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domingo, 11 de junho de 2017

“Eros e Psique” - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), 'The Abduction of Psyche', c.1895


Eros e Psique


Conta a lena que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 



François Gérard (French painter, 1770-1837), 'Cupid and Psyche', 1798,
also known as 'Psyche Receiving Cupid's First Kiss'. 


"A única anormalidade é a incapacidade de amar."



Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche', 1817


Eros e Psique


William-Adolphe Bouguereau, 'Cupido' (Love on the look out), 1890
 
 
Eros, o deus grego do amor e do desejo, conhecido na mitologia romana como Cupido, é filho de Afrodite e de um dos prováveis deuses: Ares, ou Hermes, ou Zeus. Sendo o mais jovem dos deuses, Eros é geralmente representado como uma criança alada, com arco e flecha, pronto a disparar sobre o coração de deuses e de mortais, suscitando-lhes o desejo e o amor. As flechas eram de dois tipos: as douradas, de penas de pomba, que suscitavam o amor, e as flechas de chumbo, com penas de coruja, que causavam a indiferença. Frequentemente com os olhos vendados para simbolizar a cegueira do amor, Eros tornava-se perigoso para os demais, pois disparava setas em todas as direções, chegando mesmo a atingir a própria mãe, que o castigava retirando-lhe as asas e o arco. 
Uma das lendas mais conhecidas do deus do Amor é a aventura amorosa com Psique, nome que em grego significa alma. 


 Jacques-Louis David, 'Psyché Abandonné', 1795, huile sur toile,
 collection particulière


Psique era uma princesa de uma beleza tão exultante que fazia ciúmes à própria Afrodite. Esta deusa deu instruções ao filho, Eros, para punir a audácia da princesa, fazendo com que esta se apaixonasse pelo homem mais feio do mundo, e Eros obedeceu. O pai da jovem, verificando que Psique era a única das suas três filhas que ainda não tinha casado, resolveu consultar o oráculo. Este revelou-lhe que deveria preparar Psique como para uma cerimónia nupcial e, em seguida, abandoná-la numa montanha junto de um rochedo, onde um monstro, seu futuro marido, a iria buscar. Assim se passou e, enquanto aguardava resignada a sua triste sorte, Psique foi recolhida pelos braços de Zéfiro, que a levou para um lindo palácio. Psique estava quase a adormecer, quando um ser misterioso apareceu na escuridão do seu quarto e lhe disse que era o marido a quem ela estava destinada. Era o belo Eros que desempenhava o papel de marido, tentando desta forma executar o castigo que Afrodite pedira, mas, ao ver Psique, apaixonou-se imediatamente por ela. Antes de desaparecer, pouco antes do amanhecer, Eros obrigou Psique a jurar que nunca tentaria ver o seu rosto. 

Com o passar do tempo, Psique apaixonou-se pelo ser misterioso até que um dia, ao visitar as irmãs, invejosas da sua felicidade, foi instigada a ver o rosto do seu marido. Então, curiosa, Psique resolveu seguir o conselho das irmãs. Assim, enquanto o marido estava a dormir silenciosamente, Psique acendeu uma vela e, em vez do monstro, encontrou o belíssimo Eros. Aproximando-se para o ver melhor, deixou cair uma gota de cera no ombro do deus. Eros acordou e, furioso, reprimiu-a pela sua curiosidade e pela quebra da promessa que lhe tinha feito e retirou-se. Ao mesmo tempo, desapareceu o palácio e Psique encontrou-se, de novo, na montanha, onde, desgostosa, tentou suicidar-se, atirando-se a um rio, mas as águas levaram-na de volta às margens. A partir de então, vagueou pelo mundo à procura do seu amor, e, perseguida pela ira de Afrodite, foi sujeita a muitos perigos que conseguiu vencer devido a uma misteriosa proteção. Finalmente, Eros, impressionado pelo arrependimento de Psique e pela fidelidade do seu amor, implorou a Zeus que deixasse Psique juntar-se a ele. Zeus concedeu a imortalidade a Psique, Afrodite esqueceu os seus ciúmes e o casamento foi celebrado, no Olimpo, com grandes festejos. 


Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche in the nuptial bower', oil, 1792-93


Nos vasos gregos antigos, Psique é representada com corpo de pássaro ecabeça humana ou como uma borboleta. Uma obra de arte que popularizou o mito de Eros e Psique é a obra escultórica de Antonio Canova (1757-1822), na qual "Psique é reanimada pelo beijo de Eros", e que se encontra no Louvre, em Paris (França). (daqui)


Antonio Canova (1757-1822), 'Psique é reanimada pelo beijo de Eros', versão do Louvre.


"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho." 

domingo, 21 de abril de 2013

Neoclassicismo


Bertel Thorvaldsen - As três Graças ouvindo a canção de Cupido,
 uma obra exemplar da estética neoclássica


Neoclassicismo
(Arquitetura - Artes Plásticas e Decorativas - Literatura)


  • Introdução

O Neoclassicismo, também designado por estilo neoclássico, foi uma corrente artística desenvolvida desde o século XVIII até aos inícios do século XIX (aproximadamente entre 1755 a 1830, embora com algumas variações nos diferentes países), resultante da recuperação da gramática formal das artes da antiguidade clássica greco-romana, como a clareza, o equilíbrio e a ordem. Na segunda metade doséculo XVIII atingiu-se o esgotamento das possibilidades expressivas e formais dos estilos Barroco e Rococó, acompanhando a crise da própria ordem social que os sustentara. Tal como verificara noutros momentos de crise, o retorno às raízes artísticas da civilização ocidental, a antiguidade greco-romana, parece ser a solução para encontrar a estabilidade e as possibilidades de progresso. Este processo ideológico encontrou apoio no pensamento histórico ilustrado que, através da arqueologia (com as escavações de Herculano, de Pompeia e de Roma) e da história de arte (protagonizada pelo historiador alemão J. J. Winckelmann), permitira a redescoberta da antiguidade.



O Jefferson Memorial em Washington, DC, Estados Unidos, de declarados traços classicistas.


  • Arquitetura

A arquitetura neoclássica surgiu em Roma, em meados de setecentos, através da ação teórica e prática de Anton Rafael Mengs (1728-1779) e J. J. Winckelmann (1717-1768), tendo conhecido um significativo desenvolvimento nas cidades de Milão e de Turim, com a atividade de G. Piermarini.
 Em França, a construção do Panteão de Paris (também conhecido por Igreja de Sainte Geneviève), projetado por Jacques Germain Soufflot (1713-1780) para o rei Luís XV, representa o momento de imposição da estética racionalista clássica sobre o Barroco decadente. Soufflot desenvolveu outros trabalhos importantes como a coluna de Austerlitz, a Place Vendôme e o Arco do Carroussel, todos em Paris.
Outros arquitetos importantes neste período foram J. A. Gabriel (1698-1782) primeiro arquiteto real, autor da Praça da Concórdia (1757) e do Petit Trianon de Versalhes (1762); Charles Percier e Pierre François Fontaine, arquitetos de Napoleão e responsáveis pelo Arco do Triunfo da Étoile, em Paris (1806-1836) e Barthélemy Vignon (1806-42), famoso pelo projeto da Igreja da Madeleine de Paris, construída para comemorar as vitórias de Napoleão.
Étienne-Louis Boullée (1728-99) e Claude Nicholas Ledoux, os arquitetos mais ousados deste período, desenvolveram projetos utópicos e visionários de edifícios gigantescos constituídos por sólidos perfeitos e de grande pureza linguística. Embora pouco tenham construído, a sua influência teórica e pedagógica tornou-os precursores da arquitetura moderna.

Outro país europeu onde o Neoclassicismo teve um grande desenvolvimento foi a Alemanha. A sua gramática severa e simples, fortemente marcada pela arte grega, está bem representada nos trabalhosde Karl Friedrich Schinkel, de Langhans, autor da Porta de Brandeburgo em Berlim, (1788-1791) e de Leo von Klenze, responsável por inúmeros projetos, entre os quais, a Glipoteca, a Pinacoteca e os Propileus de Munique e o templo Walhalla (1830-1842), próximo de Ratisbona.

