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quinta-feira, 4 de junho de 2026

"Deves ser pontual" - Poema de José Jorge Letria


Charles West Cope (English painter, 1811–1890), 'Girl with Slate', n.d.


Deves ser pontual 


Não penses que o relógio
gosta de se atrasar
só porque tu de manhã
te enroscas a dormitar.

Os outros não faças esperar
pois é falta de respeito
e pela tua vida fora
há de tornar-se um defeito.

Com um esforço pequenino
horários hás de cumprir
e se fores tu a esperar
mais forte te hás de sentir.

Verás que não custa nada
tornares-te pontual;
se tens encontro marcado,
ser cumpridor é normal.

E bem podes acreditar,
com o passar da idade,
que se tornou uma virtude
essa pontualidade. 

 
José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.


quinta-feira, 10 de março de 2022

"Álbum de Família" - Poema de Luiza Neto Jorge


Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826–1895), 'Mother', 1884.


Álbum de Família


Reconheço a mãe
comia legumes
vivia roendo
entre um cheiro
herbívoro
dizendo
«como vegetais
por vício»

a minha outra mãe
mansa provinha
do ventre polar
de sua mãe
deu-me à luz
elétrica
sob a luz solar

a terceira mãe
porque tinha fome
ou vertigem santa
tomba de onde mora
de um arranha-céus à hora 


Luiza Neto Jorge
,
in 'Corpo insurrecto e outros poemas', 2008.


 
Alexandre Legrand (French painter, 1822–1901), 'Maternal Love' 
(Mother and child after a bath),
Date unknown.



"Assim somos nós, mãe. Pelo amor, eu a refletir-te e tu a refletires-me, eu a ser reflexo de ti e tu a seres reflexo de mim. Recebi o amor que me deste e com ele te fiz. Recebeste o amor que te dei e com ele me fizeste." 

José Luís Peixoto, in 'Em Teu Ventre', 2015



Charles West Cope (English painter, 1811-1890),
'George Herbert and his Mother', 1872.



"A vida é pequena demais para perdermos tempo a gastar energias em algo que não envolva amor."
 
 Pedro Chagas Freitas, Prometo Falhar, 2014
 



"Prometo Falhar" é um livro de amor.
O amor dos amantes, o amor dos amigos, o amor da mãe pelo filho, do filho pela mãe, pelo pai, o amor que abala, que toca, que arrebata, que emociona, que descobre e encobre, que fere e cura, que prende e liberta.
O amor.
No seu estilo intimista, quase que sussurrado ao ouvido, Pedro Chagas Freitas leva o leitor aos estratos mais profundos do que sente. E promete não deixar pedra sobre pedra.
Mergulhe de cabeça numa obra que mostra sem margem para equívocos porque é que é possível sair ileso de tudo.
Menos do amor. (daqui)

domingo, 31 de julho de 2016

"Saudade" - Poema de Judith Teixeira


Charles West Cope (English painter, 1811-1890), Home Dreams, 1869.



Saudade 


Segue-me noite e dia o teu desejo!... 
Oiço a tua voz rúbida e cantante 
Suplicar-me a carícia do meu beijo, 
numa teima exigente e perturbante! 

E o meu corpo vencido, dominado, 
vai tombar doloroso, inconsciente, 
sobre a lembrança morna do passado 
- e fica-se a sonhar... perdidamente! 


Judith Teixeira, in 'Antologia Poética'