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quarta-feira, 31 de julho de 2024

"O Homem que contempla" - Poema de Rainer Maria Rilke


David Bailly (Dutch Golden Age, 1584–1657), Self-Portrait with Vanitas Symbols, c. 1651,
Museum De Lakenhal in Leiden, Netherlands.
 


O Homem que contempla
 
 
Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha ereto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior. 


Rainer Maria Rilke
, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira 
 
 
"O Livro das Imagens" de Rainer Maria Rilke
Tradução: Maria João Costa Pereira
Editora: Relógio d'Água, 22/11/2005
Nº de páginas: 292


 
Descrição
 
«Enquanto Rilke escreveu muito rapidamente algumas das suas grandes obras, O Livro das Imagens demoraria sete anos a chegar à sua forma final. A primeira edição remonta a Julho de 1902 e recolhia quarenta e cinco poemas escritos entre 1898 e 1901, a maior parte dos quais retirados do diário do autor. Rilke tinha então 26 anos. Em Dezembro de 1906, seria publicada uma segunda edição que modificava e aumentava significativamente a anterior. Eram-lhe acrescentados trinta e sete novos poemas, a ordem inicial pela qual eram apresentados os poemas anteriores fora modificada, um poema foi eliminado, assim como o verso final de um outro, foram dados títulos a poemas que antes os não tinham, outros que se apresentavam separados seriam unificados num só e a obra foi finalmente dividida em dois livros, cada um dos quais com duas partes.
As circunstâncias do poeta desempenhariam igualmente um papel determinante nesta obra, cuja conceção foi pontuada por acontecimentos significativos na sua vida: a atribulada relação amorosa com Lou Andreas-Salomé, as duas viagens de ambos à Rússia, a estada em Worspwede durante a qual conheceria a escultora Clara Westhoff, sua futura mulher, e Paula Becker, com quem manteve uma relação ambivalente, o período que passou em Paris, o nascimento da filha Ruth e o seu progressivo distanciamento da família.
Podem seguir-se em O Livro das Imagens os indícios destes acontecimentos e respetivas influências, pois ele constitui como que uma compilação das diferentes fases criativas do autor, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante.» (daqui)
 

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"Gato Preto" - Poema de Rainer Maria Rilke (2 traduções)

 
Pierre Carrier-Belleuse (Peintre français, 1851-1932),
 Jeune ballerine tenant un chat noir, 1895.
 


 Gato Preto
 
Um fantasma, apesar de invisível,
acusa o toque do teu olhar,
o que não acontece com o teu pelo
negro e felpudo, que absorve tudo.

Como um louco que, num acesso
de mania, destrói tudo em redor,
e de súbito cai numa espécie de torpor,
no chão acolchoado da cela,

ele parece dissimular dentro de si,
todos os olhares que nele pousaram,
para agastado e ameaçador
se enroscar e com eles adormecer.

Mas, de súbito, desperta de novo,
volta-se para ti e olha-te nos olhos:
descobres-te, então, a ti próprio, suspenso
no âmbar amarelo dos seus olhos ovais
como se fosses um inseto e nada mais. 
 

Rainer Maria Rilke,
in Animal Animal – Um Bestiário Poético,
Assírio & Alvim, fev. 2005, página 97,
 tradução de Jorge de Sousa Braga
 
 

Lionel Lindsay
(Australian artist, 1874 - 1961)
 
 
 Gato Preto

 
Um fantasma é ainda como que um lugar
de que o teu olhar faz depender um som;
mas aqui, na negrura deste pelo,
dissolve-se a mais forte visão:
como um louco raivoso que, mesmo no auge
da fúria, bate os pés na escuridão,
de repente se achasse entre os chumaços abafantes
duma cela onde cessa e se evapora.

Assim ele parece disfarçar dentro de si
todos os olhares que jamais nele pousaram,
para sobre eles, ameaçador e agastado,
se fechar num arrepio e com eles dormir.
Mas súbito, como que desperto, volta
o rosto para ti e contempla-te nos olhos:
e então encontras o teu próprio olhar no âmbar
amarelo das pedras redondas dos seus olhos,
inesperadamente: incrustado e fóssil
como um inseto de remotas eras.


