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domingo, 14 de março de 2021

"Ápice" e "Epígrafe" - Poemas de Mário de Sá-Carneiro

 
William McGregor Paxton (American painter and instructor, 1869 – 1941), The breakfast, 1911.
 


Ápice


O raio de sol da tarde
Que uma janela perdida
Refletiu
Num instante indiferente –
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
Subitamente...

Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
— E não poder adivinhar
Por que mistério se me evoca
Esta ideia fugitiva,
Tão débil que mal me toca!...

— Ah, não sei por quê, mas certamente
Aquele raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projeção atravessou ...

Tanto segredo no destino de uma vida...
É como a ideia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...
 
 
William McGregor Paxton, In the studio, 1905.
 

Epígrafe

 
A sala do castelo é deserta e espelhada.
Tenho medo de mim. Quem sou? Donde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu — e até o ar é uma ruína...
Vem de outro tempo a luz que me ilumina —
Um som opaco me dilui em rei...

sexta-feira, 5 de março de 2021

"As casas vieram de noite" - Poema de Luiza Neto Jorge


William McGregor Paxton  (1869 – 1941), Tea Leaves, 1909, oil on canvas,
  91,6 x 71,9 cm, The Metropolitan Museum of Art


As casas vieram de noite
 
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas 
In: Os Sítios Sitiados, Plátano, Lisboa, 1973

 
William McGregor Paxton, The New Necklace, 1910


Viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície

(Paulo Leminski


segunda-feira, 1 de março de 2021

"Fagulha" e "Contagem regressiva" - Poemas de Ana Cristina Cesar


 
William McGregor Paxton (1869 – 1941), Girl combing her hair 
or Young girl with a mirror, 1909
 

Fagulha

 
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimónia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.


Ana Cristina Cesar
,
em “A teus pés”. São Paulo: Brasiliense, 1982. 
 

 
William McGregor Paxton, Girl Arranging Flowers, 1921
 

Contagem regressiva

 
Acreditei que se amasse de novo
 esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço 
e amo em ti os outros rostos 
em "Inéditos e Dispersos"

Ana Cristina Cesar (1952-1983) deixou em sua breve passagem pela literatura brasileira do século XX uma marca indelével. Tornou-se um dos mais importantes representantes da poesia marginal que florescia na década de 1970, justamente pela singularidade que a distanciava das “leis do grupo”. Criou uma dicção muito própria, que conjugava a prosa e a poesia, o pop e a alta literatura, o íntimo e o universal, o masculino e o feminino - pois a mulher moderna e liberta, capaz de falar abertamente de seu corpo e de sua sexualidade, derramava-se numa delicadeza que podia conflitar, na visão dos desavisados, com o feminismo enérgico, característico da época.
Entre fragmentos de diário, cartas fictícias, cadernos de viagem, sumários arrojados, textos em prosa e poemas líricos, Ana Cristina fascinava e seduzia seus interlocutores, num permanente jogo de velar e desvelar. "Cenas de Abril", "Correspondência Completa", "Luvas de Pelica", "A Teus Pés", "Inéditos e Dispersos", "Antigos e Soltos": livros fora de catálogo há décadas estão agora novamente disponíveis ao público leitor, enriquecidos por uma seção de poemas inéditos, um posfácio de Viviana Bosi e um farto apêndice. A curadoria editorial e a apresentação couberam ao também poeta, grande amigo e depositário, por muitos anos, dos escritos da carioca, Armando Freitas Filho. Dos volumes independentes do começo da carreira aos livros póstumos, a obra da musa da poesia marginal - reunida pela primeira vez em volume único - ainda se abre, passados trinta anos de sua morte, a leituras sem fim. (Daqui)
 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

"Pedido" - Poema de Olga Savary


William McGregor Paxton (1869 – 1941), The green dress, 1875

 
Pedido
 
                                          A Manuel Bandeira 
 
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Caieiras, 25 de janeiro de 1954
 
 
 
 William McGregor Paxton, The Blue Book, 1914

 
Dize-me, traze-me, faze-me
Carlos Rocha

 William McGregor Paxton, The Blue Jar or The Oriental Jar, 1913


Paz
 
Assim tão exata
sem se assemelhar a nada
sendo vária e vaga.
 
