domingo, 1 de janeiro de 2017

"Ao Menino Deus em Metáfora de Doce" - Poema de Jerónimo Baía


Lorenzo Lotto (c.1480 –1556/57), The Adoration of the Child, (c. 1508), oil on panel.



Ao Menino Deus em Metáfora de Doce

ROMANCE 


– Quem quer fruta doce?
– Mostre lá! Que é isso?
– É doce coberto;
É manjar divino.

– Vejamos o doce,
E, depois que o virmos,
Compraremos todo,
Se for todo rico.

– Venha ao portal logo:
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
É doce infinito.

Desculpa, minha alma.
– Mas ah! que diviso?
Envolto em mantilhas,
Um infante lindo!

– Pois de que se admira,
Quando este Menino
É doce coberto,
É manjar divino?

– Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio.
– Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo:

Muito antes de Santa Ana
Teve este doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.

Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo divino.

Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido.
Saiu da Madre de Deus,
Depois às Claras foi visto.

Fazem dele estimação
As freiras com tal capricho,
Que apuram para este doce
Todos os cinco sentidos.

Afirmam que no Calvário
Terá seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há de ter novo artifício.

Que seja doce este Infante,
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é morgado,
Sendo unigénito Filho!

Exposto ao rigor do tempo,
Quando tirita nuzinho,
Um caramelo parece
Pelo branco e pelo frio.

Tal doce é, que porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de pão com espécies,
Substancial doce divino.

É manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.

Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
Manjar real, verdadeiro,
Manjar branco parecido!

Que é manjar dos Anjos, dizem
Talentos muito fidedignos,
Por ser pão-de-ló, que aos Anjos
Foi em figura oferecido.


in Fénix Renascida


Fénix Renascida ou Obras Poéticas dos Melhores Engenhos Portugueses é o título do mais significativo cancioneiro seiscentista, publicado sob a direção de Matias Pereira da Silva em cinco volumes, de 1716 a 1728. Nesta coletânea, coexistem, sem qualquer sistematização, poesias líricas, heróicas, satíricas e burlescas, religiosas e outras puramente narrativas. Muitas das composições são anónimas.
O título pomposo deixa transparecer as características da temática e do estilo barroco que enforma as composições: o petrarquismo, o erotismo muito realista, a caducidade da vida, temas fúteis (poesia de entretenimento), a sátira aos vícios da sociedade, motivos religiosos e históricos, todos estes temas tratados de forma ornamental, com o uso de metáforas, hipérboles, perífrases, troca de palavras, ou de forma engenhosa com o desdobramento de um conceito em várias ideias por meio de raciocínios artificiosos, até dar um imprevisto paradoxo. Esta característica justifica a designação aposta a este cancioneiro de Seiscentos - cancioneiro barroco.
Dos muitos autores que aí estão representados, destacam-se Francisco Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Dr. António Barbosa Bacelar e Francisco de Vasconcelos. (Daqui)



Pieter Bruegel, the Elder (c. 1525 –1569), Adoration of the Magi



"A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça."


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