
Paulus Potter (Dutch painter, 1625–1654), 'The Piebald' Horse',
('The spotted stallion in a hilly landscape'), c. 1650–54, Getty Center.
Talvez a minha vocação não seja esta
Talvez a minha vocação não seja esta
ou seja esta por ter perdido o espaço que nunca tive
Era algo selvagem algo violentamente vivo
o espaço na sua integridade deslumbrante
o mar na sua plenitude de felina substância
as ilhas de ouro verde e as ilhas solares
as grandes pradarias com os seus cavalos vagarosos e tranquilos
a liberdade de ser o fogo com as suas veias indolentes
Sim eu perdi todo esse espaço que nunca tive
e se escrevo é para inventar um espaço a partir desta perda
na ficção de respirar o que há de mais selvagem e mais nu
como se estivesse entre escarpas verdes inundado pela espuma
ou como se estivesse no esplendor do deserto à hora do meio-dia
Mas o que faço não é mais do que um trabalho de inseto
que perfura a cal e as páginas dos livros
para traçar a sua caligrafia insignificante
na nulidade de uma matéria árida e anónima
António Ramos Rosa,
in 'Deambulações Oblíquas',
Quetzal Editores, 2001
Paulus Potter, 'Two Horses in a Meadow near a Gate', 1649
"Intrusões inesperadas de beleza. É isso que a vida é."
Saul Bellow, in 'Herzog'
Saul Bellow (daqui)
Saul Bellow (Lachine, Montreal, 10 de junho de 1915 — Brookline, 5 de abril de 2005) foi um escritor de etnia judaica, nascido no Canadá e naturalizado cidadão estadunidense.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1976. Premiado com o Guggenheim Fellowship e a Medalha Nacional das Artes, viveu em Paris, onde escreveu The Adventures of Augie March (1953). (daqui)
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