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terça-feira, 5 de maio de 2026

"Talvez tenhamos tempo" - Poema de Pablo Neruda



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
'The Four Continents', c. 1615, Kunsthistorisches Museum.


Talvez tenhamos tempo


Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
a perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.


Pablo Neruda, in 'Memorial de La Isla Negra', 1964;
in 'Antologia', seleção e tradução de José Bento,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998.


 
Antologia Poética de Pablo Neruda. 
Tradução: José Bento. Nº de páginas: 462.
Relógio D’Água, 1998.
 

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra."

Pablo Neruda (19041973), 
Prémio Nobel da Literatura em 1971.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

"O excesso mais perfeito" - Poema de Ana Luísa Amaral



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
Helena Fourment in Wedding Dress, c. 1630, Alte Pinakothek.

[Helena Fourment (1614–1673) was the second wife of Baroque painter Peter Paul Rubens. She sat for a few portraits by Rubens, and also modeled for figures in Rubens' religious and mythological paintings.]
 


O excesso mais perfeito


Queria um poema de respiração tensa
e sem pudor.
Com a elegância redonda das mulheres barrocas
e o avesso todo do arbusto esguio.
Um poema que Rubens invejasse, ao ver,
lá do fundo de três séculos,
o seu corpo magnífico deitado sobre um divã,
e reclinados os braços nus,
só com pulseiras tão (mas tão) preciosas,
e um anjinho de cima,
no seu pequeno nicho feito nuvem,
a resguardá-lo, doce.
Um tal poema queria.

Muito mais tudo que as gregas dignidades
de equilíbrio.
Um poema feito de excessos e dourados,
e todavia muito belo na sua pujança obscura
e mística.
Ah, como eu queria um poema diferente
da pureza do granito, e da pureza do branco,
e da transparência das coisas transparentes.
Um poema exultando na angústia,
um largo rododendro cor de sangue.
Uma alameda inteira de rododendros por onde o vento,
ao passar, parasse deslumbrado
e em desvelo. E ali ficasse, aprisionado ao cântico
das suas pulseiras tão (mas tão)
preciosas.

Nu, de redondas formas, um tal poema queria.
Uma contra-reforma do silêncio.

Música, música, música a preencher-lhe o corpo
e o cabelo entrançado de flores e de serpentes,
e uma fonte de espanto polifónico
a escorrer-lhe dos dedos.
Reclinado em divã forrado de veludo,
a sua nudez redonda e plena
faria grifos e sereias empalidecer.
E aos pobres templos, de linhas tão contidas e tão puras,
tremer de medo só da fulguração
do seu olhar. Dourado.

Música, música, música e a explosão da cor.
Espreitando lá do fundo de três séculos,
um Murillo calado, ao ver que simples eram os seus
anjos
junto dos anjos nus deste poema,
cantando em conjunção com outros
astros louros
salmodias de amor e de perfeito excesso.

Gôngora empalidece, como os grifos,
agora que o contempla.
Esta contra-reforma do silêncio.
A sua mão erguida rumo ao céu, carregada
de nada —


Ana Luísa Amaral,

in "Às Vezes o Paraíso", 1998.
 
 

domingo, 9 de junho de 2024

"Quadras aos Santos Populares" - Poema de Ricardo Maria Louro


Francisco de Zurbarán (Spanish painter, 1598–1664),
  Anthony of Padua, 1627–1630.
 
[Fernando de seu nome de batismo, Santo António de Lisboa, ou Santo António de Pádua, nasceu por volta de 1195, em Lisboa, e morreu a 13 de junho de 1231, em Pádua, na Itália.
Aos vinte anos professou a vida religiosa entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Ordenado sacerdote em 1220, fez-se frade franciscano no eremitério de Santo Antão dos Olivais, partindo depois para Marrocos em missão de apostolado aos muçulmanos.
Foi dos mais categorizados representantes da cultura cristã no período de transição da pré-escolástica para a escolástica. Figura notável pela sua erudição, impôs-se também pelo exemplo na pregação solene e doutrinal, na discussão com os hereges e no ensino nas escolas conventuais. Por isso, é ainda hoje considerado uma das personalidades franciscanas mais significativas.
Foi canonizado pelo papa Gregório IX, em 30 de maio de 1233. Em Pádua foi erigida uma conhecida basílica em sua memória, e lá se encontram as suas relíquias.
 (daqui)]
 


Titian (Italian (Venetian) painter of the Renaissance, c. 1488/90–1576),
Saint John the Baptist, c. 1540, Gallerie dell'Accademia, Venice.