 


Olga Savary (Daqui)
  
 
Olga Savary - o silêncio de uma poeta maior
por
Álvaro Alves de Faria  (Daqui) 
 

Delicada. Principalmente delicada. Assim era a linguagem poética de Olga Savary, uma mulher em muitas mulheres. Morreu no dia 15 de maio de 2020, em Teresópolis, Rio de Janeiro, aos 86 anos, vítima da Covid-19. Nasceu em Belém, no Pará, em 21 de maio de 1933. Mais uma vez, a literatura brasileira perde uma de suas vozes mais importantes. Especialmente em uma terra em que a poesia se transformou em quase nada nas mãos de muitos aventureiros. A poesia brasileira sente-se mais só. Costumava dizer que “no Brasil o poeta morre de fome. Mas sou apaixonada por um malandro chamado Literatura. Não posso viver sem ele”

A vida não foi fácil, especialmente agora, no final, nos últimos anos. Arrastava problemas financeiros, descuidou-se de si mesma, sua aparência era outra, não daquela bela mulher da juventude e mesmo já idosa, mas com seus traços de beleza perfeitos. Descuidou-se da vida e se deixou levar como fosse possível. Guardou muitos segredos, que contava só para os amigos íntimos. Trabalhou muito em favor da poesia, especialmente elaborando antologias de poetas brasileiros e os que traduziu. Uma mulher em muitas mulheres, com afazeres literários de toda ordem: poeta, escritora, contista, romancista, crítica de arte, tradutora e jornalista. E trabalhou nisso tudo até o fim da vida, mesmo enfrentando dificuldades difíceis de ultrapassar. A Convid-19 atingiu uma mulher já bastante frágil, física e psicologicamente. 

Olga Savary não gostava de ser chamada de “poetisa”. Não. Queria e exigia ser chamada de “poeta”. Era uma poeta e ponto final. Além de seus livros, traduziu mais de 40 obras de autores como Oscar Wilde, Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Carlos Fuentes, Federico Garcia Lorca, Pablo Neruda, Ernesto Che Guevara, Omar Cabezas, Arturo Arias, Ronán Cano, Laura Esquível, Victor Álamo de la Rosa, Octávio Paz, Jorge Semprún, Mário Vargas Lllosa e vários outros. Some-se a isso seu intenso trabalho em traduzir os grandes mestres japoneses do haiku, como Bashô, Busun e Issa. 

Publicou muito, especialmente poesia e contos, livros como Espelho Provisório, Sumidouro, Altaonda, Magma, Éden Hades, Linha-d´água, O olhar dourado do abismo e muitos outros. Foi a primeira poeta brasileira a dedicar-se à poesia erótica e também a se dedicar ao haicai. Escreveu um livro inteiro de poemas eróticos, Magma, que lançou em 1982. Orgulhava-se em ser chamada de a musa de Carlos Drummond de Andrade. Mas esse é um dos segredos só para os amigos íntimos. 

Quando conheceu Drummond, Olga Savary era conhecida como a Mona Lisa de Copacabana. Tinha pouco mais de 20 anos de idade. Esbanjando beleza, desfilava sua figura pelas ruas e praias, sempre enaltecida por quem a cercava. Nos segredos envolvendo a figura de Drummond, o poeta não queria que se falasse em “amizade amorosa”. Não. Drummond exigia que se dissesse que se tratava de amor. Amor mesmo. De verdade. Certa vez Olga disse a Drummond que gostaria de pegá-lo no colo e mimá-lo como uma mãe. Mas o poeta não gostava dessas histórias. Preferia somente o amor, sem deslumbramentos. Drummond escreveu muitos poemas para Olga. E Olga prometeu que nunca os publicaria. E assim o fez. Os poemas estão guardados ninguém sabe onde. “Drummond é meu poeta do coração”, dizia sempre.

 Tinha a poesia de Drummond como seu livro de cabeceira. No entanto, o poeta que ela mais gostava de ler — e lia sempre — era T.S.Eliot. Para conceder uma entrevista, antes Olga procurava saber quem era o jornalista que ia entrevistá-la. Dizia, então, não suportar jornalista que escreve “pra” em vez de “para”. Foi casada com o cartunista Jaguar, do jornal “O Pasquim”, no regime militar, que ela ajudou a criar. Teve com ele dois filhos, Pedro e Flávia, que também é poeta. Um dos momentos mais terríveis que viveu na vida, foi quando seu filho morreu. Vítima das drogas. 

