sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"Despedida" - Poema de José Agostinho Baptista


Ana Vidigal, A Vida Dói, 2014


Ana Vidigal (Lisboa, 6 de Agosto de 1960) é uma pintora portuguesa. Vive em Lisboa. É irmã dos arquitetos Egas José Vieira (n. 1962) e Nuno Vidigal (n. 1964).


Despedida


Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.


José Agostinho Baptista, in “Paixão e Cinzas”



José Agostinho Baptista


José Agostinho Baptista, poeta português contemporâneo, nasceu a 15 de Agosto de 1948 na cidade do Funchal, Ilha da Madeira.
Com 21 anos, veio para Lisboa, onde iniciou a sua carreira literária. Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e mais tarde no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos livros já publicados, a sua poesia vem sendo reconhecida, como uma das mais originais e importantes na atualidade, como bem assinalaram os textos que lhe foram dedicados em Portugal, Espanha, Itália e França.
Além de poeta, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Malcolm Lowry, David Malouf, Sergio Pitol, Oliverio Macías Álvarez, entre outros.



Ana Vidigal, "Calafrio", 2004, técnica mista s/ tela, 146x114 cm


"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista



Ana Vidigal, “Claridade”, 2011


"A poesia de José Agostinho Baptista é de certo modo um lamento, como dissemos, e por vezes extremamente pungente e por isso não podemos deixar de ter em conta o negativo que trespassa estes poemas delicadíssimos que são da melhor poesia que hoje se escreve em Portugal." 
António Ramos Rosa,
in Incisões Obliquas, 1987 



Ana Vidigal, “Neblina”, 2011


"José Agostinho Baptista é um poeta para quem a terra, e particularmente a ilha da Madeira, donde é natural, é um contorno existencial inseparável da subjetividade. Porém, esta profunda imersão na terra liga-se à própria ausência e a uma indefinível nostalgia cujo vazio o poema tenta preencher pela livre imaginação afetiva. É esta tensão entre a adesão existencial e a distância ou separação que existe no seio dela que faz de cada poema um apaixonado lamento, dilacerante mas sempre deslumbrante."
António Ramos Rosa, in A Parede Azul, 1991 



Ana Vidigal, S/Título, 1998, 130 X 190 cm
Acrílico e esmalte s/tela


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