[Personagem bíblica e santo do Cristianismo, S. João Baptista terá nascido na Judeia, no ano 2 a. C., e morrido em 30 d. C. Era filho de Zacarias, um sacerdote judaico, e de Isabel, prima de Maria. Introduziu o batismo, como prática na conversão de gentios, cerimónia que mais tarde seria adotada pelo cristianismo.
Surge como um precursor de Jesus Cristo, que veio a batizar, no rio Jordão, e a reconhecer como o verdadeiro messias. Partiu para o deserto para pregar. Censurou Herodes Antipas por ter cometido adultério com a sua cunhada, Herodíade. Foi, por isto, preso e, mais tarde, decapitado, a pedido de Salomé, sobrinha do rei e filha de Herodíade.
(daqui) ]



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
 Saint Peter, c. 1610–1612.
 
[São Pedro, discípulo dileto de Jesus Cristo, foi por ele eleito para encabeçar a Igreja e se tornar a sua pedra angular, tendo sido, de facto, o primeiro líder terreno da Igreja. Esta legitimidade, aplicada depois a todos os papas, proveio da seguinte afirmação de Jesus [citada por São Mateus no seu Evangelho (16,17)]: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja [...]. Eu te darei as chaves do reino dos Céus e tudo quanto desatares na terra será desatado no céu".
Segundo os Evangelhos, Simão - assim chamado antes de ser chamado ao apostolado -, filho de Jonas (ou João) e irmão de André, terá nascido ao pé do lago Tiberíades (ou Mar da Galileia), onde se tornou pescador. O seu nome posterior, Pedro (que significa pedra), resulta da latinização do nome aramaico Cefas ou Kipha, dado por Jesus.
Era casado, crendo-se que tinha filhos, e vivia em Cafarnaum, sendo pescador no lago de Genesaret.
Seguidor, como seu irmão, de São João Batista e depois de Jesus, tornou-se o primeiro entre os apóstolos, pela sua crença e dedicação.
Pregou a gentes de todos os credos em diversos sítios, entre os quais Antioquia e Jerusalém, não se sabendo com toda a certeza se esteve em Roma e a época exata em que lá terá estado. Contudo, a Primeira Epístola de S. Pedro (c. do ano 64) alude à sua estadia na Babilónia (nome metafórico dado a Roma), assim como os testemunhos escritos de São Inácio de Antioquia, Ireneu de Lyon e de São Clemente Romano. Seria na Via Salaria, na catacumba de Priscila, onde Pedro batizaria e pregaria aos fiéis, segundo a tradição.
São Pedro inaugurou uma sucessão de bispos de Roma (ou papas) que a partir da sua sede romana (chamada de trono de São Pedro) tentaram propagar a nova Fé pelo mundo. Segundo os Evangelhos, estava predestinada a morte supliciada de Pedro, para lançar as raízes do Cristianismo numa cidade corrupta e devassa, uma Babilónia, conforme as suas palavras.
Após o martírio na cruz invertida (64 - 67?), na sequência de uma perseguição de Nero, conta mais tarde o presbítero Gaio (séculos II-III) que São Pedro foi enterrado na colina Vaticana (junto ao Circo do citado imperador), tendo o seu corpo sido furtado no ano de 827. Assim, tudo leva a crer que o sóbrio sepulcro encontrado nas escavações efetuadas na década de 1940 sob a basílica de Constantino (hoje chamada de São Pedro) seja provavelmente o do apóstolo.
São Pedro é usualmente representado com vestes papais ou de apóstolo, com um livro e com uma chave de ouro (representando o Céu e a absolvição) e uma em prata (que simboliza a Terra e a condenação).
(daqui)]
 
 

⁠Quadras aos Santos Populares


Santo António é padroeiro
Da Lisboa d’encantar
Mas São Pedro é o porteiro
De quem no céu quiser entrar!

Santo António milagreiro
Que és um Santo tão Santinho
Dá-me lá mais um dinheiro
Qu’inda sou tão pobrezinho!

Diz a boca do demónio
Destas gentes da intriga
Que outrora o Santo António
Gostou d’uma rapariga!

A ti deixo este meu canto
Oh meu rico Santo António
Não te esqueças deste pranto
E arreda-me o demónio!