Dizia-se triste por ter descoberto a sexualidade tardiamente. Não se conformava. Dizia isso aos amigos íntimos. O poeta Ferreira Gullar comentou certa vez que essa descoberta tardia da sexualidade, exatamente isso, é que fez de Olga a grande poeta que ela é, capaz de falar do sexo com uma “cautela de veludo”. Olga afirmava que Clarice Lispector foi e é o maior escritor brasileiro, assim no masculino, porque — como observava — “Clarice é maior entre homens e mulheres”. Não aceitava essa conversa de que homem escreve melhor que mulher. Trata-se de uma afirmação sem cabimento. Diante de conversas assim mostrava-se desapontada. 

Seu livro erótico estava em sua cabeça havia muitos anos. Os poemas foram sendo elaborados no pensamento. Até que um dia resolveu passar um final de semana na Casa do Sol, onde vivia Hilda Hilst, em Campinas, interior de São Paulo. Foi visitar Hilda para ficar dois dias, mas ficou um mês. E enquanto Hilda se dedicava a gravar a voz dos mortos no seu sítio, Olga foi escrevendo e assim nasceu Magma, livro bastante discutido, publicado em 1982. 

Entre as longas entrevistas que fiz com Olga Savary, uma foi especial, para meu livro Palavra de Mulher, no qual reuni 20 das principais escritoras e poetas do Brasil. Escolhendo algumas frases, resumidamente ela me disse:

-Muita gente pergunta como cheguei até aqui e como consegui tanto, com um currículo que vai da letra A até a Z. Respondo que com muito emprenho, total dedicação, com a vida voltada só ao trabalho árduo, mas feito com prazer. Paixão mais compaixão, assim se cria.

-O ser humano não pode suportar tanta realidade. Precisamos todos de verdade e de beleza que a criação da arte nos dá. Se não for assim, nunca será possível ser feliz.

-O poeta é prestigiado e, ao mesmo tempo, não é remunerado à altura, como se vivesse de brisa.

-A palavra custa. Tudo tem um custo. Especialmente quando a palavra vai revelar universos íntimos, segredos, desassossegos, angústias.

-Como o amor, a poesia não é para amadores.

-Minha poesia sempre me alimentou, desde a mais tenra infância, e me alçou dos mais profundos sofrimentos da vida. Sem a poesia eu poderia ter enlouquecido de dor. À minha poesia certamente eu poderei chamar de todas as coisas boas, até mesmo de Deus.

-Deus sempre foi o mais adorável companheiro. Sempre presente, conversando comigo. Jamais me faltou. Não um deus externo, fora de mim, vingador e punitivo, mas um Deus internalizado, dentro de cada um de nós, amoroso e criativo. Assim, Deus é poesia, a própria criação. Não é um amontoado de bens terrenos cultuados por grande parte das pessoas.

-Creio que só a espiritualidade responsável tenha força de mudar e melhorar alguma coisa no mundo e nas pessoas. A poesia está imbuída nessa intenção. É um processo lento, porém eficaz, como um pequeno tijolo a construir uma torre em direção ao alto. É pouco, mas é muito também, uma vez que evoluímos devagar. Com toda a tecnologia, ainda estamos vivendo nas cavernas. Tudo deveria ser realizado com essa intenção de verticalidade indispensável. A meu ver, o homem não aproveita a lado bom do bicho, mas sim da fera. Daí o desequilíbrio, a falta de harmonia consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza. A poesia restaura esse desequilíbrio perdido.

-O escritor começa só, cria em completa solidão. Todo poeta é “voyeur” e fingidor, mas sem mentir jamais. O escritor é imprescindível. O artista, em geral, é fundamental: não mata por dinheiro e faz o Brasil pensar em si mesmo. É assim que o Brasil se aprende. Não gosto muito de falar. O país está atolado em palavras. E não adianta nada. Fala-se demais no Brasil. Escrever é mais verdadeiro.

-Minha relação com a escrita, com a palavra, é uma relação apaixonada, de tesão, sensual, eu diria até carnal, uma relação sexual, em que há atração e rejeição, orgasmo e tudo o mais. Não há nada melhor do que fazer amor com o próprio trabalho. Nem melhor investimento. Acho que às vezes a gente escreve com raiva, revolta, indignação. Há tanto para consertar o mundo. E é aí que penso servir a literatura para uma melhoria espiritual do homem.

