sábado, 16 de maio de 2026

"O pequeno persa" - Poema de Eugénio de Andrade

 


Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859–1923), 'The Little Writer', 1913.
 
 
  O pequeno persa


É um pequeno persa 
azul o gato deste poema. 
Como qualquer outro, o meu 
amor por esta alminha é materno: 
uma carícia minha lambe-lhe o pelo, 
outra põe-lhe o sol entre as patas 
ou uma flor à janela. 
Com garras e dentes e obstinação 
transforma em festa a minha vida. 
Quer-se dizer, o que me resta dela. 


Eugénio de Andrade (1923–2005),
in "O Outro Nome da Terra",
Porto: Limiar, 1988.


 Pinturas de Charles van den Eycken
(Gatos)

Charles van den Eycken, Four playful kittens, 1907.

 
 
Charles van den Eycken, A Cat with her Kittens, 1896.
 
 
 
Charles van den Eycken, Playtime, 1910.

 
 
Charles van den Eycken, A happy family, n.d.

 
 
Charles van den Eycken, Black and White Kitten, n.d.
 


Charles van den Eycken, Budding artists, 1907. 
 

 
Charles van den Eycken, Kittens at Play, n.d. 
 
 
 
Charles van den Eycken, The busybody, 1911.


Por que gostam os escritores de gatos?

Entre os escritores e os gatos há uma envolvente conivência mítica, uma enigmática ligação íntima, feitas de perdimentos e silêncios, fiapos de escuridade e de inexplicáveis solidões matizadas por súbitos luzimentos, numa entrançada trama de melancolias, que os escritores imaginam e recriam naquilo que escrevem.
E à sua beira os gatos fugazmente detetam. 
 
Por que gostam os gatos dos escritores?

Mas os gatos amam os escritores, sobretudo porque neles pressentem uma avidez equívoca e silenciosa que os convoca e fascina. Num logro de distanciamento iludidor que os desafia e ao mesmo tempo os deixa livres para tomarem gosto à própria independência, ora revolvida ora amodorrada.
No entanto, o que os gatos preferem nos escritores, é o cheiro liso, seco e tumultuado dos livros, com o seu travo acre e áspero a papel e às palavras inventadas, às rimas e aos versos, numa espécie de turvidade, onde os gatos gostam de se deixar adormecer, num jogo antigo e frágil.

Maria Teresa Horta (Escritora, jornalista, ativista e poetisa portuguesa, 1937–2025) (daqui)
 

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