quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"A Mulher" - Poema de António Ramos Rosa


Dino Valls, Mutus Liber, 1996



A Mulher


Se é clara a luz desta vermelha margem 
é porque dela se ergue uma figura nua 
e o silêncio é recente e todavia antigo 
enquanto se penteia na sombra da folhagem. 
Que longe é ver tão perto o centro da frescura 

e as linhas calmas e as brisas sossegadas! 
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço 
que no umbigo principia e fulge em transparência. 
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo 
que em espiral circula ao ritmo da origem. 

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola 
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa. 
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar. 
Quase dorme no suave clamor e se dissipa 
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível. 


in "Volante Verde" 



Dino Valls, Anonymous, 1993



"Mulher: a mais nua das carnes vivas e aquela cujo brilho é o mais suave."


(Antoine de Saint-Exupéry)

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