quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

"Poema do mar e da serra" - Poema de Branquinho da Fonseca


 
Henri-Edmond Cross (French painter and printmaker, 1856–1910),
"Hafenszene", by 1910. 


Poema do mar e da serra



Ó mar de que não sei nada
Nem vejo que desvendar,
És só a mais larga estrada
Para ir e voltar!

Eu sou lá dos montes
Que medem o céu,
Sou das frias serras onde primeiro o Sol nasceu
E onde os rios ainda são apenas fontes.

Sou de onde as árvores falam
A língua que eu conheço,
Onde de mim sei tudo
E do resto me esqueço.

Lá, tenho olhar de estrelas a luzir
E tenho voz de guardador de rebanhos,
Passos de quem só desce pra subir,
Mãos sem perdas nem ganhos.

Contigo falo, ó mar,
Se a Lua vem do céu passear no mundo,
Tornando-te a planície do luar
Sem ecos nem mistérios de profundo.

Mas só lá sou da terra e a terra é minha,
Só lá eu sou do céu e o céu é para mim,
Ó serra aonde há tal serenidade
Que nada tem começo
Nem fim.


Branquinho da Fonseca
,
in "Litoral", n.º 3, Ag.-Set. 1944;
in "Obras Completas: Vol. 1",
Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2010.


 
Henri-Edmond Cross, Landscape, c. 1896–1899.


As Viagens 


Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou.
A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão.
Dois pássaros na mão são o que já não falta.
Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele;
ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares;
dar a volta ao mundo e continuar;
é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.


Branquinho da Fonseca
 
 
 
Branquinho da Fonseca (daqui)

Branquinho da Fonseca (1905–1974) foi um poeta, tradutor (Georges Duhamel, Stendhal, entre outros), autor dramático e ficcionista, filho de Tomás da Fonseca (1877–1968).
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de conservador de registo civil e dirigiu, desde a sua criação, o Serviço de Bibliotecas Fixas e Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Com Afonso Duarte, Vitorino Nemésio, António de Sousa e João Gaspar Simões, dirigiu a revista coimbrã Tríptico (1924); com José Régio e João Gaspar Simões, fundou, em 1927, a "Folha de Arte e Crítica" Presença, e, após uma dissidência com o grupo presencista, fundou com Adolfo Rocha (Miguel Torga) a efémera revista Sinal (1930). Além destas publicações, colaborou em O Diabo, Manifesto e Litoral. É nas páginas da Presença que publica os textos dramáticos A Posição de Guerra e Os Dois (posteriormente recolhidos com Curva do Céu, A Grande Estrela, Rãs e Quatro Vidas, no volume único de Teatro, publicado, em 1939, com o pseudónimo de António Madeira), numa dramaturgia que, segundo Luiz Francisco Rebello (100 Anos de Teatro Português, Porto, 1984, p. 75), combina "elementos de progénie simbolista com certas experiências surrealistas", e que, na opinião do mesmo estudioso, prolongam, "na geração presencista, o vanguardismo de Orpheu, de que no setor dramatúrgico Almada Negreiros foi o mais lídimo representante".

Revelou-se, em 1926, com Poemas, coletânea que estabelece a continuidade com o modernismo "tanto pela aguda desconfiança a alternar com a crença desmedida nos poderes da palavra, como pelo reiterado pendor para a visão alucinatória do concreto e para a expressão aparentemente cândida do insólito." (MOURÃO-FERREIRA, David - posfácio a O Barão, Lisboa, 1969, p. 119). 

Mas é sobretudo na ficção que o escritor atinge a sua maturidade, através de uma escrita espessa, que se presta a interpretações psicológicas, sociais, simbólicas, numa hábil capacidade de misturar o real e o imaginário, o fantástico e o concreto, e de que a famosa novela O Barão - amplamente traduzida - constitui um dos exemplos mais significativos. (daqui) 

 
Tomás da Fonseca com Clotilde Madeira e os filhos Branquinho da Fonseca
e Tomás Branquinho (Coimbra, cerca de 1923).
 (daqui)

 

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