Oh meu querido Santinho
Vou fazer o teu altar
Comer pão e beber vinho
Pelas ruas a marchar!

Oh meu lindo São João
Dá-me moças pr’a dançar
Deixo aqui meu coração
A quem o quiser conquistar!

São João os teus cabelos
Tem ondas amarelas
Envoltas em segredos
Já não damos conta delas!

São João dos Caracóis
Procurava uma amada
E mandava os rouxinóis
Cantar uma toada!

São João é do Estoril
Santo António é de Lisboa
O São Pedro é d’águas mil
E o poeta é Pessoa!

O são Pedro tem a chave
Da porta desta festa
Mas se o “homem” não a abre
O Santo António já não presta!

Arraial por toda a parte
E sardinhas pelo pão
O São Pedro que me aguarde
Se estragar o São João!

Se chover no São João
O São Pedro está tramado
Santo António sem perdão
Vai deixá-lo entalado!

Nesta mesa dos artistas
Há gentes que se vejam,
Poetas, músicos, fadistas,
Tantos “santos” que nos beijam!

Temos dias sem sentido
Que nos deixam solidão
Vai a quadra ao manjerico
E a alegria ao coração!

Lá vai o arco e o balão
Pelas ruas sem ter mal
Pois agora a solução
É fazer um arraial!


Ricardo Maria Louro


Ilustração digital de Andreia Santos, 'Noite de Santos'
 


Festas dos Santos Populares

Junho é o mês dos Santos Populares com festas e arraiais por todo o país nas noites de Santo António, de São João e de São Pedro.

As principais são as Festas de Lisboa, de 12 para 13 de junho, dia de Santo António, e as do Porto, na noite de 23 para 24 de junho, quando se celebra o S. João. São festas muito animadas, em que a população vem para a rua comer, beber e divertir-se pelas ruas dos bairros populares, decoradas com arcos, balões coloridos e manjericos.

Em Lisboa, as marchas populares de cada bairro desfilam pela Av. da Liberdade em direção ao Rossio, enchendo a rua de centenas de figurantes, música e cores. Mas a enchente e a animação não são menores nas ruas desses bairros, com destaque para Alfama, mas também para a Graça, Bica, Mouraria ou Madragoa. Nos largos e vielas, come-se caldo verde e sardinha assada, canta-se e dança-se pela noite dentro. Outro momento forte é a procissão de Santo António, que no dia 13 sai da sua igreja, situada em Alfama, junto à Sé, no local onde este santo nasceu, por volta de 1193.

No Porto, a festa é idêntica em cor e alegria nos bairros mais tradicionais, como Miragaia, Fontainhas, Ribeira, Massarelos e outros. Mas nesta cidade há ainda outros usos e costumes: se antigamente os foliões batiam com o alho-porro na cabeça dos companheiros, hoje usam martelinhos de plástico; por outro lado, além do exuberante fogo-de-artifício que é lançado à meia-noite em pleno rio Douro, também se lançam balões de ar quente multicores, numa das mais bonitas celebrações destes festejos populares. A noite acaba para muitos junto à praia, para ver nascer o sol ou para um banho matinal, como manda a tradição.

A 29 de junho comemora-se ainda o São Pedro, também com festas populares em várias localidades do país, como Sintra ou Évora, ambas na lista do Património Mundial. Évora, aliás, tem a particularidade de celebrar dois santos populares, pois realiza desde o séc. XVI a feira de S. João, uma das maiores da região sul de Portugal, comemorando também o dia de S. Pedro como feriado municipal.

Nestas festas resistem práticas como saltar a fogueira e oferecer à namorada ou namorado pequenos vasos de manjerico, acompanhados de quadras escritas, que muitas vezes falam de amor, ou não estivesse a origem destas festividades ligada ao solstício de verão e a antigos rituais de fertilidade. (daqui) 

 

sábado, 17 de abril de 2021

"D. Sebastião, Rei de Portugal" - Poema de Fernando Pessoa

D. Sebastião - Rei de Portugal

 
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
 
20-2-1933

Fernando Pessoa
do livro Mensagem, 1934
 (III - As Quinas - quinta: D. Sebastião, Rei de Portugal )
 
 
 
A Mensagem é a única obra completa publicada em vida de Fernando Pessoa. Contém 44 poemas, escritos entre 21 de julho de 1913 e 16 de março de 1934. A sua publicação acontece a 1 de dezembro de 1934, dia das comemorações da Restauração de 1640.

