terça-feira, 25 de agosto de 2020

"Madalena" - Poema de António Gomes Leal


George Romney, A Madalena (Lady Hamilton as The Magdalene), c. 1790



Madalena


Descai o sol nos olivais do monte.
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Um rouxinol suspira num loureiro.
- É nessa hora do ocaso, meiga e terna,
Em que o sol busca o mar como um boieiro
que vem beber à boca da cisterna.

Passam Jesus e os seus. - Sião, Ramá
as nostálgicas filhas de David
dizem, na sombra, baixo: «Quem será
este suave e místico Rabi?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Da Galileia ao Monte de Carmelo,
as judias, da sombra no mistério,
dizem, baixo: «Que príncipe tão belo
parece ser este Rabi tão sério!»

- Ele é mais louro do que um Sol levante,
mais meigo e casto que a mansa ave!
Ele é mais belo que um rei distante!
- «Quem será pois este Rabi suave?»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

Madalena em Betânia, desatando
seu cabelo, qual fúlgido lençol,
limpa os pés do Rabi, humilde, olhando
seus olhos cheios de domínio e Sol.

Lança-lhe aos pés um bálsamo correndo,
que Judas diz: do desperdício o cúmulo.
- Mas o Rabi suave vai dizendo:
«Triste mulher! Ungiu-me para o túmulo!»

Mas o sol cai nos olivais do monte
Colhe o gado o pastor. - Das largas eiras
vêm vindo as filhas de Jacob à fonte
com seu rítmico andar, entre palmeiras.

O lavrador, na tarde sossegada,
dos mistérios cismando sobre a origem,
vai andando e dizendo, sob a enxada:
- «Quem será o Rabi pálido e virgem?»

O pescador trigueiro das baías,
deitando a rede diz olhando o rio:
- «Quando virá o lúcido Messias?
- Quem é este Rabi louro e sombrio?»

O discípulo e apóstolo, cavado
dos jejuns, a cismar sobre a doutrina,
vai andando e dizendo: - «o Céu calado
pode criar a encarnação divina?...»

Pode o verbo ser carne? O Todo e o tudo
tornar-se a Parte? um ramo de David!
Ó Céu largo, ó Céu triste, belo e mudo!
Quem é pois, quem é pois, nosso Rabi?»

- Mas Madalena, num amargo choro,
limpa os pés do Rabi, cheia d'amor,
com seus longos cabelos feitos de ouro,
e, baixinho, soluça: - «É meu senhor!»

O Sol morreu nos olivais do Monte.
Rompe o virgem luar. - Às largas eiras
vão-se indo as filhas de Jacob, da fonte,
com seu rítmico andar entre as palmeiras.

1913 

António Gomes Leal (1848-1921)
In Gomes Leal - História de Jesus, José Carlos Seabra Pereira
(ed,), Assírio & Alvim, Lisboa: 1998 (2ª.), pp.96-98



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