sábado, 13 de maio de 2017

"O caçador de borboletas" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Jim Daly (American painter, born 1940), 'Daydreaming' 


O caçador de borboletas


Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado. 

À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pelos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


Álvaro Magalhães,
in 'O reino perdido', 2000



Jim Daly (American painter, born 1940), 'Unexpected Company'


"A casa da infância é como um rosto de mãe: contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo."

Mia Couto'O outro pé da sereia' 

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