Concorrente ao "prémio Antero de Quental", Mensagem foi preterida a favor de Romaria, uma coletânea de versos do missionário franciscano Vasco Reis, que ilustrava a fé do povo como convinha ao regime de então. Teve de se contentar com o prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido pelo seu amigo António Ferro. O pretexto para o prémio de Categoria B foi o número de páginas, sendo o de Categoria A para um volume superior a 100 páginas. Na composição do júri, presidido por Mário Beirão, estavam Alberto Osório de Castro, Acácio de Paiva e Teresa Leitão de Barros.

O Secretariado de Propaganda Nacional, por decisão de António Ferro, acabou por elevar o prémio da Mensagem para o mesmo valor da Romaria, ou seja, de 1000$00 para 5000$00, embora o assunto tenha provocado bastante polémica. Fernando Pessoa, num escrito de 1935 e encontrado no seu espólio, afirma: "Publiquei em outubro passado, pus à venda, propositadamente, em 1 de dezembro, um livro de poemas, formando realmente um só poema, intitulado "Mensagem". Foi esse livro premiado, em condições especiais e para mim muito honrosas, pelo Secretariado da Propaganda Nacional".

A coletânea do padre Vasco Reis, apesar de ser normalmente considerada de pouca valia, parece ter sido premiada por ilustrar a fé popular, o que estava em conformidade com a intenção política do concurso. Pelo contrário, Mensagem, hoje reconhecida como uma obra capital da poesia portuguesa, era, essencialmente, um poema voltado para o "oculto" e para o místico, sobre a história de Portugal, a memória coletiva e a crença de um novo império civilizacional.

A Mensagem é mítica e é simbólica. Os 44 poemas encontram-se agrupados em três partes, ou seja, as etapas da evolução do Império Português - nascimento, realização e morte. Fernando Pessoa procura aí anunciar um novo império civilizacional. O "intenso sofrimento patriótico" leva-o a antever um império que se encontra para além do material.

Mensagem, apesar de conter poesias breves, compostas em momentos diversos, garante uma unidade histórica e lógica, sequencial e coerente. A sua estrutura tripartida permite contar e refletir sobre a vida e o percurso de Portugal ao longo dos séculos.

A primeira parte - Brasão - corresponde ao nascimento, com referência aos mitos e figuras históricas até D. Sebastião, identificadas nos elementos dos brasões. Dá-nos conta do Portugal erguido pelo esforço dos heróis e destinado a grandes feitos. Começa pela localização de Portugal na Europa e em relação ao Mundo, procurando atestar a sua grandiosidade e o valor simbólico do seu papel na civilização ocidental quando afirma "O rosto com que fita é Portugal!". Depois define o mito como nada capaz de gerar os impulsos necessários à construção da realidade; apresenta Portugal de um povo heroico e guerreiro, construtor do império marítimo; faz a valorização dos predestinados que construíram o País (Ulisses, Viriato, Conde D. Henrique e seu filho Afonso Henriques, D. Dinis, D. João I, D. Sebastião, Nuno Álvares Pereira, D. Henrique, D. João II e Afonso de Albuquerque); e refere as mulheres portuguesas, mães dos fundadores, celebradas como "antigo seio vigilante" ou "humano ventre do Império" como D. Teresa ou D. Filipa de Lencastre, mãe da "ínclita geração".

Na segunda parte - Mar Português - surge a realização e vida. Inicia-se com o poema Infante, onde o Poeta exprime a sua conceção messiânica da história, mostrando que o sopro criador do sonho resulta de uma lógica que implica Deus como causa primeira, o homem como agente intermediário e a obra como efeito. Nos outros poemas evoca a gesta dos Descobrimentos com as personalidades (Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e Vasco da Gama) e acontecimentos que exigiram uma luta contra o desconhecido e os elementos naturais, com as glórias e as tormentas, considerando que valeu a pena. No antepenúltimo poema evoca a partida de D. Sebastião na Última Nau e o último poema é a Prece, onde renova o sonho. No Mar Português procura simbolizar a essência do ideal de ser português vocacionado para o mar e para o sonho.

