Mostrar mensagens com a etiqueta Maya Angelou. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maya Angelou. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de abril de 2026

"Quando penso sobre mim mesma" - Poema de Maya Angelou



Winslow Homer, 'Sunday Morning in Virginia', oil on canvas, 1877.
Cincinnati Art Museum  

Quando penso sobre mim mesma

 
 
Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que anda,
Uma canção que fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.
 
 
Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 

terça-feira, 17 de março de 2026

"Canção para meus velhos" - Poema de Maya Angelou

 

Winslow Homer (American painter, 1836–1910), A Visit from the Old Mistress, 1876.
Smithsonian Museum of American Art, Washington, DC.



Canção para meus velhos


Meus Pais se sentam em bancos
suas carnes contam cada paulada
as ripas deixam entalhos escuros
bem fundo nos seus flancos murchos.

Eles acenam como velas quebradas
encerados e queimados profundamente
e dizem “É a compreensão
que faz o mundo girar.”

Nos seus rostos enrugados
eu vejo o palanque do leilão
as correntes e as filas de escravos
o chicote, o açoite e o tronco.

Meus pais falam em vozes que
trituram minha verdade e
dizem “É a nossa submissão
que faz o mundo girar.”

Eles usaram a maior astúcia
inteligência e artimanha
a humildade do Tio Tomming
e os sorrisos da Tia Jemima.

Eles riam para esconder o choro
abreviaram os seus sonhos
e carregaram um país no lombo
para escrever o blues com gritos.

Eu entendo o significado
poderia vir e vem
de viver à beira da morte
Eles mantiveram minha raça viva.

Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 
 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"Numa época" - Poema de Maya Angelou

 
Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), 
Dressing for the Carnival, 1877, Metropolitan Museum of Art, New York.



Numa época


Numa época de namoro escondido
O hoje prepara a ruína o amanhã
A mão esquerda não sabe o que a direita faz
Meu coração se rasga em dois.

Numa época de suspiros furtivos
Chegadas alegres e despedidas tristes
Meias verdades e mentiras inteiras
Um trovão ecoa na minha cabeça.

Numa época em que os reinos vêm até nós
A alegria é breve como brincadeira de verão
A felicidade concluiu sua corrida
Então, a dor se aproxima para o saque.


Tradução de Lubi Prates. Astral Cultural, 2020. 
 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Ainda assim eu me levanto" (Still I Rise) - Poema de Maya Angelou

 


Jan Boeckhorst (German-born Flemish Baroque painter, c. 1604–1668),
"Allegory of Africa" (from the Continents Cycle), Liechtenstein Museum.
 

Ainda assim eu me levanto


Você pode me marcar na história
Com suas mentiras amargas e distorcidas
Você pode me esmagar na própria terra
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Meu atrevimento te perturba?
O que é que te entristece?
É que eu ando como se tivesse poços de petróleo
Bombeando na minha sala de estar.

Assim como as luas e como os sóis,
Com a certeza das marés,
Assim como a esperança brotando,
Ainda assim, eu vou me levantar.

Você queria me ver destroçada?
Com a cabeça curvada e os olhos baixos?
Ombros caindo como lágrimas,
Enfraquecidos pelos meus gritos de comoção?

Minha altivez te ofende?
Não leve tão a sério
Só porque rio como se tivesse minas de ouro
Cavadas no meu quintal.

Você pode me fuzilar com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade te perturba?
Te surpreende
Que eu dance como se tivesse diamantes
Entre as minhas coxas?

Saindo das cabanas da vergonha da história
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e pulsante,
Crescendo e jorrando eu carrego a maré.

Abandonando as noites de terror e medo
Eu me levanto
Para um amanhecer maravilhosamente claro
Eu me levanto
Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,
Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.


Maya Angelou (1928-2014), in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates
 
 

"And Still I Rise: A Book of Poems"
by Maya Angelou, 1978.
(first edition)


Still I Rise


You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
’Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.


Maya Angelou, from "And Still I Rise: A Book of Poems", 1978.
"The Complete Collected Poems of Maya Angelou", 1994.
 (daqui)
 
 

sábado, 10 de janeiro de 2026

"Quando as grandes árvores caem" - Poema de Maya Angelou

 


Raoul Dufy (French Fauvist painter, 1877-1953), Grand arbre à Sainte-Maxime, 1942.


 
Quando as grandes árvores caem


Quando as grandes árvores caem,
rochas de colinas distantes estremecem,
leões se escondem
na relva alta,
e até os elefantes
arrastam-se em busca de segurança.