Esse era seu mundo, em palavras exatas. Dizia não ter medo da morte: “A morte para mim é um grande orgasmo”. E vivia seguindo sempre para algum lugar. Não tinha computador. Telefone, só atendia de madrugada. E as conversas atravessavam horas. Falava sem parar, emendando frases, criando situações, lembrando coisas. Nos primeiros livros, praticamente todos os poemas eram dedicados a Carlos Drummond de Andrade, caso de “Espelho provisório”, de 1970. Vejam este poema de janeiro 1969, “O menino, um dia, no retrato”, dedicado a Drummond:

Vou te descobrindo — ou redescobrindo –
atrás da fechada janela
na remota cidade que desconheço
(ou reconheço?) através da seta
de teu olho — bicho fugido, sigilo
de um silêncio úmido –
como vejo vagas formas que se movem
no escuro no interior da casa
que ficou guardada
sem uso, na memória)
e desse jogo obscuro e perigoso
de que fugimos mas retemos fórmulas
e de que tudo foi guardado do outro lado
das coisas que jamais podem ser ditas,
restou como tocável permanência
o menino, um dia, no retrato.

Os poemas dedicados a Carlos Drummond de Andrade são muitos, mas nem todos foram publicados. Há muitos outros que guardou, uma espécie de relíquia que só a ela pertencia. Só os considerados amigos íntimos leram. Entre os que foram publicados, há também este escrito em setembro de 1955, Cantilena em setembro:

E embora eu não quisesse
essa vontade estranha me anulou,
me fez somente desejo de sair
contigo pelo ar (na distância
uma cidade de pedra nos chamava)
te castigar de toda memória,
fugir com toda a memória que trouxesses
e nela te guardar como coisa secreta
nunca revelada.
E de roer pacientemente
como fera verde de teu passado
sem outro medo que o prolongamento
dessa impossível febre que me perturbara,
e por isso mesmo
depois de devastado embalar
teu sono de criança numa ilha
que a gente imagina e desenha-se no ar
ou nas ondas, e saber ficar
tão de manso como a flor pisada
ou passarinho morto à pedrada
na beira do caminho.

Vamos a mais um poema escrito para Carlos Drumnond de Andrade, publicado no seu primeiro livro, com palavras de despojamento. Chama-se Abstrata:

Há horas não sou — e me pressinto
no que não sou e me visito
no relógio, no vazio do tempo
onde, irmãos na solidão,
a confidência teceu um elo
invisível e nos unir.
E me pergunto se me começo a ver no escuro
Que não o desta casa mas de outra
- geografia vedada a um mesmo uso.
E penso que serei agora:
passeio de quartos a casa que não sei,
fantasma.

Olga Savary queixava-se muito dos rumos incertos da poesia brasileira, cada vez mais machucada por aventureiros que nada sabem de poesia, mas que têm promoção garantida fazendo aumentar no Brasil uma inversão de valores impossível de aceitar. O primeiro livro foi prefaciado por Ferreira Gullar, com palavras que valem até hoje:

-Olga Savary nos parece dizer que a multiplicidade dos fenómenos e das vozes mais encobre que revela a essência real da vida. Por isso mesmo, ela está sempre nos chamando para o silêncio, a quietude, para as coisas que dormem esquecidas ou abandonadas, para o que está aparentemente à margem do mundo. Ela busca, ali, aquela integridade, aquela unidade, que daria sentido à existência. Mas onde encontrá-la realmente, “se nada termina tudo se renova?” É uma angústia que a dilacera “como uma garra/ que fecha e abre dentro da fechada carne”. É quase o desespero.

No livro Repertório Selvagem, obra reunida em 1998, publicado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Olga Savary faz um depoimento sobre sua vida. A obra festejava 50 anos de sua produção poética e sua carreira na poesia brasileira. Olga Savary fala de sua poesia, o que de melhor existe no Brasil, poemas elaborados com o cuidado de um monge, palavras corretas no lugar certo, no verso exato. Uma poesia que deixa marcas, que sabe o que deseja, por onde caminha e até onde pode chegar, com aquela palavra delicada que a acompanhou a vida inteira. Ela escreveu:

-“O colega Fernando Pessoa, geminiano como eu, portanto múltiplo, tem razão: tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Acrescento: tudo vale a pena quando feito com paixão, seriedade, profissionalismo, amor à vida e ao próximo. E dignidade. Que, junto à alegria, são minhas palavras-chave. Vale dizer: a literatura em primeiro lugar. Sempre foi assim em toda minha vida. E assim será sempre”.


Álvaro Alves de Faria
(Jornalista, poeta e escritor — São Paulo, Brasil)

  

terça-feira, 20 de outubro de 2020

"Via-Láctea" - 7 Sonetos (XXIX a XXXV) de Olavo Bilac


William McGregor Paxton, The String of Pearls, 1908


Sonetos 

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
 Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito, 
Tudo aquilo me vem ao pensamento.
 
