais evidente a influência do Cubismo e do Futurismo. Em 1913, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o movimento dissolveu-se oficialmente.(daqui)
[Schokko with Red Hat is an expressionist portrait of a woman with a lavish, crimson red hat and matching ascot. A bundle of lilac adjacent flowers adorn the front of the hat. 'Schokko' holds a pale blue hand fan against her stomach as she peers directly at the viewer.]
Vem sentar-te comigo Lídia à beira do rio
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos).
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço.
Alexej von Jawlensky (1864–1941) foi o mais célebre pintor expressionista russo, embora a sua carreira artística se tenha desenrolado praticamente na Alemanha, onde integrou um grupo de artistas denominadoDer Blaue Reiter.
Alexej von Jawlensky, 'Variation', c. 1916
- Neue Künstlervereinigung -
'Neue Künstlervereinigung'designa uma associação de artistas expressionistas formada em 1909 em Munique por um grupo de artistas, entre os quais se destacavam Alexej von Jawlensky (1864-1941), Adolf Erbslöh(1881-1947) e Wassily Kandinsky (1866-1944), que foi o seu primerio presidente.
Formado em paralelo com o movimento Die Brücke,
na altura ativo em Dresden, este grupo apresentava um carácter mais
livre e menos coeso e procurava constituir uma plataforma para o
desenvolvimento das mais diversas manifestações, tendo como objetivo
fundamental a tentativa de ultrapassar o atrasado e eclético panorama
artístico alemão. Apresentava ainda alguns denominadores conceptuais que
o ligavam intimamente ao movimento expressionista, tal como a ideia
subjetiva e individualizada do processo criativo, o entendimento da
comunicação estética como algo de pessoal e íntimo e a necessidade do
artista cruzar a perceção mais ou menos objetiva da realidade com a sua
própria sensibilidade interior.
A ligação deste movimento com a produção artística francesa coeva, como
por exemplo a pintura fauvista, manifesta-se em muitos dos trabalhos
realizados por Kandinsky ou por Jawlensky, no seu intenso cromatismo, na
temática da paisagem.
Wassily Kandinsky
(1866-1944), o artista mais marcante deste grupo, representa o momento
de transição de uma figuração muito diluída para uma linguagem
inteiramente abstrata, baseada exclusivamente na capacidade comunicativa
e espiritual dos materiais básicos da expressão plástica, como a cor e a
forma. O seu primeiro trabalho abstrato foi uma aguarela, realizada em
1910.
De entre os restantes artistas que integravam o grupo, destacam-se os
alemães Alexander Kanoldt (1881-1939), Gabriele Münter (1877-),
companheira de Kandinsky, e Karl Hofer (1878-1955), da Morávia Ótakar
Kubín (1883-1969), Marianne von Werefkin (1860-1933) e os irmãos russos
David Bourtilouk (1882-1967) e Vladimir Bourtilouk (1886-1917), assim
como Alexeï von Jawlensky, anteriormente ligado ao movimento fauvista.
Mais tarde, juntaram-se ao grupo os pintores franceses Pierre Giraud e
Henri Le Fauconnier (1881-1946) assim como dois promissores pintores
alemães, Franz Marc (1880-1916) e August Macke (1887-1914).
Uma das principais atividades da Neue Künstlervereinigung foi a
organização de exposições coletivas, para as quais eram publicados
catálogos que constituíam um meio para reflexão sobre a produção
artística e sobre os fundamentos estéticos do movimento. No prefácio do
catálogo da primeira exposição de grupo, realizada em 1909, foi
apresentado o programa teórico do movimento, denunciando o seu carácter
aberto e universalizante.
O catálogo da segunda exposição do grupo, apresentada em 1910, incluía um texto do pintor Odilon Redon,
um dos pintores que maior influência exerceu sobre esta corrente. Nesta
exposição figuravam, para além dos seus membros, outros artistas
marcantes da cena artística europeia, como Alfred Kubin, Maurice
Vlaminck (1876-1958), André Derain (1880-1954), Van Dongen, Picasso e
Georges Rouault (1871-1958).
