
Albert Gleizes (French artist, theoretician, philosopher, a self-proclaimed
founder of Cubism and an influence on the School of Paris, 1881–1953),
'Le Chemin, Paysage à Meudon', 1911, oil on canvas, 146.4 x 114.4 cm.
Private collection.
O que não se sabe não existe
O que não se sabe não existe.
Quando, por vitória do fogo
ou jorro surdo, inesperado, de água,
um golpe de asa, leve e mal sentido,
te leva os olhos a recantos calados
aos ouvidos que até então te dera
o acaso imóvel, teu parco nascimento,
quando um murmúrio desperta duvidoso
o que em certeza tinhas construído
e um véu que não sabias ao não saber
se abre, e, mais ainda, quando
consegues ver a mão que desvelou
o país das narinas, dos dedos, das pupilas,
então existe, o mundo cresce em ti
e em ti decresce a gruta que apalpavas.
Outras voltas darás, de novo à espera,
até que um dia, súbito, te entendas
ao entenderes de vez à luz de um raio
que era preciso saberes que mais existe
e que o que existe deveras não se sabe.
Pedro Tamen (1934–2021),
in "Guião de Caronte", 1997.
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