terça-feira, 20 de agosto de 2019

"Noite dos Capitães da Areia" - Poema de Jorge Amado

 
 Fotografia de Chantal James, Meninos de Rua no Rio de Janeiro


[Chantal James nasceu no Canadá, formou-se em fotografia pela Parsons School of Design, em Nova York, e em 2005 decidiu cumprir um sonho antigo: morar no Rio de Janeiro. O objetivo inicial era uma reportagem para a revista “La Rampa”, publicada no Canadá, Estados Unidos, Espanha e Brasil, mas, em pouco tempo, Chantal se surpreendeu com as assimetrias da cidade e com os meninos de rua, sem casa, sem família e sem comida, que deambulam por entre as casas, os hotéis e os restaurantes mais caros do Rio: “todo mundo vê, mas ninguém parece se importar”.

O site Hypeness entrevistou a fotógrafa para saber mais sobre o projeto “The Undesirables” (“Os Indesejados”), feito em parceria com os meninos do Rio ao longo de sete anos.] (Daqui)



Noite dos Capitães da Areia


A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente.
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.

A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.

Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.


Capitães da Areia (2011) - Filme Completo


Capitães da Areia é um romance de autoria do escritor brasileiro Jorge Amado, escrito em 1937. A obra retrata a vida de um grupo de menores abandonados, que crescem nas ruas da cidade de Salvador, Bahia, vivendo em um trapiche, roubando para sobreviver, chamados de "Capitães da Areia".

Neste livro, Jorge Amado retrata a vida nas ruas de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, naquela época afetada por uma epidemia de bexiga (varíola); o aparato policial destinava-se à perseguição pura e simples dos menores infratores, encontrando mesmo prazer na tortura, sem qualquer senso de justiça. Diante do ambiente hostil em que vivem, o grupo de meninos abandonados reage de forma também agressiva, mas de forma a encontrar nas ruas uma certa liberdade; tem por refúgio um velho trapiche (espécie de armazém) abandonado, numa das praias da capital baiana - de onde vem o nome do grupo.

Esse trapiche é a única referência de "lar" que possuem; é onde se abrigam, se escondem, e vivem como família. Sua descrição ocupa lugar de destaque no início da obra. Ali constroem suas próprias regras, são os senhores e é objeto de investigação pelas autoridades, que desconhecem onde os mesmos se ocultam. Localizada na Cidade Baixa, parte da capital baiana onde está a zona portuária, é contudo na residencial e mais rica Cidade Alta que os menores realizam suas ações infratoras.

Em 2011 estreou nos cinemas o filme Capitães da Areia por Cecília Amado, neta de Jorge Amado que realizou o filme em homenagem ao avô. (Daqui)

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