Rainer Maria Rilke,
in Poemas, As elegias de Duino e Sonetos a Orfeu
Oiro do Dia, set. 1983, página 170, 
tradução de Paulo Quintela
 

terça-feira, 21 de maio de 2024

"O que é para ela a minha consciência?" - Poema de Rainer Maria Rilke


Christoffer Wilhelm Eckersberg (Danish painter, 1783 – 1853),
View north towards Kronborg Castle, Denmark, c. 1810.


O que é para ela a minha consciência?


Depois, quando souber já muitas coisas, quero ainda
simplesmente contemplar os animais, para que algo
da sua mutação se introduza nas minhas
articulações; quero ter uma existência breve
nos seus olhos que me seguram
e lentamente me soltam, serenamente,
 sem me julgarem.
Quero que os jardineiros me digam
muitas flores para que eu aos cacos
dos belos nomes próprios acrescente
um resto das centenas de perfumes.
E quero comprar frutos, frutos onde por dentro
se encontra de novo o país, até ao céu.
Pois isto tu compreendias: os frutos plenos.
Os que em taças punhas à tua frente
equilibrando com as cores todo o seu peso.
E, como os frutos também, vias as mulheres
e vias as crianças, de dentro
impelidas para as formas da sua existência.
E por fim viste-te a ti própria como um fruto,
despojaste-te dos teus vestidos, levaste-te
para diante do espelho, deixaste-te entrar
até ao teu olhar; isto ficou grande, à tua frente,
e não dizia: isto sou eu; não, antes: isto é.
Tão sem curiosidade era por último o teu olhar
e tão despossuído, tão verdadeiramente pobre,
que nem a ti te desejava: sagrado.
Assim te quero recordar, tal como te
colocavas dentro do espelho, a fundo
e longe de tudo. Porque vens diferente?
Porque te contradizes? Porque me queres
convencer de que naquelas contas de âmbar
que trazias ao pescoço ainda havia algum peso
daquele peso que no Além
nunca pertence a imagens apaziguadas? 
Porque me mostras
na tua atitude um mau pressentimento?
Quem te mandou ler os contornos
do teu corpo como as linhas da mão,
de modo que eu já não os possa ver sem destino?
Aproxima-te da luz da vela. Não tenho medo
de olhar os mortos. Quando vêm
têm direito a permanecer
no nosso olhar como as outras coisas.
Aproxima-te; fiquemos por momentos em silêncio.
Olha para esta rosa sobre a minha a mesa;
não é a luz que a rodeia tão tímida
como a que brilha sobre ti? Também ela não devia estar aqui.
No jardim lá fora, não misturada comigo,
devia ter ficado ou partir, -
agora dura assim: o que é para ela a minha consciência?

Rainer Maria Rilke (1875–1926), "Requiem por uma Amiga",
As Elegias de Duíno, Assírio & Alvim, 2002
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado

 

domingo, 19 de março de 2023

"Prognóstico" - Poema de A. M. Pires Cabral



Paul Cézanne
(French, 1839–1906), Portrait of Victor Chocquet (French art collector 
and an ardent propagandist of Impressionism, 1821–1891), 1877, 
 


Prognóstico

 
Sou do tempo em que não se corrigiam
dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei de dar,
não haja dúvida. 


A. M. Pires Cabral
, in
“As têmporas da cinza”
Editora Cotovia


Pierre-Auguste Renoir (French, 1841–1919), Portrait of Victor Chocquet, 1876
 

"As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas." 

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, 1929  

 

 

"Cartas a Um Jovem Poeta" (1929), agora em edição bilingue posfaciada por José Miranda Justo, reúne dez epístolas publicadas postumamente e enviadas ao longo de cinco anos por Rainer Maria Rilke a Franz Xaver Kappus, jovem militar que procurava dar os primeiros passos na poesia. Neste compêndio vital sobre o ofício do poeta, a intensidade lírica e a tocante humildade das suas linhas fundem-se sublimemente com as reflexões em torno da criação poética, dando corpo a uma conduta de vida, norteada pelo rigor e pela integridade. "Cartas a Um Jovem Poeta" perdurarão como uma meditação sobre a posição do poeta no mundo moderno e como uma lição de independência sem concessões, num mundo em que o homem cada vez mais se anula na multidão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926) é um dos maiores poetas de língua alemã do século XX. Solitário inveterado, levou uma vida errante e instável, desde os dias de dandismo na sua Praga natal aos périplos pela Rússia, a sua pátria espiritual, pelo Egipto, Itália e Espanha. Travou amizades com alguns dos criadores mais importantes da sua época, em particular, Auguste Rodin, de quem foi secretário. Autor de várias coletâneas de poesia, entre as quais Os Sonetos a Orfeu" (1922) e "As Elegias de Duíno" (1923), correspondência e prosa, a sua magistral obra, tão lírica quanto mística, assumiu contornos de reflexão profunda sobre a procura de transcendência. (daqui)
 
 
Maurice Denis (French painter, decorative artist, and writer, 1870– 1943),  Homage to Cézanne  
(Hommage à Cézanne), 1900. Oil on canvas,  Musée d'Orsay, Paris. 
 