Na terceira parte - Encoberto - aparece a desintegração, havendo, por isso, um presente de sofrimento e de mágoa, pois "falta cumprir-se Portugal". Encontra-se tripartida em Os símbolos (D. Sebastião, O Quinto Império, O Desejado, As Ilhas Afortunadas, O Encoberto), Os avisos (Bandarra, Vieira e "Screvo meu livro à beira-mágoa") e Os tempos (Noite, Tormenta, Calma, Antemanhã, Nevoeiro). Com os primeiros, começa por manifestar a esperança e o "sonho português", pois o atual Império encontra-se moribundo. Mostra a fé de que a morte contenha em si o gérmen da ressurreição. Nos três avisos define os espaços de Portugal; com os cinco tempos traduz a ânsia e a saudade daquele Salvador/Encoberto que, na Hora, deverá chegar, para edificar o Quinto Império, moral e civilizacional
(Daqui)
 
 
Retrato de D. Sebastião (1554 – 1578), por Alonso Sánchez Coello, 1562. 
[Descoberto em 2010, este retrato de D. Sebastião, estava no castelo Schönberg, na Áustria,
 mas era erradamente identificado com um nobre austríaco.]

 
D. Sebastião
 
 
D.Sebastião, monarca português, filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, nasceu em 1554, em Lisboa, e morreu em 1578, em Alcácer Quibir. Décimo sexto rei de Portugal (1557-1578), é conhecido pelo cognome de "o Desejado".

D. Sebastião herdou o trono de seu avô, D. João III, porque, apesar de este ter tido vários filhos, todos eles acabaram por falecer precocemente. Como era menor, ficou como regente sua avó D. Catarina, apesar de D. João III não ter deixado testamento mas apenas uns apontamentos em que a indicava como regente. Sua mãe, D. Joana, de acordo com o contrato nupcial, teve de regressar a Castela após a morte do príncipe D. João.

A regente D. Catarina, por influência do cardeal D. Henrique, começou por pedir ao Papa a fundação da Universidade de Évora, que entregou aos Jesuítas. Continuou a política de D. João III quanto ao Norte de África, querendo abandonar Mazagão, que, entretanto, teve de defender dos ataques mouros. Acusada de sofrer influências da Corte espanhola, pede a demissão de regente nas Cortes de Lisboa de 1562, continuando, no entanto, como tutora de D. Sebastião. Foi eleito como regente, nessa altura, o cardeal D. Henrique, tio de D. Sebastião. Nestas Cortes o povo manifestou a sua apreensão quanto à educação do rei, sobre a questão da sucessão e sobre a inalienabilidade de todo o território nacional, aspetos que D. Henrique vai ter em conta durante a sua regência, até D. Sebastião completar catorze anos.

D. Sebastião teve uma educação cuidada, mas era de um temperamento e humor variáveis, sujeito a períodos de depressão, e de carácter um pouco influenciável por aqueles que o cercavam. As lutas que entretanto houve no Norte de África, como na defesa de Mazagão, levavam-no a pensar em futuras ações em África.

Quando atinge os catorze anos, em 1568, D. Sebastião toma conta do governo e logo trata de reorganizar o exército, preparando-se para a guerra. Entretanto, para o país, o grande problema era o da sucessão do rei, pois era solteiro e parecia não se preocupar com isso, tendo-se malogrado várias negociações matrimoniais, circunstância que D. Sebastião atribui ao facto de não ter prestígio militar, o que o leva a sonhar cada vez mais com grandes feitos heroicos. Na Corte tentam fazer-lhe ver o perigo de tais ações sem primeiro ter assegurado a sucessão. Mas D. Sebastião ignora tais conselhos e, em 1572, deixa a regência a D. Henrique e faz uma viagem pelo Norte de África. O pretexto que D. Sebastião aguardava aparece com um problema surgido no Magrebe. D. Sebastião toma partido por uma das partes, sonhando dominar essa área e recuperar as praças antes abandonadas. 
 
O próprio rei, contra todos os conselhos, parte à frente de um exército que ele próprio preparara. Apesar de toda a bravura no combate, o exército português foi derrotado em Alcácer Quibir, e nessa batalha morre o rei D. Sebastião e uma grande parte da juventude portuguesa. Este desastre vai ter as piores consequências para o país, colocando em perigo a sua independência. O resgate dos sobreviventes ainda mais agravou as dificuldades financeiras do país. O cadáver de D. Sebastião foi encontrado e reconhecido, estando sepultado no Mosteiro dos Jerónimos. A crença popular não aceitou a sua morte e daí nasceu o mito do Sebastianismo.
 