Em Inglaterra, destaca-se a obra do pioneiro Robert Adam (1728-1792), responsável por algumas importantes escavações arqueológicas em Itália, de W. Chambergs, ou de Sir John Soane (1753-1837), um dos mais originais artistas deste período, autor do Banco de Inglaterra (1796).

O Neoclassicismo em Espanha, desenvolvido desde o último quartel do século XVIII, teve como protagonistas os arquitetos F. Sabatini e J. de Villanueva, responsáveis pelo projeto do Museu do Prado.

Nos Estados Unidos, o Neoclassicismo, conhecido por Estilo Georgiano, inspira-se de forma direta no neo-palladianismo inglês. Dos exemplos mais interessantes desta tendência refiram-se a casa do arquiteto Thomas Jefferson (1743-1826) em Monticello e o Capitólio de Richmond, do mesmo projetista.

Em Portugal, a primeira obra construída dentro do novo estilo foi inteiramente importada de Itália. Trata-se da capela de S. João Batista na igreja de S. Roque de Lisboa, encomendada em 1742, pelo rei D. João V aos arquitetos Salvi e Luigi Vanvitelli. José Costa e Silva (1714-1819), formado em Bolonha, representaria o apogeu nacional deste estilo. Projetou, entre muitos outros edifícios, o Teatro Nacional de S. Carlos (1792) e o Palácio Nacional da Ajuda (este em conjunto com o italiano Fancisco Xavier Fabri), que não chegou a concluir-se.
Em Coimbra salientam-se alguns trabalhos do engenheiro militar Guilherme Elsden, como o edifício do Museu da Universidade, construído entre 1773 e 1774.
No Porto a introdução do estilo neoclássico deve-se à ação dos ingleses residentes nesta cidade, o que explica a enorme influência da tendência palladiana, presente nomedamente no Hospital de Santo António, projetado pelo inglês Jonh Carr (cerca de 1770), no edifício da Feitoria Inglesa ou no Palácio da Bolsa, de J. da Costa Lima. Um dos expoentes máximos do Neoclassicismo nortenho foi o engenheiro Carlos Amarante (1748-1815), autor de vários edifícios tardo-barrocos e neoclássicos, como a Igreja da Trindade no Porto.


O Juramento dos Horácios, por Jacques-Louis David, 1784, Museu do Louvre, Paris. Uma das obras mais conhecidas e influentes da escola neoclássica


  • Artes Plásticas e Decorativas

Roma constituiu o núcleo de formação e de divulgação da estética pictórica neoclássica. Alguns trabalhos pioneiros, influenciados pelos trabalhos históricos do alemão Johann Winckelmann, do estilo académico de Nicolas Poussin (1594-1665), da pintura renascentista de Rafael e da estatuária antiga, foram realizados por um conjunto de pintores de inúmeras nacionalidades, de entre os quais se destacaram o alemão Anton Raphael Mengs (1728-1779), o escocês Gavin Hamilton e o americano Benjamin West e o francês Joseph-Marie Vien. O francês Jacques-Louis David (1748-1825), discípulo de Vien e estudante em Roma entre 1755 e 1781, representou o ponto máximo da pintura neoclássica. O quadro "Julgamento dos Horácios", executado em 1784, revela alguns dos elementos fundamentais da sua gramática, como a frieza e rigidez das figuras, a clareza da solução compositiva ou a suavidade do cromatismo.

No contexto artístico francês, onde a pintura neoclássica conheceu um vasto desenvolvimento, muitos outros artistas alcançaram um alto nível de qualidade estética. Entre estes refiram-se Jean-Baptiste Greuze (1723-1805), Jean Gros (1771-1835), principal artista de Napoleão, e Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), discípulo de David e um dos precursores do gosto exótico romântico.

A pintura neoclássica espanhola revela uma dupla inspiração: a obra de Mengs, que marcou gande parte dos artista da escola madrilena de finais do século XVIII, e a de J. L. David, representada na pintura de José de Madrazo e José Aparicio.