 Saí, no peito o derradeiro grito
 Calcando a custo, sem chorar, violento... 
E o céu fulgia plácido e infinito,
 E havia um choro no rumor do vento...
 
 Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
 A áurea esfera da lua o ocaso entrava,
 Rompendo as leves nuvens transparentes;
 
 E sobre mim, silenciosa e triste, 
 A via-láctea se desenrolava
 Como um jorro de lágrimas ardentes. 
 
XXX 
 
Ao coração que sofre, separado
 Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
 Não basta o afeto simples e sagrado
 Com que das desventuras me protejo.
 
 Não me basta saber que sou amado, 
Nem só desejo o teu amor: desejo
 Ter nos braços teu corpo delicado, 
Ter na boca a doçura de teu beijo.
 
 E as justas ambições que me consomem
 Não me envergonham: pois maior baixeza
 Não há que a terra pelo céu trocar;
 
 E mais eleva o coração de um homem
 Ser de homem sempre e, na maior pureza,
 Ficar na terra e humanamente amar. 
 
XXXI
 
 Longe de ti, se escuto, porventura,
 Teu nome, que uma boca indiferente
 Entre outros nomes de mulher murmura,
 Sobe-me o pranto aos olhos, de repente... 
 
Tal aquele, que, mísero, a tortura
 Sofre de amargo exílio, e tristemente
 A linguagem natal, maviosa e pura,
 Ouve falada por estranha gente.
 
 Porque teu nome é para mim o nome
 De uma pátria distante e idolatrada,
 Cuja saudade ardente me consome:
 
 E ouvi-lo é ver a eterna primavera
 E a eterna luz da terra abençoada,
 Onde, entre flores, teu amor me espera. 
 
XXXII
 A um poeta
 
 Leio-te: - o pranto dos meus olhos rola:
 - Do seu cabelo o delicado cheiro,
 Da sua voz o timbre prazenteiro,
 Tudo do livro sinto que se evola...
 
 Todo o nosso romance: - a doce esmola
 Do seu primeiro olhar, o seu primeiro 
Sorriso, - neste poema verdadeiro, 
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.
 
 Sinto animar-se todo o meu passado:
 E quanto mais as páginas folheio,
 Mais vejo em tudo aquele vulto amado.
 
 Ouço junto de mim bater-lhe o seio, 
E cuido vê-la, plácida, a meu lado,
 Lendo comigo a página que leio. 

XXXIII
 
 Como quisesse livre ser, deixando
 As paragens natais, espaço em fora,
 A ave, ao bafejo tépido da aurora,
 Abriu as asas e partiu cantando.
 
 Estranhos climas, longes céus, cortando
 Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
 Que morre o sol, suspende o voo, e chora,
 E chora, a vida antiga recordando...
 
 E logo, o olhar volvendo compungido 
Atrás, volta saudosa do carinho,
 Do calor da primeira habitação...
 
 Assim por largo tempo andei perdido:
 Ah! que alegria ver de novo o ninho,
 Ver-te, e beijar-te a pequenina mão! 

XXXIV
 
 Quando adivinha que vou vê-la, e à escada
 Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
 Fica pálida, assusta-se, estremece,
 E não sei por que foge envergonhada.
 
 Volta depois. À porta, alvoroçada,
 Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
 E talvez entendendo a muda prece
 De meus olhos, adianta-se apressada.
 
 Corre, delira, multiplica os passos; 
E o chão, sob os seus passos murmurando, 
Segue-a de um hino, de um rumor de festa...
 
 E ah! que desejo de a tomar nos braços,
 O movimento rápido sustando
 Das duas asas que a paixão lhe empresta. 

XXXV 
 
Pouco me pesa que mofeis sorrindo
 Destes versos puríssimos e santos:
 Porque, nisto de amor e íntimos prantos,
 Dos louvores do público prescindo. 
 
Homens de bronze! um haverá, de tantos,
 (Talvez um só) que, esta paixão sentindo,
 Aqui demore o olhar, vendo e medindo
 O alcance e o sentimento destes cantos.
 
 Será esse o meu público. E, decerto, 
Esse dirá: "Pode viver tranquilo
 Quem assim ama, sendo assim amado!
 
"E, trémulo, de lágrimas coberto,
 Há de estimar quem lhe contou aquilo
 Que nunca ouviu com tanto ardor contado.


