domingo, 6 de janeiro de 2013

"A Caridade" - Poema de João de Deus



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
'A Christmas Carol at Bracken Dene', c. 1878–1879,
Birmingham Museum and Art Gallery



A Caridade


Eu podia falar todas as línguas
Dos homens e dos anjos;
Logo que não tivesse caridade,
Já não passava de um metal que tine,
De um sino vão que soa.

Podia ter o dom da profecia,
Saber o mais possível,
Ter fé capaz de transportar montanhas;
Logo que eu não tivesse caridade,
Já não valia nada!

Eu podia gastar toda afortuna
A bem dos miseráveis,
Deixar que me arrojassem vivo às chamas;
Logo que eu não tivesse caridade,
De nada me servia!

A caridade é dócil, é benévola,
Nunca foi invejosa,
Nunca procede temerariamente,
Nunca se ensoberbece!

Não é ambiciosa; não trabalha
Em seu proveito próprio; não se irrita;
Nunca suspeita mal!

Nunca folgou de ver uma injustiça;
Folga com a verdade!

Tolera tudo! Tudo crê e espera!
Em suma tudo sofre!


João de Deus
, in 'Campo de Flores' 
 

João de Deus in 'O Ocidente', 1878 
 
 
João de Deus 

Poeta e pedagogo, João de Deus de Nogueira Ramos nasceu a 8 de março de 1830, no Algarve, e morreu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa.
Depois de ter frequentado, durante dez anos, o curso de Direito em Coimbra (onde foi uma das figuras mais destacadas da boémia estudantil da época e se relacionou com alguns elementos da Geração de 70, sobretudo Antero de Quental e Teófilo Braga), de ter dirigido em Beja, entre 1862 e 1864, o jornal O Bejense (onde publicou muitas das suas primeiras poesias), e de ter iniciado a prática de jurisconsulto, foi eleito deputado, em 1868, por Sines. Mudou-se para Lisboa, onde continuou a frequentar ambientes de boémia literária. Colaborou em vários jornais e revistas, como O Académico, Anátema, O Ateneu, Ciências, Artes e Letras, O Fósforo, Gazeta de Portugal, A Grinalda, Herculano, Prelúdios Literários e Revista de Coimbra. Por volta de 1868-1869, coligiu as suas poesias no volume Flores do Campo, a que se seguiram Ramo de Flores (1869), Folhas Soltas (1876), Despedidas do verão (1880) e Campo de Flores (1893). No seguimento da sua nomeação para o cargo de comissário-geral do ensino da leitura, viria a desempenhar um papel social e cultural da maior distinção, revelando-se decisivos os seus esforços para a alfabetização de camadas cada vez mais alargadas da população portuguesa. A publicação, em 1876, da célebre Cartilha Maternal, método de ensino da leitura verdadeiramente revolucionário no panorama pedagógico nacional, constituiu um marco importante desse processo. Devido, em parte, à sua ação de pedagogo, em 1895 foi agraciado com várias homenagens à escala nacional, entre as quais a de sócio-honorário da Academia Real das Ciências e do Instituto de Coimbra.
Como poeta, João de Deus situou-se num momento em que a via ultrarromântica estava já a esgotar-se, mas, apesar do apreço que lhe manifestavam autores como Antero de Quental, não se identificou com as preocupações filosóficas e sociais da Geração de 70. De facto, a temática dominante da sua obra poética afastou-o da nova corrente. O seu lirismo intimista versa constantemente sobre o amor, e por vezes perpassa um sentido de plácida religiosidade, exprimindo-se sempre num estilo simples. A sua obra abrange vários géneros, da ode à elegia, do epigrama à fábula, passando pelo soneto. João de Deus, que Antero considerava, já em 1860, "o poeta mais original do seu tempo", defendeu e praticou um lirismo depurado, inspirado, a exemplo de Garrett, na lírica tradicional portuguesa e na obra camoniana, de onde recuperaria o soneto como um dos seus géneros de eleição.

João de Deus. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-06].
  
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Galeria de Arthur Hughes 

Arthur Hughes, 'Self-portrait', 1851

Arthur Hughes (27 de janeiro de 1832  22 de Dezembro de 1915) foi um pintor e ilustrador Inglês associado com a Irmandade pré-rafaelita. Ele é o tio do pintor Inglês Edward Robert Hughes.



Arthur Hughes, 'Saying Grace, The Skipper and His Crew', 1881

 

Arthur Hughes, 'Mrs. Norman Hill and Children', 1897



Arthur Hughes, 'Mrs Leathart and Her Three Children', c. 1863–1865



Arthur Hughes, 'Mother and Child Seated in Garden', c. 1865–1870
 
 
 
Arthur Hughes, 'The Children of Birkbeck Hill', 1868

 

Arthur Hughes, 'The Potter's Courtship', c. 1886
 

 
Arthur Hughes, 'Home from Work', c. 1870


 
Arthur Hughes, 'Sir Galahad - the Quest of the Holy Grail', 1870



Arthur Hughes, 'In the Grass', c.1864–1865, Sheffield Galleries and Museums Trust
 

 
Arthur Hughes, 'Mabel and Ruth Orrinsmith', c. 1878


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