terça-feira, 18 de agosto de 2020

"Morte, Juízo, Inferno e Paraíso" - Soneto de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Władysław Czachórski (Polish painter, 1850–1911),
'A lady in a lilac dress with flowers', c. 1880/1890.
National Museum in Warsaw


Morte, Juízo, Inferno e Paraíso


Em que estado, meu bem, por ti me vejo,
Em que estado infeliz, penoso e duro!
Delido o coração de um fogo impuro,
Meus pesados grilhões adoro e beijo.

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo.

Assim passo, assim vivo, assim meus fados
Me desarreigam d'alma a paz e o riso,
Sendo só meu sustento os meus cuidados;

E, de todo apagada a luz do siso,
Esquecem-me (ai de mim!) por teus agrados
Morte, Juízo, Inferno e Paraíso. 


Bocage, in 'Sonetos'

Sem comentários: