segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"Em Lisboa com Cesário Verde" - Poema de Eugénio de Andrade



Carlos Botelho (Pintor, ilustrador e caricaturista português, 1899–1982),
'Ramalhete de Lisboa', 1935, óleo sobre contraplacado, 72 x 100 cm.


Em Lisboa com Cesário Verde 


Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro do que um gato persa;
nesta Lisboa, onde mansos e lisos
os dias passam a ver as gaivotas,
e a cor dos jacarandás floridos
se mistura à do Tejo, em flor também;
só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
de passos ou aves, nem eu já sei bem.
Só ele ajusta a luz feliz dos seus
versos aos olhos ardidos que são
os meus agora; só ele traz a sombra
de um verão muito antigo, com corvetas
lentas ainda no rio, e a música,
sumo do sol a escorrer da boca,
ó minha infância, meu jardim fechado,
ó meu poeta, talvez fosse contigo
que aprendi a pesar sílaba a sílaba
cada palavra, essas que tu levaste
quase sempre, como poucos mais,
à suprema perfeição da língua. 


'Homenagens e outros Epitáfios', 1974 



Carlos Botelho, 'Lisboa e o Tejo', 1935


Lisboa


Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?


Eugénio de Andrade, in 'Até Amanhã', 1956



Carlos Botelho, 'Lisboa e o Tejo', 1950, 54,5 x 73,5 cm



Lisboa


Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.


Carlos Botelho, 'Lisboa'


Aos jacarandás de Lisboa 


São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar. 


Eugénio de Andrade, in 'Os Sulcos da Sede', 2001


Carlos Botelho, 'Calçada da Glória', Lisboa (Elevador da Glória), 1950




Carlos António Teixeira Bastos Nunes Botelho (Lisboa, 18 de Setembro de 1899 — Lisboa, 18 de Agosto de 1982), foi um pintor, ilustrador e caricaturista português. Foi aluno do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, tendo-se seguidamente inscrito na Escola de Belas-Artes de Lisboa, que abandonou ao fim de pouco tempo. 
Entre 1926 e 1929 fez, com regularidade, páginas de banda desenhada para o semanário infantil ABCzinho. Em 1928, iniciou uma crónica humorística no semanário Sempre Fixe, na página Ecos da Semana, colaboração que manteve durante mais de 22 anos. Em 1930, monta o seu primeiro atelier na Costa do Castelo, em Lisboa, na casa a que a sua mulher, professora do ensino primário, tinha direito pela função exercida. A localização desta casa, onde viveu até 1949, influenciou certamente a sua temática, oferecendo-lhe temas e referências que influenciaram o seu percurso artístico.
Em 1937, integra a equipa de decoradores do Pavilhão de Portugal, durante a Exposição Internacional de Artes e Técnica em Paris. Nesta cidade teve acesso a uma retrospectiva da obra de Van Gogh que o terá influenciado largamente, determinando mesmo, a sua obra numa primeira fase expressionista. 
Em 1938 recebeu o prémio Amadeo de Souza-Cardoso, pelo retrato do seu pai. Em 1939, permanece nos Estados Unidos da América por um período longo, integrando a equipa de decoradores dos pavilhões portugueses, das Exposições Internacionais de Nova Iorque e de São Francisco. Em 1940, integrou uma das equipas de decoradores da Exposição do Mundo Português, em Lisboa. Neste ano recebe também o Prémio Columbano.
Denominado pela crítica como “pintor de Lisboa”, Carlos Botelho é autor de uma das mais importantes colecções de Arte Moderna Portuguesa. Tendo a cidade de Lisboa por cenário, real ou fictício, o pintor encontrou uma paleta característica que varia entre os tons de rosa velho e amarelo torrado, com os seus telhados vermelhos, as janelas e mansardas geometricamente arrumadas entre azulejos e gradeamentos, construindo composições ricas em cor e volume. Botelho faz também de Lisboa laboratório de impressões e experiências que traz de outras cidades e de outros pintores, cruzando-as com as suas próprias viagens por Lisboa, na escolha dos motivos e dos modos de os registar. (daqui)


Carlos Botelho, 'Panorâmica-78' (Lisboa - Vista de São Pedro de Alcântara)


"Só é arte o espontâneo que se submete ao consciente."



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