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quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Gato" - Poema de Ivan Junqueira

 

Christian Skredsvig
(Norwegian painter and writer, 1854–1924), "Idyll", 1888,
Lillehammer Art Museum.



Gato


Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.

Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move

A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.

Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
– e, de repente,
o pulo em cima.

A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.

Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.


Ivan Junqueira (1934–2014),
in "O Grifo", 1987.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

"Dois gatos" - Poema de Ivan Junqueira


Julius Adam (German genre painter and animalier specialising in pictures of cats, 1852 - 1913),
Zwei Kätzchen im Korb mit blauem Tuch, c. 1913.
 
 

Dois gatos

1

Eram dois gatos num só
a se esfregarem no pó

das velhas tábuas do assoalho,
rente às brasas do borralho

de uma lareira sem dono,
no fluido limiar do sono.

Era um gato e eram dois,
mas só se os viam depois

que um se escondia na pele
do outro e abandonava a dele,

como quem sai de si mesmo
e, passo a passo, anda a esmo,

sem destino, alheio à sorte
do que seja a vida e a morte.

Eram dois de olhos azuis
quais turquesas, e um capuz

que a cabeça lhes cobria
com egípcia simetria,

de uma orelha a outra orelha,
de uma a outra sobrancelha.

E lembrem-se o rabo e as patas
de cores gémeas, exatas.

Se um sumia, o outro miava
em, num átimo, o encontrava

sob os degraus de uma escada
que subia rumo ao nada.

Jacó e Esaú: lhes deram
esses nomes que não eram

senão o dilema arcano
do rosto de um deus romano.

Nunca foram, pois, iguais,
e disso havia sinais

em todo e qualquer detalhes,
não de postura ou de talhe,

mas de índole e de aspeto:
um, esquivo e circunspecto,

o outro, terno, mais afeito
a quem o punha no leito.

2

Foi-se a areia da ampulheta,
foram-se os tons da palheta

que davam cor à façanha
de um só ser dois nessa estranha

aptidão de duplicar-se
sem artifício ou disfarce.

E hoje ainda me pergunto
quando me toca esse assunto:

seria mesmo um só gato
que se expandia em dois no ato

de ludibriar os que os viam,
ou eram ambos que urdiam

uma única criatura
em que tudo se mistura? 


Ivan Junqueira

(Jornalista, poeta, tradutor e crítico literário brasileiro, 1934 - 2014)
 

 
 
"Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo."
 

Julius Adam, Cat with her Kittens, s.d.
 
 
"O gato é o único animal que aceita os confortos, mas rejeita a escravidão da domesticidade."

Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

"No leito fundo" - Poema de Ivan Junqueira



Edward Cucuel
(American-born painter who lived and worked in Germany, 1879–1954),
Frühlingsgarten in Starnberg, c. 1920.



No leito fundo


No leito fundo em que descansas,
em meio às larvas e aos livores,
longe do mundo e dos terrores
que te infundia o aço das lanças;

longe dos reis e dos senhores
que te esqueceram nas andanças,
longe das taças e das danças,
e dos feéricos rumores;

longe das cálidas crianças
que ateavam fogo aos corredores
e se expandiam, quais vapores,
entre as alfaias e as faianças

de tua herdade, cujas flores
eram fatídicas e mansas,
mas que se abriam, fluidas tranças,
quando as tangiam teus pastores;

longe do fel, do horror, das dores,
é que recolho essas lembranças
e as deito agora, já sem cores,
no leito fundo em que descansas.


Ivan Junqueira
, in "A sagração dos ossos".
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994.



Edward Cucuel, Blausee, 1920.
 
 
"Com os dias acontece o mesmo que com as idades da vida. Nenhum dá o bastante de si, nenhum é suficientemente bom, porque cada um tem o seu tormento ou, pelo menos, a sua imperfeição. Mas, se os virmos em conjunto, veremos neles um grande caudal de vida e alegria."
 
 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

"Lição" - Poema de Ivan Junqueira


Manuel Henrique Pinto (Pintor português, 1852 - 1912), À Porta do Convento -
 


Lição

 
À beira do claustro
o monge se inclina
e na pedra aprende
o que a pedra ensina:
que a vida é nada
com a morte por cima,
que o tempo apenas
este fim lhe adia
e que o ser carece
de não ser ainda,
pois à luz se esquiva
do que o purifica:
a doce pedra,
sem musgo ou limo,
o pátio só,
conquanto o sino,
o ermo das coisas
simples e humildes.
 (Jornalista, poeta e crítico literário brasileiro, 1934 - 2014)
 

Manuel Henrique Pinto, Convento de Figueiró dos Vinhos, 1905.


À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.


Millôr Fernandes, Hai-kais,
Porto Alegre: L&PM, 1997.
 
 
HAI-KAIS de Millôr Fernandes
Coleção L&PM Pocket
Edição: maio de 1997
 
O hai-kai foi criado no Japão e é, por definição, um pequeno poema composto de três versos, e não possui rima, que foi acrescentada nas suas versões ocidentais. Este tipo de verso popularizou-se no século XVII com Bashô. 
Millôr Fernandes recriou o hai-kai e adaptou-o ao dia-a-dia, (olha,/ entre um pingo e outro/ a chuva não molha) tornando-o uma das suas mais conhecidas formas de expressão. Neste livro foram reunidos alguns hai-kais criados entre 1959 e 1986. Segundo o ancestral método japonês, os versos têm uma ilustração que lhes traduz ou interpreta. (daqui)
 

segunda-feira, 29 de julho de 2024

"O convite à viagem" - Poema de Charles Baudelaire


 ("Luxury, Calm and Pleasure"), 1904. Oil on canvas, 98.5 cm × 118.5 cm,
   Musée d'Orsay, Paris, France.
 
[The painting's title comes from the poem L'Invitation au voyage, from Charles Baudelaire's volume Les Fleurs du mal (The Flowers of Evil).]
 

O convite à viagem

 
Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
De teu olho infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
- Os sanguíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.


Charles Baudelaire
, in "As flores do mal".
 Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
 
 
 Charles Baudelaire, "As flores do mal".
 Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
 
 L’invitation au voyage

 
Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté. 


Charles Baudelaire
, "Les Fleurs du mal"
(1857 - 1861 - 1868) 
 

Charles Baudelaire, "As flores do mal".
Editora: Penguin-Companhia
 

Resumo 
 
 
Edição bilíngue de um dos mais influentes livros de poemas da modernidade. Obra poética completa de Baudelaire em nova tradução. 
Grafado pelo autor originalmente com letra maiúscula, o “Mal” de Baudelaire é um conceito, uma perceção que perpassa a sua obra e expõe o caráter humano. Livro inovador, que nas palavras de Marcel Raymond e Paul Valéry funda uma espécie de “movimento poético contemporâneo”, As flores do mal foi responsável por uma escandalosa transformação da literatura mundial ao misturar estilos elevados e populares, influenciando escritores como André Gide, Marcel Proust, James Joyce, Thomas Mann, entre outros. 
A primeira edição, publicada em 1857, quando Baudelaire tinha 36 anos, logo se torna objeto de um processo judicial que culmina na proibição de seis poemas. A segunda edição, de 1861, suprime os poemas censurados e inclui outros 35. O poeta também tradutor de Edgar Allan Poe e crítico de arte  foi alvo de discórdia também nos círculos literários. Conhecido por encarar a vida com uma paixão enfastiada, Baudelaire transformou o universo a sua volta em uma poesia forte, visceral e por vezes perniciosa. 
Este volume bilíngue reúne toda a poesia de Baudelaire: As flores do mal tal como publicado em 1861 e os poemas acrescidos à edição póstuma de 1868, em uma edição especial que demonstra toda a potência de um autor ainda hoje “maldito”. (daqui)