sábado, 10 de janeiro de 2026

"Quando as grandes árvores caem" - Poema de Maya Angelou

 


Raoul Dufy (French Fauvist painter, 1877-1953), Grand arbre à Sainte-Maxime, 1942.


 
Quando as grandes árvores caem


Quando as grandes árvores caem,
rochas de colinas distantes estremecem,
leões se escondem
na relva alta,
e até os elefantes
arrastam-se em busca de segurança.

Quando as grandes árvores caem
na floresta,
pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,
seus sentidos
erodidos para além do medo.

Quando grandes almas morrem,
o ar ao nosso redor se torna
leve, raro, estéril.
Nós respiramos, brevemente.
Nossos olhos, brevemente,
enxergam com
uma dolorosa nitidez.
Nossa memória, subitamente aguçada,
examina,
rumina amáveis palavras
não pronunciadas,
passeios prometidos
nunca realizados.

Grandes almas morrem e
nossa realidade, a elas
vinculada, se despede de nós.
Nossas almas,
que dependem de seu
nutrimento,
agora encolhem, murchas.
Nossas mentes, formadas
e informadas por seu
resplendor, se dispersam.
Não estamos tão enlouquecidos
quanto reduzidos à indizível ignorância de
escuras, frias
cavernas.

E quando grandes almas morrem,
depois de um tempo a paz prolifera,
lenta e sempre
irregularmente. Os espaços se enchem
de uma espécie de
vibração elétrica relaxante.
Nossos sentidos, restaurados, para nunca
mais serem os mesmos, sussurram para nós.
Elas existiram. Elas existiram.
Nós podemos ser. Ser e ser
melhor. Pois elas existiram. 

Maya Angelou

Trad. de Nelson Santander
 
* * * 

When great trees fall
(original)

When great trees fall,

rocks on distant hills shudder,

lions hunker down

in tall grasses,

and even elephants

lumber after safety.



When great trees fall

in forests,

small things recoil into silence,

their senses

eroded beyond fear.



When great souls die,

the air around us becomes

light, rare, sterile.

We breathe, briefly.
Our eyes, briefly,

see with

a hurtful clarity.

Our memory, suddenly sharpened,

examines,

gnaws on kind words

unsaid,

promised walks

never taken.


Great souls die and

our reality, bound to

them, takes leave of us.

Our souls,

dependent upon their

nurture,

now shrink, wizened.

Our minds, formed

and informed by their

radiance,
fall away.

We are not so much maddened

as reduced to the unutterable ignorance
of
dark, cold

caves.



And when great souls die,

after a period peace blooms,

slowly and always

irregularly. Spaces fill

with a kind of

soothing electric vibration.

Our senses, restored, never

to be the same, whisper to us.

They existed. They existed.

We can be. Be and be

better. For they existed.

Maya Angelou

(daqui)
 

 
Raoul Dufy, The River, c. 1905.


Talvez assim seja

"Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor. Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?"

Clarice Lispector, in "A descoberta do mundo - Crónicas"
 


Raoul Dufy, View of a Port, c. 1902.



"O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse."

Clarice Lispector
, in "A descoberta do mundo - Crónicas"
 

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