domingo, 29 de março de 2026

"Os Espelhos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955), Reflections, 1915.



Os Espelhos 
 

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos refletem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo.


Sophia de Mello Breyner Andresen
 in Geografia, 1967.
 

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