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domingo, 23 de junho de 2024

"Os namorados pobres" - Poema de Adília Lopes


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Flirtation, 1887, oil on canvas.
 Private Collection
 

Os namorados pobres 


O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome

Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres

Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
com os dentes
e trocam alianças
feitas de cordel

Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar

O acaso
não os favorece

Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro

Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome

Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se

Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá para um
de cada vez

O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira

O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço 


Adília Lopes, in “Dobra” - Poesia Reunida,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2009. 

 

quinta-feira, 6 de julho de 2023

"Amizade" - Poema de Paulo Leminski


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Two Venetian Women, 1898



Amizade


Meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança, calor.

Meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão.
 

Paulo Leminski, in Caprichos e relaxos,
São Paulo, Brasiliense, 1983. p.86.
 

Vozes: Marisa Liz e Áurea 


"Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade."
 
(Provérbio popular)
 

terça-feira, 27 de junho de 2023

"Receita para lavar palavra suja" - Poema de Viviane Mosé



Eugene de Blaas
(Italian painter, 1843-1931), Sharing the News, 1904



Receita para lavar palavra suja



Mergulhar a palavra suja em água sanitária,
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza,
por exemplo a palavra vida.

Existem outras e a palavra amor é uma delas
que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,
o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que ainda permanecem sujas
depois de submetidas a esses cuidados
mas existem aquelas.

Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.
Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja
como a palavra perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas,
soltam um líquido corrosivo
—que atende pelo nome de amargura—
capaz de esvaziar o vigor da língua.
Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa qualidade.

Agora se o que você quer
é somente aliviar as palavras do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo aqui é misturar palavras que mancham
no contacto umas com as outras.
A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra
e deve ser sempre clareada sozinha.
Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável,
esgarçar a força delicada da palavra amizade.

Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva
produz uma oleosidade que conserva a cor
e a intensidade dos sons.

Muito valioso na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos
que passeie pelas expressões dos seus sentidos.
À noite, permita que se deite,
não a seu lado, mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme
a palavra plantada em sua carne
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar a convivência
até não mais perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.

Uma palavra limpa é uma palavra possível.


Viviane Mosé
, do livro "Receita para lavar palavra suja"
(Coletânea de poemas escolhidas pela autora).
Rio de Janeiro: Arteclara, 2004.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

"Rosas" - Poema de Eugénio de Castro


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843-1931), The Flower Girl, 1911



Rosas


Que abundância de rosas! Todas elas,
Ao penugento arfar da viração,
Sob os mimos da luz, sorrindo estão,
Radiosas como bocas, como estrelas.

Tu que andas, fina e pálida, a colhê-las
Para alindar com pura devoção
Teu oratório, ansioso o coração,
As mais vivas escolhes, as mais belas.

Já encheste, afanosa, duas cestas,
Mas ainda queres mais! E desbotadas,
Por entre as rosas mil, de essências brandas,

As tuas mãos, translúcidas e lestas
Lembram duas freirinhas maceradas,
Conduzindo ao recreio as educandas.


"Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição? - Agustina Bessa-Luís

sábado, 27 de abril de 2013

"Posso escrever os versos mais tristes" - Poema de Pablo Neruda


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843-1931), The Watercarrier, 1908



Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda


Eugene de Blaas, The Serenade, 1910, Oil on canvas.


Eugene de Blaas, The Flirtation, 1904


Eugene de Blaas, The Love Letter, 1904


Eugene de Blaas, Flirtation at the Well, 1902


O artista Eugene de Blaas também conhecido como Eugenio De Blaas ou Eugen von Blaas, nasceu em 24 de julho na cidade italiana de Albano, perto de Roma, em 1843, de pais austríacos. Sua carreira foi enriquecida por uma família talentosa e artística. Seu pai, Carl von Blaas (1815-1894), professor na Academia de Roma e na Academia de Veneza, foi um dos retratistas mais notáveis ​​da sociedade romana. Seu irmão mais novo, Júlio, também foi um pintor, dedicado principalmente aos animais e questões militares.
 Em todas as academias que frequentou, Eugene de Blaas cultivou preciosos prémios, mas foi em Veneza que  se destacou e se estabeleceu como um pintor de óleo, líder do género Venetian e também em aquarelas. Seu tema favorito foi o quotidiano do povo veneziano. Pintava com técnica apurada e cores vibrantes que demonstram seu total domínio na arte do retrato. Ele descreveu cenas que eram características de Veneza, como os pescadores locais, belas mulheres cercadas por gondoleiros e a arquitetura maravilhosa. Retratou o charme e a elegância de Veneza, apostando na pele, cabelos, rendas, bordados e outras texturas macias.
Visitou a Bélgica, Viena, França e viveu na Inglaterra por um tempo. Entre 1875 e 1892, também se exibiu na “Royal Academy”, na Galeria de Grafton e na Galeria Nova em Londres. Apresentou-se em muitas coleções particulares e nos museus de Leicester, Melbourne, Nottingham, Sheffield Sydney e Viena. Eugene de Blaas morreu no dia 10 fevereiro, na cidade italiana de Veneza, em 1932.


Eugene de Blaas, Sur le Balcon, 1877

sábado, 2 de junho de 2012

"Quando nos apaixonamos" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843-1931), The Seamstress



Quando nos apaixonamos


Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me. 

Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte. 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (14 Fev 2012)'


Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso nasceu em Lisboa em 1955. É crítico, escritor e jornalista português. Mas é também letrista, tradutor, ensaísta, autor de programas de rádio, dramaturgo, entrevistador e tem um grande sentido de humor.
Teve uma educação privilegiada e foi um aluno brilhante com um talento invulgar para a escrita. Estudou no Reino Unido, mais concretamente na Universidade de Manchester, onde se licenciou em Estudos Políticos, e prosseguiu na mesma universidade para o doutoramento em Filosofia Política com uma tese sobre A Saudade, o Sebastianismo e o Integralismo Lusitano. Em 1982 regressou a Portugal e entrou para o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, como investigador auxiliar. Foi ainda professor auxiliar de Sociologia Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, co-fundador do Gabinete de Filosofia do Conhecimento, visiting fellow do St. Antony's College, em Oxford, e fez um pós-doutoramento em Filosofia Política, sob orientação de Derek Parfit e de Joseph Raz.
A partir do contacto estreito com as bandas pós-punk e new wave da editora Factory quando esteve no Reino Unido, MEC (como ficou conhecido), escrevia crónicas sobre música pop, publicadas nos jornais Se7e, O Jornal ou Música & Som. Participou na Fundação Atlântica, a primeira editora portuguesa independente, produzindo discos de nomes como Sétima Legião, Xutos e Pontapés, Delfins, Paulo Pedro Gonçalves, Anamar, entre outros. Fez letras de músicas e foi ainda autor e co-autor de diversos programas de rádio como Trópico de Dança, Aqui Rádio Silêncio, W, Dançatlântico e A Escola do Paraíso, todos na Rádio Comercial.
Começou a dedicar-se à crítica literária e cinematográfica e a ser presença assídua na rádio e na televisão. Marcava a diferença pela sua aparência invulgar de jovem intelectual com intervenções imprevisíveis e desconcertantes, irónicas e irreverentes. Tornou-se colaborador do Expresso, onde as suas crónicas satíricas A Causa das Coisas e Os Meus Problemas, conheceram o acompanhamento regular de muitos leitores e o sucesso junto dos jovens.
Monárquico e antieuropeísta convicto, apresentou-se como candidato a deputado ao Parlamento Europeu, em 1987, como independente nas listas do Partido Popular Monárquico, não conseguindo a eleição. Simultaneamente, é incentivado a integrar a Companhia de Teatro de Lisboa, o que o leva à dramaturgia. Publicou então Carne Cor-de-Rosa Encarnada (encenada por Carlos Quevedo), Os Homens (encenado por Graça Lobo) e traduziu várias peças de Samuel Beckett.
Em 1988 fundou, com Paulo Portas, O Independente. Um semanário que pretendia revolucionar o jornalismo português. Foi um contraponto conservador e elitista, mas simultaneamente libertário e culto, à imprensa esquerdista que prevalecia na época. MEC ocupava-se da parte cultural, no destacável Vida e fazia dupla com Paulo Portas em entrevistas a algumas figuras marcantes da política e cultura portuguesa.
Em 1991, deixou a direção d'O Independente para criar a Revista K, projeto que não durou mais que dois anos. Mas a dedicação à literatura foi-se intensificando, até que acabou por afastá-lo do jornalismo ativo.
O amor é fodido é o título do seu primeiro romance, publicado em 1994 e foi um best-seller.
Na televisão, colaborou com Herman José, como guionista do programa Humor de Perdição e em vários talk-shows, entre eles o popular A Noite da Má-Lingua na SIC, com a moderação de Júlia Pinheiro e na companhia de Manuel Serrão, Rui Zink, Rita Blanco, Alberto Pimenta, Luís Coimbra, Constança Cunha e Sá e Graça Lobo, eram satirizadas figuras e situações da vida pública portuguesa e internacional.
No final dos anos 90, por motivos que nunca revelou, abandonou os ecrãs televisivos. Publicou mais dois romances, A Vida Inteira e O Cemitério de Raparigas e continuou a escrever crónicas em jornais, primeiro n'O Independente, mais tarde no Diário de Notícias. Em 1999, criou também um blogue chamado Pastilhas, que abandonou em 2002.
Em 2006 retomou a sua colaboração com o Expresso. Em 2009 lançou o livro Em Portugal não se come mal. (Daqui)


"A vida come-se quando é boa; come-nos quando é má. E às vezes, quando menos esperamos, também comemos com ela".

(Miguel Esteves Cardoso)
 

 
  Portrait of a Young Lady with Veil 
 

"Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele." 

(Victor Hugo)




"Quem não compreende um olhar, tão pouco compreenderá uma longa explicação..."

(Mário Quintana)


Eugene de Blaas, Venetian Lovers, 1906 


"O amor eterno é o amor impossível. Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam."
 
(Eça de Queirós)
 

Eugene de Blaas 


(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. (...)
 

 Cecília Meireles, Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguillar


Eugene de Blaas 

 
"Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro." - Miguel Esteves Cardoso