[Hommage à Cézanne est un tableau du peintre français Maurice Denis exécuté en 1900. Cette huile sur toile représente des personnalités du monde de l'art réunis dans la galerie Vollard, à Paris, autour d'une nature morte du peintre Paul Cézanne, "Compotier, Verre et Pommes". 
De gauche à droite, y figurent en effet Odilon Redon, Édouard Vuillard, André Mellerio, Ambroise Vollard, Maurice Denis lui-même, Paul Sérusier, Paul-Élie Ranson, Ker-Xavier Roussel, Pierre Bonnard et enfin Marthe Denis, l'épouse de l'artiste. Le tableau, un portrait de groupe, qui contient aussi un autoportrait, est conservé au musée d'Orsay.] (daqui)


"Há alguma evidência de que a dignidade da arte depende do tamanho do interesse dos que admiram".

Theodor W. Adorno, (Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão, 1903–1969), 
 
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

"Recordação" - Poema de Rainer Maria Rilke


 


Recordação 


E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou. 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de
Maria João Costa Pereira
 
 
Helmuth Westhoff (German, 1891–1977), Portrait of Rilke, 1901


Rainer Maria Rilke, escritor modernista alemão, nasceu em 1875, em Praga, e faleceu em 1926, no sanatório de Valmont, vítima de leucemia. Tendo frequentado a Academia Militar e as universidades de Munique e Berlim, produziu, durante a infância e a adolescência, as primeiras coletâneas líricas - entre elas, Leben und Lieder (1896) e Advent (1898). A sua obra, influenciada pelos anos que passou em Praga e pelas diversas viagens que fez pela Europa ao longo da vida, é muito vasta. Merecem destaque especial, no romance, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), e na poesia Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923) e Duineser Elegien (Elegias de Duino, 1923). (daqui)
 
 
 Tradução e nota introdutória de Maria João Costa Pereira
Ano: 2005
 
 
"O Livro das Imagens é uma obra que Rilke escreveu na juventude, atravessada pela escrita de algumas das suas criações mais importantes (...) é uma compilação das diferentes fases criativas do poeta, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (...) Trata-se de uma obra composta por quase todo o tipo de poemas escritos por Rilke e nele estão já presentes muitos dos seus temas de culto: a natureza, a noite, a religiosidade, a solidão, a morte, a angústia, o amor. Sendo uma obra de juventude, O Livro das Imagens inclui alguns dos seus poemas mais conhecidos e mais amados, invariavelmente incluídos nas antologias, como Intróito, Outono, Oração e Anoitecer e traz em si a marca de muito do que viria a ser a criação da maturidade do poeta." 
 (in Nota introdutória de Maria João Costa Pereira)
 
Enquanto Rilke escreveu muito rapidamente algumas das suas grandes obras, O Livro das Imagens demoraria sete anos a chegar à sua forma final. A primeira edição remonta a Julho de 1902 e recolhia quarenta e cinco poemas escritos entre 1898 e 1901, a maior parte dos quais retirados do diário do autor. Rilke tinha então 26 anos. Em Dezembro de 1906, seria publicada uma segunda edição que modificava e aumentava significativamente a anterior. Eram-lhe acrescentados trinta e sete novos poemas, a ordem inicial pela qual eram apresentados os poemas anteriores fora modificada, um poema foi eliminado, assim como o verso final de um outro, foram dados títulos a poemas que antes os não tinham, outros que se apresentavam separados seriam unificados num só e a obra foi finalmente dividida em dois livros, cada um dos quais com duas partes.
As circunstâncias do poeta desempenhariam igualmente um papel determinante nesta obra, cuja conceção foi pontuada por acontecimentos significativos na sua vida: a atribulada relação amorosa com Lou Andreas-Salomé, as duas viagens de ambos à Rússia, a estada em Worspwede durante a qual conheceria a escultora Clara Westhoff, sua futura mulher, e Paula Becker, com quem manteve uma relação ambivalente, o período que passou em Paris, o nascimento da filha Ruth e o seu progressivo distanciamento da família.
Podem seguir-se em O Livro das Imagens os indícios destes acontecimentos e respetivas influências, pois ele constitui como que uma compilação das diferentes fases criativas do autor, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (daqui)
 
