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sábado, 5 de setembro de 2015

"Uma Ausência de Mim" - Soneto de Alberto da Costa e Silva


Fortunato Depero, Portrait of Gilbert Clavel, (Figura seduta al caffè), 1918


Soneto


Uma ausência de mim por mim se afirma.
E, partindo de mim, na sombra sobre
o chão que não foi meu, na relva simples
outro ser que sonhei se deita e cisma.

Sonhei-o ou me sonhei? Sonhou-me o outro
— e o mundo a circundar-me, o ar, as flores,
os bichos sob o sol, a chuva e tudo —
ou foi o sonho dos demais que sonho?

A epiderme da vida me vestiu,
ou breve imaginar de um ócio inútil
ergueu da sombra a minha carne, ou sou

um casulo de tempo, o centro e o sopro
da cisma do outro ser que de mim fala
e que, sonhando o mundo, em mim se acaba.

in 'A Linha da Mão'

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Queixas de um Utente" - Poema de José Miguel Silva




Queixas de um Utente

 
Pago os meus impostos, separo 
o lixo, já não vejo televisão 
há cinco meses, todos os dias 
rezo pelo menos duas horas 
com um livro nos joelhos, 
nunca falho uma visita à família, 
utilizo sempre os transportes 
públicos, raramente me esqueço 
de deixar água fresca no prato 
do gato, tento ser correto 
com os meus vizinhos e não cuspo 
na sombra dos outros. 

Já não me lembro se o médico 
me disse ser esta receita a indicada 
para salvar o mundo ou apenas 
ser feliz. Seja como for, 
não estou a ver resultado nenhum. 


José Miguel Silva, 
in 'Ulisses Já Não Mora Aqui'




Fortunato Depero (1892-1960)

domingo, 30 de agosto de 2015

"Pedra Tumular" - Poema de António Manuel Couto Viana


Fortunato Depero, War-party, 1925. National Gallery of Modern Art, Rome


Pedra Tumular


A minha geração fugiu à guerra, 
Por isso a paz que traz não tem sentido: 
É feita de ignorância e de castigo, 
Tão rígida e tão fria como a pedra. 

Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis, 
Duma verdade inútil por vazia, 
E a língua imóvel nega o som à vida, 
Por hábito ou por falta de coragem. 

Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra: 
Porque é que pulsa o coração do mundo, 
Precipitado, angustioso, ardente? 

Mas depressa submerge na indiferença 
- Que lhe deram um túmulo seguro; 
E o relógio dá-lhe horas certas, sempre. 


in 'Mancha Solar'


Fortunato Depero, The Chair’s Party, 1927


"A biblioteca é o templo do saber, e este tem libertado mais pessoas do que todas as guerras da história."