Durante a preparação para a terceira
exposição, uma das telas de Kandinsky foi retirada da montagem devido ao
seu grande tamanho, incidente que provocou uma rutura interna, levando a
que um conjunto de artistas, entre os quais o próprio Kandinsky,
organizassem uma apresentação independente que constituiria a primeira
atividade do movimento Der Blaue Reiter.(daqui)
Der Blaue Reiter, que na língua portuguesa significa O Cavaleiro Azul, designa um grupo de pintores expressionistas que desenvolveram atividade em Munique, entre 1911 e 1913. Este grupo, criado pelo pintor russo Wassily Kandinsky e pelo alemão Franz Marc,
integrava alguns dissidentes da "Nova Associação de Artistas", formada
na mesma cidade em 1909. O nome que adotaram para este movimento
sintetiza a paixão de Franz Marc pelo cavalo e de Kandinsky pela cor azul.
Os seus principais pontos de interesse eram a arte primitiva, a arte
intuitiva infantil, o potencial das associações psicológicas e
simbólicas da cor, da linha e da composição, relativamente aos quais
foram muito influenciados pela música expressionista, nomeadamente a do
compositor Arnold Schoenberg, que também integrava o grupo.
O
grupo apresentou uma exposição coletiva em 1911, denunciando, pela
diversidade de inspirações e de tendências estéticas dos artistas
participantes - Robert Delaunay, Campendonk, Arnold Schoenberg, Macke e Henri Rousseau,
entre outros -, a inexistência de um programa ou de uma orientação
teórica rígida. Uma das características deste movimento foi precisamente
o seu carácter orgânico e aberto e a sua especial preocupação pelos
aspetos espirituais da criação artística mais que pelos aspetos formais e linguísticos. Assim, se Kandinsky enveredou por uma via abstrata, Franz Marc manteve-se sempre ligado a uma representação figurativa, ainda que não realista.
Em maio de 1912, foi publicado um primeiro número da revista Blaue Reiter Almanack onde são divulgados importantes ensaios dos seus fundadores e de outros artistas como Kubim, Pechstein e Schoenberg.
Na sua segunda exposição, para além dos artistas que integravam o grupo, figuravam outros pintores de nomeada como Hans Arp, Paul Klee e Kasimir Malevich.
Apesar da sua reduzida longevidade (o grupo dissolveu-se em 1913, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial), Der Blaue Reiter foi uma das principais correntes do expressionismo alemão. (daqui)
"A arte é a contemplação: é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que ela também tem uma alma. É a missão mais sublime do homem, pois é o exercício do pensamento que busca compreender o universo, e fazer com que os outros o compreendam."
Franz Marc (German painter and printmaker, 1880–1916),
'Self-Portrait', 1905
Pintor alemão, Franz Marc, filho de pintor, nasceu em 1880, em Ried, próximo de Munique, na Baviera.
Em 1900, ingressou na Academia de Belas-Artes de Munique onde estudou
pintura. Estabeleceu-se em Paris em 1903 e desenvolveu trabalhos que
revelam influência tanto do Impressionismo como do movimento do Jugendstil que marcou a sua formação em Munique.
Na pintura "Cães Siberianos na Neve", realizada entre 1909 e 1910, as
figuras dos animais parecem fundir-se com o fundo, pela acentuação dos
tons de azul e branco, com evidente aproximação à estética
impressionista e à obra de Vincent Van Gogh com a qual Marc contactou em 1907.
Em 1910, conheceu os pintores August Macke e Wassily Kandinsky e no ano seguinte ingressa na Neue Kunstlervereinigung (Nova Associação de Artistas) de Munique. Nesta altura, juntamente com Kandinsky, fundou o grupo Der Blaue Reiter e tornou-se responsável pela publicação do seu almanaque, desde 1912.
Franz Marc entendia a religião como um componente importante do processo
criativo e assumia a arte como um meio para representar, de forma quase
onírica, a verdade oculta e íntima da realidade. Assim, a sua pintura
foi-se gradualmente libertando da referência cromática naturalista ou
realista e passou a imprimir à cor uma forte conotação espiritual:
vermelho representa a matéria, o azul é o elemento masculino e o amarelo
é o elemento feminino.
Nas telas "Grandes Cavalos Azuis", de 1911, e "Pequenos Cavalos
Amarelos", de 1912, percebe-se a dupla temática presente no seu
trabalho: o cavalo, símbolo de força, e a cor intensa e luminosa
utilizada como metáfora sexual.
A partir de 1912, o seu trabalho tornou-se mais abstrato, com a adoção dos jogos cromáticos de Robert Delaunay
e uma maior complexidade compositiva na relação entre figuras e
paisagem através de interseção de formas e diluição de contornos. No ano
seguinte, abandonou qualquer referência figurativa realizando a sua
primeira tela inteiramente abstrata.