 

Thomas Eakins (American realist painter, 1844–1916), Self-portrait, 1902,  


Thomas Cowperthwait Eakins (25 de julho de 1844 - 25 de junho de 1916) foi um pintor realista americano, fotógrafo, professor e educador de artes plásticas. Ele é amplamente reconhecido como um dos artistas mais importantes da história da arte americana.

Ao longo de toda sua carreira Eakins trabalhou num estilo realista, tendo o ser humano como centro temático. Pintou centenas de retratos, que em conjunto dão um panorama da vida intelectual da Filadélfia em seu tempo, e isolados são penetrantes visões sobre os indivíduos. Como professor foi um nome altamente respeitado e muito influente no circuito das artes norte-americanas, apesar de escândalos pessoais terem prejudicado um sucesso mais amplo. Na fotografia foi um inovador, usando abordagens ousadas para sua época. Hoje é considerado o mais importante realista dos Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX.

Durante o período de sua carreira profissional, desde o início da década de 1870 até que sua saúde começou a falhar, por volta de 40 anos depois, Eakins trabalhou rigorosamente, escolhendo como objeto para sua arte as pessoas de sua cidade natal, Filadélfia, na Pensilvânia. Ele pintou centenas de retratos, geralmente de amigos, membros da família ou pessoas proeminentes na arte, ciência, medicina e do clero. Vistos em conjunto, os retratos oferecem uma visão geral da vida intelectual de Filadélfia no final do século XIX, e início do século XX; individualmente, são representações incisivas de pessoas pensantes.

Além disso, Eakins produziu uma série de grandes pinturas, que o levaram de retratos em sua sala a pinturas em escritórios, nas ruas, em parques, rios, arenas e anfiteatros de sua cidade. Esses locais ao ar livre lhe permitiram pintar o tema que mais o inspirou: pessoas nuas ou levemente vestidas em movimento. No processo, ele poderia modelar as formas do corpo na plena luz solar, e criar imagens de espaço profundo, utilizando seus estudos em perspetiva. Eakins também se interessou pelas novas tecnologias da fotografia de movimento, um campo em que ele agora é visto como um inovador.

Não menos importante na vida de Eakins, foi seu trabalho como professor. Como instrutor, ele era uma presença com alta influência na arte americana. As dificuldades que o atormentaram como artista que procurava pintar o retrato e a figura de forma realista, foram paralelizadas e até mesmo amplificadas em sua carreira de educador, onde os escândalos comportamentais e sexuais atrapalharam seu sucesso e danificaram sua reputação. Eakins era uma figura controversa, cujo trabalho recebeu pouco reconhecimento oficial durante sua vida. Desde a sua morte, ele foi celebrado pelos historiadores da arte americanos como "o mais forte e mais profundamente realista da arte americana do século XIX e início do século XX". (daqui)

quinta-feira, 21 de julho de 2022

"Solidão" - Poema de Rainer Maria Rilke


Edward Hopper (American realist painter, 1882-1967), Nighthawks, 1942, óleo sobre tela, 84.1×152.4
Art Institute of Chicago, Chicago (Illinois)
 


Solidão


A solidão é como a chuva que brota
do mar para o cair da tarde;
da planície distante e remota
para o céu, que sempre a adota.
E só então recai do céu sobre a cidade.

Ela chove, entre as horas, a seu despeito,
quando todos os becos buscam a madrugada
e quando os corpos, que não encontraram nada,
quedam-se juntos, tristes e frios,
e os que se odeiam, rosto contrafeito,
têm de dormir no mesmo leito:

aí a solidão flui como os rios...


 In: Augusto de Campos (trad. e org.). Coisas e anjos de Rilke
São Paulo: Perspectiva, 2013.
 