Olavo Bilac
in "Via-Láctea", 1888
 
 
Olavo Bilac
 
 
Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1865, e faleceu, na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918, com apenas 53 anos.
 
Eram seus pais o Dr. Braz Martins dos Guimarães Bilac e D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac. Após os estudos primários e secundários, matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, mas desistiu no 4º. ano. Tentou, a seguir, o curso de Direito em São Paulo, mas não passou do primeiro ano. Dedicou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Teve intensa participação na política e em campanhas cívicas, das quais a mais famosa foi em favor do serviço militar obrigatório. 
 
Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias. Fundou vários jornais, de vida mais ou menos efémera, como A Cigarra, O Meio, A Rua
Na seção “Semana” da Gazeta de Notícias, substituiu Machado de Assis, trabalhando ali durante anos. É o autor da letra do Hino à Bandeira
Fazendo jornalismo político nos começos da República, foi um dos perseguidos por Floriano Peixoto. Teve que se esconder em Minas Gerais, quando frequentou a casa de Afonso Arinos em Ouro Preto. 
 
No regresso ao Rio, foi preso. Em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio e em 1898, inspetor escolar do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, pouco antes de falecer. Foi também delegado em conferências diplomáticas e, em 1907, secretário do prefeito do Distrito Federal. Em 1916, fundou a Liga de Defesa Nacional.
 
Olavo Bilac não constituiu família, seu grande amor foi Amélia de Oliveira irmã do poeta Alberto de Oliveira. Chegaram a ficar noivos, mas por causa do outro irmão dela o noivado foi desfeito. (Com a morte do pai, o irmão de Amélia que assumiu o posto de patriarca da família, impediu o noivado com Bilac, alegando que o poeta era muito boémio para a sua irmã. Ambos sofreram com essa decisão, nenhum se casou posteriormente e continuaram trocando poemas de amor.) Essa paixão inspirou boa parte dos sonetos da Via Láctea, composto por 35 sonetos. 
 
A obra poética de Olavo Bilac enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, só em 1888 publicou Poesias, tornando-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.

Fundindo o Parnasianismo francês e a tradição lusitana, Olavo Bilac deu preferência às formas fixas do lirismo, especialmente ao soneto. Nas duas primeiras décadas do século XX, seus sonetos de chave de ouro eram decorados e declamados em toda parte, nos saraus e salões literários comuns na época.
 
Nas Poesias encontram-se os famosos sonetos de “Via-Láctea” e a “Profissão de Fé”, na qual codificou o seu credo estético, que se distingue pelo culto do estilo, pela pureza da forma e da linguagem e pela simplicidade como resultado do lavor. 

Ao lado do poeta lírico, há nele um poeta de tonalidade épica, de que é expressão o poema “O caçador de esmeraldas”, celebrando os feitos, a desilusão e morte do bandeirante Fernão Dias Pais. 

Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista Fon-fon lançou em 1º. de março de 1913.
 
Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro. Foi notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e produziu também contos e crónicas. (Daqui)


sábado, 19 de setembro de 2020

"Bilhete" - Poema de Miguel Torga


William McGregor Paxton (1869 – 1941), The white veranda, 1902


Bilhete


Nada me dês nem peças.
E não meças
O que podias dar e receber.
Fecha a própria riqueza do teu ser.

Um de nós era a mais
À lírica janela...
Olharam-se os zagais,
Mas não houve novela.

A vida assim o quis,
A vida sem amor.
Não regues a raiz
Do que não teve flor.


Miguel Torga, in 'Diário, 1943'


William McGregor Paxton (1869-1941), Woman with Book, ca. 1910.


"O moralismo é a antítese da Literatura. A Literatura começa precisamente quando recusamos ser moralistas e instintivamente somos perversos. Quem escreve não pode olhar para onde toda a gente está a olhar, mas para o outro lado."

Gonçalo M. Tavares, Jornal de Letras, Artes e Ideias (2005)



William McGregor Paxton, The house maid, 1910


"Perturba-me ser vencido pelo tempo. Nunca percebi o passatempo."

Gonçalo M. Tavares, Diário de Notícias (2004)


terça-feira, 5 de maio de 2020

"Seria o Amor Português" - Poema de Fernando Assis Pacheco


William McGregor Paxton  (1869 – 1941), The Figurine, 1921,  
Seria o Amor Português


 Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta? 


Fernando Assis Pacheco
,  in "A Musa Irregular", 1991.