quinta-feira, 30 de novembro de 2017

"De amarelo" - Poema de Deborah Brennand



Herbert James Gunn (Scottish landscape and portrait painter, 1893–1964),
'Pauline in the Yellow Dress', 1944, oil on canvas. 



De amarelo


Hoje devo me vestir de amarelo:
espantar os olhos negros da solidão,
tal a luz do girassol de ouro dourado
que abre pétalas iluminando nuvens.

Quem saberá (nem ela mesma) o artifício
usado para enganá-la? Sonhos? Jardins?
Não digo. Hoje me visto de amarelo
e vou, nos ramos, entoar da ave o canto.

Quero espantar olhos de solidão
que vem das grutas e abandona montes
para comer a relva rubra do meu coração.
Mas hoje, de amarelo, espantarei a fera

Fugindo, à procura de outra vítima:
Quem sabe, a mata?


Deborah Brennand,
in 'Poesia reunida', 2007



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