 

Augusto de Campos, Coisas e anjos de Rilke
Editora Perspectiva

Nesta nova edição, Augusto de Campos ampliou para 130 os poemas traduzidos, tendo acrescentado setenta textos aos anteriores, sempre com ênfase nos "Novos Poemas" (1907-1908), a obra menos conhecida de Rainer Maria Rilke. Incluiu mais alguns poemas do Livro de Imagens, e ainda outros, dos Sonetos a Orfeu, que têm a ver com a dicção poética daquelas coleções. Aditou-lhes, por fim, outros poemas esparsos pouco divulgados. Este volume vem aprofundar uma nova abordagem da obra de Rilke, a partir da fase marcada pela influência de Cézanne e Rodin. Nas notáveis transposições do mestre-tradutor, os "poemas-coisa" rilkeanos nos revelam uma "poesia de pedra e alma onde até os anjos se concretizam. Textos que nos maravilham e nos surpreendem na solidez coiseante das imagens em que compactam a fluidez das angústias e incertezas humana. Amálgama de coisas e anjos". (Daqui)
 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Anunciação a Maria" - Poema de Rainer Maria Rilke


Abbott Handerson Thayer, Angel, 1887, oil on canvas.
Smithsonian American Art Museum



Anunciação a Maria


Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os refletem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubéssemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura -).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria
Trad. Yvette K. Centeno


Abbott Handerson Thayer, An Angel, 1893
Milwaukee Art Museum (United States)


Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria, ed. Portugália
Trad. Maria Teresa Dias Furtado


sábado, 30 de abril de 2016

"Amor" - Poema de Miguel Torga


Hugh Goldwin Rivière (English, 1869-1956 ), The Garden of Eden, 1901



Amor


A jovem deusa passa 
Com véus discretos sobre a virgindade; 
Olha e não olha, como a mocidade; 
E um jovem deus pressente aquela graça. 

Depois, a vide do desejo enlaça 
Numa só volta a dupla divindade; 
E os jovens deuses abrem-se à verdade, 
Sedentos de beber na mesma taça. 

É um vinho amargo que lhes cresta a boca; 
Um condão vago que os desperta e toca 
De humana e dolorosa consciência. 

E abraçam-se de novo, já sem asas. 
Homens apenas. Vivos como brasas, 
A queimar o que resta da inocência. 


Miguel Torga, in 'Libertação'



Nat King Cole



"O destino não vem do exterior para o homem, ele emerge do próprio homem."




sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Rainer Maria Rilke



Infância


Passa lento o tempo da escola e a sua angústia 
com esperas, com infinitas e monótonas matérias. 
Oh solidão, oh perda de tempo tão pesada... 
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam 
e nas praças as fontes jorram, 
e nos jardins é tão vasto o mundo —. 
E atravessar tudo isto em calções, 
diferente de como os outros vão e foram —: 
Oh tempo estranho, oh perda de tempo, 
oh solidão. 

E olhar tudo isto à distância: 
homens e mulheres; homens, homens, mulheres 
e crianças, tão diferentes e coloridas —; 
e então uma casa, e de vez em quando um cão 
e o medo surdo trocando-se pela confiança: 
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo, 
Oh infindável abismo. 

E então jogar: à bola e ao arco, 
num jardim que manso se desvanece 
e por vezes tropeçar nos crescidos, 
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar, 
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos, 
voltar silencioso a casa, a mão agarrada com força —: 
Oh compreensão cada vez mais fugaz, 
Oh angústia, oh fardo! 

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento, 
ajoelhar-se com um barquinho à vela; 
esquecê-lo, porque com iguais 
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos, 
e ter de pensar no pequeno rosto 
pálido que no tanque parecia afogar-se — : 
oh infância, oh fugazes semelhanças. 
Para onde? Para onde? 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira 


Albert Anker,  Schreibender Knabe, 1883


"A casa da infância é como um rosto de mãe: 
contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo." 
 
Mia Couto, O Outro Pé da Sereia

domingo, 26 de maio de 2013

"O Solitário" - Poema de Rainer Maria Rilke


Edward Charles Barnes (British, 1830-1882), The emigrant, 1860



O Solitário


Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha. 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira




"É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o génio."

(Henri Lacordaire)


domingo, 2 de setembro de 2012

"Crepuscular" - Poema de Camilo Pessanha




Crepuscular


Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.
Margarida (Leucanthemum vulgare)


"Há dias em que tudo ao redor de nós é luminoso e leve." 

(Rainer Maria Rilke)




"Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso." 

(Antoine de Saint-Exupéry)




"O presente é sempre a única coisa que é importante pôr em ordem. 
Tu não tens de prever o futuro, mas sim de o permitir."