Em Portugal, a pintura neoclássica teve como expoentes máximos dois artistas formados em Roma: Francisco Vieira Portuense (1765-1805), e Domingos António de Sequeira (1768-1837).

Tal como se verificou ao nível da pintura, o principal impulsionador do gosto neoclássico na escultura foi o historiador Winckelmann, durante a sua estada em Roma. A reputação do meio artístico romano atraía artistas oriundos de diversos países, como o sueco John Tobias Sergel e o inglês Thomas Banks, que assumiriam um papel fundamental na divulgação internacional da nova estética.

O italiano Antonio Canova (1757-1822) iniciou a sua produção artística em Roma, na década de quarenta do século XVIII. Desde os seus primeiros trabalhos, Canova denuncia o desejo de recuperação do carácter calmo e puro das formas clássicas, tornando-se quase de imediato no expoente máximo da escultura neoclássica.

Outros escultores importantes deste período foram o dinamarquês Bertel Thorvaldsen (1770-1844), o americano Horatio Greenough (1805-1852) e o francês Jean-Antoine Houdon (1741-1828).
Em Portugal, o escultor João José de Aguiar, discípulo de Canova em Roma, realizou importantes trabalhos como as estátuas do Palácio Real da Ajuda, em Lisboa.

Ao nível das artes menores (como o mobiliário, os objetos decorativos e a porcelana, a joalharia e a tapeçaria, entre outras áreas), o estilo neoclássico apresentou uma expressão significativa em França (com os estilos Luís XVI e Império) e em Inglaterra, com os trabalhos de Robert Adam.


Ingres: A banhista de Valpinçon, 1808


Jean-Auguste Dominique Ingres – (29 de Agosto de 1780, Montauban – 14 de Janeiro de 1867, Paris), mais conhecido simplesmente por Ingres, foi um célebre pintor e desenhista francês, atuando na passagem do Neoclassicismo para o Romantismo. Foi um discípulo de David e em sua carreira encontrou grandes sucessos e grandes fracassos, mas é considerado hoje um dos mais importantes nomes da pintura do século XIX.

