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terça-feira, 6 de junho de 2023

"Hino à Morte" - Poema de António Feijó

 
Hino à Morte 
 

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe
Esse aspeto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
— Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o inseto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu ânimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem dó me tortura e sufoca,
É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas afeições,
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada,
Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afeto à nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Só então, da tua asa a sombra formidável,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondável,
Noite de soledade em que nunca amanhece...

Só então, sucumbindo à dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é dum Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!

Inflexível e cego, o poder do teu ceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza ele faz um espectro
De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.

Mas se nessa tortura, exausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contrito,
Passa diante de mim, como um deslumbramento
Constelando o teu manto, a visão do Infinito.

E de novo, ao sair dessa angústia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Eutanásia serena em cujo olhar clemente
Arde a chama em que toda a escória se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida
— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva
Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida! 


António Feijó
(1859-1917), in 'Sol de Inverno'
 
 
"Sol de Inverno" de António Feijó, Edições Vercial

 "Sol de Inverno", volume póstumo que reúne as últimas poesias de António Feijó, com um prefácio, de grande interesse crítico e biográfico, de Luís de Magalhães, um texto crítico de Alberto de Oliveira e ainda várias apreciações sobre as coletâneas Ilha dos Amores e Cancioneiro Chinês, recolhidas da imprensa. Nesta obra de síntese, dedicada à mulher do autor, evidenciam-se as qualidades do lirismo depurado de Feijó ("Díptico: eu e tu"), onde predominam os motivos melancólicos e outonais ("Cabelos brancos"), os temas do exílio ("Súplica ao vento") e da morte ("Entre pinheiros e ciprestes"). (daqui)
 

domingo, 11 de abril de 2021

"Durmo ou não? Passam juntas em minha alma" - Poema de Fernando Pessoa

 
 
 
Durmo ou não?
 

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.

Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.

Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Desperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade? 

2-10-1933
 
Novas Poesias Inéditas



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), Soul Carried to Heaven, 1878,
Musée des Beaux-Arts de Montréal. (Alma transportada para o céu por dois anjos.) 


Estética

Este termo diz respeito à filosofia, na medida em que aí surge (com Baumgarten e Kant no século XVIII) como uma disciplina filosófica. Este termo deriva do grego, aistesis, significando "sensação". A estética era, no contexto grego, o conhecimento do mundo sensível, do mesmo modo que a noética era o conhecimento do mundo inteligível. Estava ainda ligado a uma noção muito cara ao pensamento grego, a beleza e a contemplação dela: supremo objetivo da arte. Hoje a estética significa a disciplina filosófica que trata dos problemas da arte, na medida em que estes sejam problemas pertinentes no âmbito que a filosofia abrange: por exemplo a relação criadora entre o artista e a obra de arte, a experiência contemplativa da obra de arte.

Com Platão acontece a separação entre o domínio da estética - o do mundo sensível - e o domínio da beleza - o do mundo inteligível. O mundo sensível é uma cópia imperfeita do mundo inteligível, por isso a arte, sendo uma imitação do mundo sensível, já tem pouco da verdade da beleza universal situada no mundo inteligível. Por esta razão a arte, enquanto imitação da imitação, é desvalorizada por Platão.
Aristóteles tem uma interpretação diferente ao propor que a arte deve imitar a natureza na sua forma de agir.

Com a escola franciscana medieval, onde se destaca a figura de São Boaventura, a estética é revalorizada, na medida em que aí se entende que a criação é símbolo que aponta para o Criador, para Deus. Assim sendo, a criação, a natureza, é então uma manifestação de Deus que, ao criar, deixou imprimida a sua assinatura na obra; deste modo é possível, meditando na criação, ascender ao Criador, ascender a Deus, uma vez que a criação é plena de significado, pois nada foi deixado ao acaso. Cada elemento da natureza é como uma palavra de um livro, por aqui se vê a dignidade que a questão estética assume com esta escola.

Com Schelling, na esteira de Kant, mas alargando a perspetiva deste último, a arte é tida como uma expressão - no sentido de materialização - do Espírito, do Absoluto, quer dizer, é um modo de este se exteriorizar e manifestar, numa palavra, de se mostrar.

No século XX eclodem variadíssimas perspetivas, frequentemente em oposição: a escola marxista, para quem a arte é um reflexo do domínio económico-social, ou seja, ideológica; o positivismo, procurando evidenciar a objetividade na interpretação da obra de arte; a fenomenologia, destacando a relação entre sujeito e objeto estético, na relação intencional que subjaz ao primeiro; as estéticas provenientes por vias travessas da corrente nietzschiana, procurando expressar o que as formas exteriores, apolíneas, escondem; e, finalmente, a psicanálise que veio dar um impulso novo na dinâmica da estética ao abri-la ao mundo onírico, pois permitiu perceber que cada obra de arte forma uma unidade de sentido, ainda que não evidente, onde estão latentes significados do subconsciente. (daqui)
 William Bouguereau (18251905), Self-portrait, 1879
 

"Cada dia entro no meu estúdio cheio de alegria; à noite, quando a escuridão me obriga a deixá-lo,
 mal posso esperar pelo dia seguinte. Se eu não me pudesse devotar à minha amada pintura
 eu seria um pobre coitado."

William-Adolphe Bouguereau