(Antoine de Saint-Exupéry)




"O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quando o destino." 

(Antoine de Saint-Exupery)




"O melhor meio de se viver com alegria é acreditar que a vida lhe foi dada por alegria. Quando a alegria desaparece, procure onde está o seu erro." 

(Leon Tolstoi)

sábado, 3 de março de 2012

"Maria" e "O Divino" - Poemas de Rainer Maria Rilke e Johann Wolfgang von Goethe


 
Salvador Dalí, Maria conferens in corde suo (Matthew 1:23), 1964-1967


Maria


Não tivesses tu simplicidade, como poderia
acontecer-te o que agora a noite enche de luz?
Vê, o Deus que sobre os povos em ira ardia
torna-se manso e em ti ao mundo vem Jesus.

Terias imaginado maior esse Menino?

O que é a grandeza? Através de toda a medida
pela qual Ele passa, se traça o Seu vertical destino.
Nem mesmo um astro tem uma rota assim erguida.
Vês, estes reis são grandes, imponentes,

diante de ti depositam presentes

que tomam por tesouros sem par,
e talvez te assombre a oferenda que aí está:
mas para as pregas dos teus panos dirige teu olhar,
vê como Ele tudo supera já.

Todo o âmbar que se envia para a distância

Todas as joias de ouro e especiaria do ar,
que turvando-se nos sentidos se vêm envolver:
tudo isto rapidamente veio a terminar,
e por fim todos se vieram a arrepender.

Mas, hás de ver, Ele enche de alegria toda a ânsia.


Rainer Maria Rilke, A Vida de Maria,
(Tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado), 
Lisboa: Portugália Editora, 2008, p. 67.


 
Amelia Jane Murray or Lady Oswald (British, 1800-1896), Ilustração: Fada
 
 

O Divino 


Nobre seja o homem, 
Caridoso e bom! 
Pois isso apenas 
É que o distingue 
De todos os seres 
Que conhecemos. 

Glória aos incógnitos 
Mais altos seres 
Que pressentimos! 
Que o homem se lhes iguale! 
Seu exemplo nos ensine 
A crer naqueles! 

Pois insensível 
É a natureza: 
O sol espalha luz 
Sobre maus e bons, 
E ao criminoso 
Brilham como ao santo 
A lua e as estrelas. 

Vento e torrentes, 
Trovão e saraiva 
Rugem seu caminho 
E agarram, 
Velozes passando, 
Um após outro. 

Tal a sorte às cegas 
Lança mãos à turba 
E agarra os cabelos 
Do menino inocente 
Ou a fronte calva 
Do velho culpado. 

Por eternas leis, 
Grandes e de bronze, 
Temos todos nós 
De fechar os círculos 
Da nossa existência. 

Mas somente o homem 
Pode o impossível: 
Só ele distingue, 
Escolhe e julga; 
E pode ao instante 
Dar duração. 

Só ele é que pode 
Premiar o bom, 
Castigar o mau, 
Curar e salvar, 
Unir com proveito 
Tudo o que erra e divaga. 

E nós veneramos 
Os Imortais 
Como se homens fossem, 
Em grande fizessem 
O que em pequeno o melhor de nós 
Faz ou deseja. 

Que o homem nobre 
Seja caridoso e bom! 
Incansável crie 
O útil, o justo, 
E nos seja exemplo 
Dos Seres pressentidos.


 Tradução de Paulo Quintela 



Amelia Jane Murray or Lady Oswald, Ilustração: Fada


"Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma. Como o corpo que se lava não fica sujo, sem oração se torna impuro." - Mahatma Gandhi


Fritz Zuber-Buhler, The Spirit Of The Morning, c. 1896
 

"Existe uma única estrada e somente uma, e essa é a estrada que eu amo. Eu a escolhi. Quando trilho nessa estrada as esperanças brotam, e, o sorriso se abre em meu rosto. Dessa estrada nunca, jamais fugirei." - Daisaku Ikeda

[Daisaku Ikeda (Tóquio, Japão, 2 de janeiro de 1928) é um filósofo, escritor, fotógrafo, poeta e líder budista japonês. Foi galardoado em 2007 com o Prémio Mundial do Humanismo pela Academia do Humanismo da Macedónia.]


Charles Edward Perugini (1839 – 1918)


"Há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos." - Victor Hugo