  • Literatura

É um movimento literário que se propõe um regresso ao Classicismo de Quinhentos quanto aos géneros, quanto à forma, quando à linguagem. Duas serão as suas grandes vertentes: uma, a doutrinação estética, consequente do racionalismo presente no Verdadeiro Método de Estudar, que muito deve à Arte Poética de Francisco José Freire (o «Cândido Lusitano»); a outra, a criação literária. Estava, porém, reservada à Arcádia Lusitana, fundada em 1756, a magna tarefa de reação contra os exageros do barroquismo. À sua fundação presidiu o intento de reabilitar o gosto literário e restabelecer o equilíbrio na literatura. As ideias da Arcádia, mais especificadamente de Correia Garção, o grande teórico do Neoclassicismo quer em dissertações quer em textos poéticos documentais, são principalmente estas: segundo Boileau, «nada é belo senão a verdade», por isso, o Neoclassicismo realça a verdade da natureza e a verdade humana; o teatro deve moralizar; logo, também a poesia tem de ser útil; devem imitar-se os antigos, mas com originalidade; deve banir-se a rima e usar-se o verso branco; deve procurar-se o ajustamento do atual e do quotidiano, à sobriedade e pureza dos moldes antigos - e nisto falhou; preconiza o uso da mitologia; tenta renovar o teatro, a poesia (e nesta cultivam, além das espécies que o século XVI restaurara, essencialmente o ditirambo e as odes pindáricas e anacreônticas, o que era anacrónico). Os resultados não corresponderam inteiramente ao plano traçado, talvez pelo cansaço do que era clássico. Na Oração II, Garção põe o dedo na ferida, quando diz: «Aqueles pomposos desígnios de domar o génio da Nação, fazendo que a crítica fosse recebida como conselho não como ofensa, aquela magnífica ideia de banir da Poesia portuguesa o inútil adorno de palavras empoladas, conceitos estudados, frequentes antíteses, metáforas exorbitantes e hipérboles sem modo, introduzindo em nossos versos o delicioso e apetecido ar de nobre simplicidade, foram os dois polos que primeiro perdemos de vista». Insiste sempre no valor construtivo da crítica mas aponta, ainda, a necessidade de "ensinar o que se há de de fazer", o que obrigava a estudo e trabalho. Para ele, o mau gosto que invadira a literatura era a liberdade, a facilidade, o desprezo das regras de Aristóteles, Horácio, Cícero e Quintiliano, quanto à poética e à retórica, a falta de leitura dos clássicos, de pureza de dicção, de harmonia nos versos, de magnificência na fábula, de constância nos caracteres; enfim, a falta de ordem, de pureza e de simplicidade que o Gongorismo arrastara consigo. Era, pois, um movimento desajustado na época, pois caminhava-se cada vez mais para o individualismo na arte que vai caracterizar o Romantismo. Salvaguardem-se alguns toques do quotidiano e da natureza exótica em Garção, a forma como Cruz e Silva observa a riqueza vegetal do Brasil onde situa, entre outras, a metamorfose do Manacá e do Beija-flor, aproveitando a lição de Ovídio nas suas Metamorfoses (Orfeu e Eurídice). Refira-se ainda o poema herói-cómico, o Hissope, possivelmente inspirado por Le Lutrin de Boileau, onde se desvia das limitações que o Neoclassicismo quase impunha. O assunto do poema desenvolve-se num plano regular, com uma certa comicidade, que resulta da imponência com que o autor nos apresenta um assunto tão irrisório, numa linguagem saborosamente irónica e até grosseira - marmanjo, bestial patada - a contrastar com o estilo grandiloquente, próprio do género épico, onde a animização de entidades abstratas (a Lisonja, a Excelência,a Senhoria, a Discórdia...) está ao serviço da crítica e da sátira à futilidade e aos caprichos da moda, à vã filosofia escolástica, à loucura da poesia barroca, à mania filologante, aos lisonjeiros que, em vão, «compõem grandes Ilíadas e tecem / Aos vaidosos magnates, mil sonetos, mil pindáricas odes, epigramas... ». Bocage encostado ainda ao Neoclassicismo pela forma, pelos temas (a aurea mediocritas, o tema das mudanças...) e pela mitologia, afirma um notável avanço para a corrente literária que se anuncia, o Pré-Romantismo.

Neoclassicismo. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-04-20].


Antonio Canova (1757-1822) - Perseu com a cabeça da Medusa, c. 1800,
Museus Vaticanos, um dos maiores ícones do Neoclassicismo escultórico.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

''Amai-vos'' - Poema de Khalil Gibran


Antonio Canova em seu estúdio com Henry Tresham e um modelo de gesso para Cupido 
e Psicologia por Hugh Douglas Hamilton, c. 1788-1791



Amai-vos


Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.


Khalil Gibran
 
 


"O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio."  - Khalil Gibran


Gibran Khalil Gibran, Bicharre, 6 de janeiro de 1883 – Nova Iorque, 10 de abril de 1931, também conhecido simplesmente como Khalil Gibran, foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo.

Em sua relativamente curta, porém prolífica existência (viveu apenas 48 anos), Khalil Gibran produziu obra literária acentuada e artisticamente marcada pelo misticismo oriental, que — por essa razão — alcançou popularidade em todo o mundo. Sua obra, acentuadamente romântica e influenciada por fontes de aparente contraste como a Bíblia, Nietzsche e William Blake, trata de temas como o amor, a amizade, a morte e a natureza, entre outros. Seu livro "O Profeta" é a obra mais conhecida de Khalil Gibran, escrito em 1923. Outro livro de destaque é "Asas Partidas", em que o autor fala de sua primeira história de amor.
 
 
Hugh Douglas Hamilton, Portrait of a Lady 
(probably Lady Charlotte McDonnell, 3rd Countess of Antrim in 1790s)


"Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta!"

(Carl Jung)


Carl Jung in his study room

Carl Gustav Jung (Kesswil, 26 de julho de 1875 — Küsnacht, 6 de junho de 1961) foi um psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana.