sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Fiei-me nos Sorrisos da Ventura" - Soneto de Bocage



Henri de Toulouse-Lautrec (French painter, printmaker, draughtsman, caricaturist,
and illustrator, 1864–1901), 'La Goulue arrivant au Moulin Rouge', 1892. 



Fiei-me nos Sorrisos da Ventura


Fiei-me nos sorrisos da Ventura,
Em mimos feminis. Como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e oco,
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura. 

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta! 

Ah!, não me roubou tudo a negra Sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte. 
 

Bocage, in 'Rimas'

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