sábado, 30 de setembro de 2017

"Cismar" - Poema de Álvares de Azevedo


Émile Eisman Semenowsky (Polish/French, 1857-1911), The love note



Cismar


Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu

 Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co’a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves?
No céu A brisa gemeu…
As vagas murmuram…
As folhas sussurram: Amar!




Émile Eisman Semenowsky, Girl Holding a Dove, 1882


"O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada."

(Donatien Alphonse François, Marquês de Sade)



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