terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Poemas da Infância" - de Manuel da Fonseca


Malthe EngelstedHos inspektøren, 1885



Poemas da Infância 
Segundo


Quando foi que demorei os olhos 
sobre os seios nascendo debaixo das blusas, 
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?... 
... Como nasci poeta 
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso 
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas. 
Quando, não sei ao certo. 

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas, 
foi um grande mistério. 
Tão grande 
que eu corria até ao cansaço. 
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar, 
como sejam os pássaros quando passam voando. 

E desafiava, 
sem razão aparente, 
rapazes muito mais velhos e fortes! 
E uma vez, 
de cima de um telhado, 
joguei uma pedrada tão certeira 
que levou o chapéu do Senhor Administrador! 
Em toda a vila 
se falou logo num caso de política; 
o Senhor Administrador 
mandou vir da cidade uma pistola, 
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver; 
e os do partido contrário 
deixaram crescer o musgo nos telhados 
com medo daquela raiva de tiros para o céu... 

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas! 


in 'Antologia Poética'


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