domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Tu procuras saber" - Poema de António Ramos Rosa


Pintura de Joni Mitchell 



Tu procuras saber 


Tu procuras saber
eu não procuro porque sei que nunca saberei 
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares a tua integridade 
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar 
da luz sobre a página que nunca é um oásis 
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos 
Tu desejas ir além das sequências quotidianas 
eu procuro também um além 
mas no interior da sombra do meu corpo 
ao ritmo da respiração 
para fortalecer a minha incerta identidade 
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro 
para que a vida encontre o seu equilíbrio e o seu horizonte 
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade 
que às vezes brilha no silêncio de um abandono 
ou no fluir das palavras que procuram a nudez 
Tu procuras algo que transcenda o mundo 
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele 
Eu sei que a fragilidade pode cintilar 
como uma constelação ou como um delta 
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio 
Tu queres ser a coluna ou a balança viva 
do puro equilíbrio que sustenta o mundo 




Joni Mitchell 



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