Quando as grandes árvores caem
na floresta,
pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,
seus sentidos
erodidos para além do medo.

Quando grandes almas morrem,
o ar ao nosso redor se torna
leve, raro, estéril.
Nós respiramos, brevemente.
Nossos olhos, brevemente,
enxergam com
uma dolorosa nitidez.
Nossa memória, subitamente aguçada,
examina,
rumina amáveis palavras
não pronunciadas,
passeios prometidos
nunca realizados.

Grandes almas morrem e
nossa realidade, a elas
vinculada, se despede de nós.
Nossas almas,
que dependem de seu
nutrimento,
agora encolhem, murchas.
Nossas mentes, formadas
e informadas por seu
resplendor, se dispersam.
Não estamos tão enlouquecidos
quanto reduzidos à indizível ignorância de
escuras, frias
cavernas.

E quando grandes almas morrem,
depois de um tempo a paz prolifera,
lenta e sempre
irregularmente. Os espaços se enchem
de uma espécie de
vibração elétrica relaxante.
Nossos sentidos, restaurados, para nunca
mais serem os mesmos, sussurram para nós.
Elas existiram. Elas existiram.
Nós podemos ser. Ser e ser
melhor. Pois elas existiram. 

Maya Angelou

Trad. de Nelson Santander
 
* * * 

When great trees fall
(original)

When great trees fall,

rocks on distant hills shudder,

lions hunker down

in tall grasses,

and even elephants

lumber after safety.



When great trees fall

in forests,

small things recoil into silence,

their senses

eroded beyond fear.



When great souls die,

the air around us becomes

light, rare, sterile.

We breathe, briefly.
Our eyes, briefly,

see with

a hurtful clarity.

Our memory, suddenly sharpened,

examines,

gnaws on kind words

unsaid,

promised walks

never taken.


Great souls die and

our reality, bound to

them, takes leave of us.

Our souls,

dependent upon their

nurture,

now shrink, wizened.

Our minds, formed

and informed by their

radiance,
fall away.

We are not so much maddened

as reduced to the unutterable ignorance
of
dark, cold

caves.



And when great souls die,

after a period peace blooms,

slowly and always

irregularly. Spaces fill

with a kind of

soothing electric vibration.

Our senses, restored, never

to be the same, whisper to us.

They existed. They existed.

We can be. Be and be

better. For they existed.

Maya Angelou

(daqui)
 

 
Raoul Dufy, The River, c. 1905.


Talvez assim seja

"Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor. Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?"

Clarice Lispector, in "A descoberta do mundo - Crónicas"
 


Raoul Dufy, View of a Port, c. 1902.



"O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse."

Clarice Lispector
, in "A descoberta do mundo - Crónicas"
 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Minha culpa" - Poema de Maya Angelou



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),  
Ciclo do Ouro, 1892, em exposição no Museu Paulista.


Minha culpa


Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.


Maya Angelou, in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates


* * *
My guilt
(original)

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.

My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.

My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.
Nota: VeseyTurner Gabrielassim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm XMarcus Garvey Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros. (daqui) 
 
 
portrait of maya angelou
Maya Angelou, photo by Deborah Feingold 
(daqui)

Maya Angelou, escritora norte-americana, cujo nome de nascimento é Marguerite Johnson, nasceu a 4 de abril em 1928, no Missouri, e morreu a 28 de maio de 2014, na Carolina do Norte.

Uma das temáticas recorrentes na sua obra gira em torno das pressões sociais exercidas sobre as mulheres afro-americanas. Após um percurso vivencial cujo itinerário se estende desde St. Louis e S. Francisco até ao Egito e ao Gana, publicou, em 1970, o romance, de cunho autobiográfico, I Know Why the Caged Bird Sings com o qual alcançou notoriedade pública.

O romance seguinte, Gather Together in My Name, descreve não só a sua demanda de identidade mas a luta pela sobrevivência como mãe solteira. Seguem-se outros romances, igualmente de teor autobiográfico, nomeadamente All God's Children Need Traveling Shoes, onde examina a relação entre a África e a cultura negra na América.

Autora de numerosos artigos literários e jornalísticos, escreveu também diversas peças para o teatro e televisão bem como alguns volumes de poesia, incluindo Just Give Me a Cool Drink of Water 'fore I Diiie, And Still I Rise e Shaker, Why Don't You Sing?. (daqui)