Como não tinha descendentes, vai-lhe suceder o tio, o Cardeal D. Henrique. (Daqui)
 
 
 D. Sebastião, Rei de Portugal, por Alonso Sánchez Coello, 1575


Sebastianismo
 
 
Morto D.Sebastião em Alcácer Quibir, e tendo sido Portugal anexado pela Espanha em 1580, Portugal estava perante o período mais negro da sua História: perdera toda a opulência e grandiosidade do início do século, com a batalha de Alcácer Quibir perdeu o melhor da sua juventude e dos seus militares, ficou endividado com o pagamento dos resgates e sofreu o domínio castelhano, que o vai oprimir. Nasce então uma versão particular de messianismo, sobretudo de influência judaica, o Sebastianismo: crê-se que toda esta opressão, todo este sofrimento, toda esta miséria, toda esta crise será vencida com o aparecimento de D. Sebastião (numa manhã de nevoeiro...), que libertará Portugal dos castelhanos e da sua opressão e lhe restituirá a antiga grandeza. 
 
Defende-se que D. Sebastião não morreu nem podia ter morrido. E aparecem então os falsos "D. Sebastião", tendo sido presos uns e mortos outros. Este sonho é sustentado e difundido por várias pessoas e de várias maneiras, em que sobressaem as Trovas do Bandarra de Trancoso - e, já no nosso século, a Mensagem de Fernando Pessoa. Primeiro clandestinamente, depois mais à luz do dia, esse movimento influencia a revolta do Manuelinho de 1637, em Évora, e vai propiciar o 1.o de dezembro de 1640, pelo entusiasmo posto na sua execução e pela confiança que a todos transmite.

O Sebastianismo transforma-se num mito: quando há épocas de crise aparece como uma esperança de melhores dias, de mais justiça e de maior grandeza. O mito (como é próprio dos mitos) foi sendo adaptado às realidades de cada momento. Em 1640, por alturas da restauração da independência nacional, era D. João IV o "Encoberto". (Daqui)
 
 
Retrato de D. João IV, duque de Bragança c. 1628 por Peter Paul Rubens
 

D. João IV

 
João IV, monarca português, nasceu em Vila Viçosa a 19 de março de 1604 e a partir de 29 de outubro de 1630 tornou-se o 8.o duque de Bragança. Casou com D. Luísa de Gusmão, espanhola de nascimento, a 12 de janeiro de 1633. Foi escolhido pelos obreiros da Restauração para rei de Portugal. 1 de dezembro de 1640 foi a data da restauração da independência de Portugal face ao reino de Espanha. Terminava assim a dinastia filipina, que durante 60 anos governara Portugal. D. João IV foi aclamado rei a 15 de dezembro.

Pese embora a conjura de 1641 contra o novo rei, da qual resultou uma severa punição para os seus responsáveis, D. João IV teve o apoio da grande maioria da sociedade portuguesa, o que lhe permitiu criar novos impostos, desvalorizar a moeda e recrutar voluntários para fazer face às necessidades monetárias e humanas de um confronto militar que se adivinhava próximo com a vizinha Espanha.

Em 1641 verificaram-se os primeiros confrontos, saldando-se por uma vitória do exército português na Batalha do Montijo e uma tentativa fracassada dos espanhóis no cerco de Elvas. A Espanha estava fortemente mergulhada na  Guerra dos Trinta Anos, pelo que foi preciso esperar pelo fim da guerra entre franceses e espanhóis, que só se verificou em 1659, para que os espanhóis pudessem concentrar todas as suas atenções na anulação da Restauração portuguesa.

Durante este período, D. João IV, com o objetivo de legitimar a revolução e obter auxílio militar e financeiro, enviou embaixadores para as principais Cortes europeias. Era necessário convencer os reinos europeus de que D. João IV não era um rebelde mas sim o legítimo herdeiro do trono que havia sido usurpado pelos Filipes. D. João IV apresenta-se, assim, como o legítimo herdeiro do cardeal D. Henrique, pois, em 1580, quem deveria ter sucedido no trono era D. Catarina, duquesa de Bragança, e não Filipe II de Espanha. Os embaixadores vão também legitimar o novo rei segundo o novo princípio político de que o poder era conferido por Deus ao povo, que, por sua vez, o transmitia ao rei.

