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segunda-feira, 9 de maio de 2022

"Ouve vou dizer-te" - Poema de Abel Neves

 
 
Guillaume Seignac (French painter, 1870-1929), The cherry girl 
 

Ouve vou dizer-te


Ouve vou dizer-te
abre com os dedos uma cereja
daquelas de fazer brinco quando a brisa é boa
tira-lhe o caroço
verás como isso é arrancar o coração do tempo
o carmesim do suco
é o choro e o riso
dos que se amam impacientes e belos


Abel Neves
,
In “Resumo - a poesia em 2012”  
Documenta/Fnac - 2013
 
 
Livro: "Resumo - a poesia em 2012"
(daqui)


"Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejeiras." 
 
Pablo Neruda,
em final do Poema 14 do livro:
"Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", 1924  (daqui)
 
 
William Frederick Yeames (British painter, 1835-1918), Ripe Cherry


"As palavras são como as cerejas, atrás de umas vêm as outras."


Provérbio
(Provérbios portugueses)


Hans Zatzka (Austrian painter, 1859-1945/9), Roses and Cherries
 
 
 Poema

A vida é uma cereja
A morte um caroço
O amor uma cerejeira.

Poemas. São Paulo: Nova Fronteira, 2000, p. 65.
 
 

terça-feira, 7 de março de 2017

"Quatro vezes sete versos para aquela rapariga" - Poema de Abel Neves


Alice Holcomb (1906-1977), Two Geraniums
 


Quatro vezes sete versos para aquela rapariga 


Enquanto não vens nem tu sabes é assim
uma casa que só cheirasse a uvas de setembro
Este quarto esta sala onde o som contínuo é Out of
Nowhere soprado pelo Charlie Parker
Há calma com vento que vem quente enquanto não vens
e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações
A que menos entenderes para melhor a desejares 

Entretenho-me com uma breve meditação
sobre o perfil de um velho índio apsaroke
e tenho-te rapariga na visão do vale dos bisontes
onde esperas o bafo morno do fim da tarde
ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo
entre o voo de alguns insetos
e a recordação destes dedos que te escrevem 

Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas
mas neste falar assim é que as plantas destes vasos
crescem para o teto e é lá que está o éden delas
ainda que o vá sendo sempre o ar e
a luz que tomam
cada dia perto muito perto das menores palavras
com que te aviso do paraíso tão à mão 

Hoje sinto-me lesma será isto lucidez?
e não tenho sexo nem para as horas
nem lei para esta coisa suave
que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade
Cá vou indo menina cá vou indo
e não me peças versos que os não dou
por os não saber fazer ou ler ou nada




Alice Holcomb (1906-1977), Self-Portrait
 

"A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência." - Boris Pasternak, in 'Doutor Jivago.'