D. João IV faleceu a 6 de novembro de 1656, deixando o reino, política e militarmente organizado, entregue à regência de D. Luísa de Gusmão. (Daqui)



"Sinto frio na alma; não sei com que me agasalhar. Para o frio da alma não há manto nem capa, quem o sente não se esquece."

s.d. 

Fernando Pessoa,
Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa - Teresa Rita Lopes 
 Lisboa: Estampa, 1990. - 19.
 
 

domingo, 25 de agosto de 2019

"Esta vida" - Poema de Guilherme de Almeida



Esta vida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.


Guilherme de Almeida 


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

"Os Estatutos do Homem" - Poema de Thiago de Mello




Os Estatutos do Homem
 (Ato Institucional Permanente)

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV 

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
  O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V 

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII 

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII 

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX 

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI 

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII 

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII 

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

Thiago de Mello,
Poesia retirada do livro 'Os Estatutos do Homem'.
Martins Fontes, 1977

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Arte Religiosa - "Imaculada Conceição"


Bartolomé Esteban Murillo, "A Imaculada Conceição dos Veneráveis", 1678



A Imaculada Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mancha (em latim, macula ) do pecado original. O dogma diz que, desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada por Deus, da falta de graça santificante que aflige a humanidade, porque ela estava cheia de graça divina. Também professa que a Virgem Maria viveu uma vida completamente livre de pecado.

A festa da Imaculada Conceição, comemorada em 8 de dezembro, foi definida como uma festa universal em 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV.

A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus em 8 de Dezembro de 1854. A Igreja Católica considera que o dogma é apoiado pela Bíblia (por exemplo, Maria sendo cumprimentada pelo Anjo Gabriel como "cheia de graça"), bem como pelos escritos dos Padres da Igreja, como Irineu de Lyon e Ambrósio de Milão. Uma vez que Jesus tornou-se encarnado no ventre da Virgem Maria, era necessário que ela estivesse completamente livre de pecado para poder gerar seu Filho. (Daqui)


Bartolomé Esteban Murillo, Imaculada Conceição, 1650


Imaculada Conceição de Peter Paul Rubens, 1627, no Museu do Prado.


Diego Velázquez, Imaculada Conceição, 1618


Imaculada Conceição de Piero di Cosimo, de 1505


Imaculada Conceição de Juan Antonio de Frías y Escalante (1633-1669) 


Imaculada Conceição de Juan Antonio de Frías y Escalante, 1663


Imaculada Conceição de Juan Antonio de Frías y Escalante, 1667


Juan Carreño de Miranda, The Assumption of the Virgin, 1657


Imaculada Conceição de Francisco de Zurbarán, de 1630

terça-feira, 30 de junho de 2015

"Indefinida" - Poema de Natércia Freire


Peter Paul Rubens, Venus at the Mirror, 1615
 
 

Indefinida
 

Oh, poesia de andar
suspensa sobre os outeiros!
Poesia de correr
fundida nos ribeiros…
Oh, Poesia de ti,
que em mim estás a viver!
Oh, Poesia de então,
nos jardins, sob o Inverno,
pés na lama do chão,
e o dia, um dia eterno
de Poesia, a morrer!...

Poesia dos murmúrios,
dos nevoeiros densos,
dos silêncios sem luz,
dos pecados imensos,
sem gestos, qual a morte,
qual a ausência, sem vida.

Poesia de fechar
os olhos alagados
da Poesia de ti,
dos teus olhos fechados;
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida…

Poesia dos passeios
por entre a claridade,
entre árvores tão esguias
que tocavam os Céus,
e as folhas a cair
de um oiro sem idade…

Poesia fabulosa,
de uma riqueza enorme…
Uma Poesia fina,
alada, misteriosa;
Poesia de um passado
que em mim nunca mais dorme!

Poesia perturbada,
Poesia abandonada.
Poesia na prisão,
sufocada, esquecida,
Poesia recalcada,
Poesia maltratada.
Oh, Poesia troçada
da jovem bem-casada
na poesia da vida!…

Ai, dias sem desígnio!
Ai, noites de mistério!
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida!... 


Natércia Freire
,
in “Anel de Sete Pedras”



Peter Paul Rubens, The Three Graces, 1635, Prado
 
 
Passei os pinhais sombrios
as searas mais os rios,
os salgueiros sossegados,
os ventos mais apressados,
as mais líricas montanhas
e as paisagens mais estranhas,
e só fui o que quis ser:
um espaço longo e deserto
num destino de mulher.