domingo, 1 de junho de 2014

"A Luz do teu Amor" - Poema de Guilherme de Azevedo


Sir Walter  Westley Russell (1867‑1949), Cordelia, 1930



A Luz do teu Amor


 Oh! Sim que és linda! a inocência 
Em tua fronte serena 
Com tal doçura reluz!... 
Tanta e tanta... que a açucena 
Tão esplêndida a existência 
Não lha doura assim à luz! 
Oh! que és linda, e mais... e mais 
Quando um traço melancólico 
Te diviso no semblante 
Nos teus olhos virginais! 
Que doçura não existe 
Ai! ó virgem, nesse instante 
Na poética beleza 
Desse traço de tristeza 
Que te vem tornar mais bela 
Mal em teu rosto pousou! 
E eu te quero assim, ó estrela, 
Que se inspira em mim a crença 
Triste... triste, que és mais linda, 
Mas dessa beleza infinda 
Das ficções da renascença 
Que a poesia perfumou! 

Fita agora os olhos lânguidos 
Na estrela que te ilumina, 
Eu não sei que luz divina 
De amor nos fala em teu rosto! 
Eu não sei, nem tu... ninguém!... 
Que a vaga luz do sol posto, 
Que a palidez da cecém, 
Que a meiguice dos amores, 
E que o perfume das flores 
Não respiram a harmonia 
Desse toque leve... leve 
Do mais puro sentimento, 
Da mais suave ilusão! 
As flores leva-as o vento; 
Mas a divinal poesia 
Que em teu peito se alimenta 
Não a desfaz a tormenta, 
Nem a consome o vulcão! 

E assim! - Lembra-me ainda 
Aquele instante suave! 
Havia paixão infinda 
No terno gorjeio da ave 
Que ao longe... ao longe se ouvia 
Ressoar na laranjeira! 
Assim foi... assim tão pálida 
Que eu te vi a vez primeira 
Naquele instante sem par! 
Sim! Oh! se a alma do poeta 
É como a ardência do mar, 
Que se calma e se aquieta 
À luz que baixa dos céus; 
Eu por ti surgi, ó bela, 
O cantor daquela estrela 
Que fulge lá no horizonte, 
Que me voa a vida em êxtase 
Quando sobre a minha fronte 
Cai a luz dos olhos teus! 

E se o passado foi triste 
Sepultei-o num abismo, 
E esqueci ao magnetismo 
Da tua doce expressão 
O gemer da tempestade, 
Mais o ralar da ansiedade 
Daqueles dias de então! 
Se já viste mesmo em sonhos 
Ressurgir graciosa e bela 
De entre os negrumes da noite 
A doce imagem da estrela 
Que sorri ao turvo mar; 
Faz ideia de minha alma 
Que em deserto triste e infindo 
Vivia sem uma palma, 
E que, um dia... um dia lindo, 
Surge à luz do teu olhar! 

E depois a melancolia, 
Aquela doce cadência 
Que tinhas então na fala, 
Tão suave como a essência 
Que somente a flor exala, 
Tudo... tudo me prendeu! 
E hoje elevo as mãos ao céu, 
E bendigo aquele instante 
em que vi a tua imagem 
de vaga luz radiante, 
Embora seja a miragem 
Que na aridez do deserto 
Um instante nos fulgura, 
E que, ora longe, ora perto, 
Bem pouco... bem pouco dura! 
Não negues um dia alento 
Aos débeis sopros de vida 
Que em mim pululam agora 
Com mais força e mais calor! 
Se vives da luz da aurora 
Que à vida te diz bonança, 
Eu só vivo da esperança 
E da luz do teu amor! 


Guilherme de Azevedo, in 'Antologia Poética'





Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém, 30 de Novembro de 1839 - Paris, 6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português
Ligado à "Geração de 70", foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental ("Odes Modernas", 1865), tendo ainda recebido influências dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.
Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos. 
Em 1871 fundou em Santarém o periódico "O Alfageme", primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris
Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos "Diário da Manhã", "O Pimpão" e em "A Lanterna Mágica". Colaborou no "Primeiro de Janeiro" com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama (1837-1868) e nas revistas A Mulher (1879), Ribaltas e gambiarras (1881) e Jornal de Domingo (1881-1883), e ainda na imprensa brasileira. Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no "Almanaque de Lembranças" de 1864, sob o pseudónimo de "G. Chaves", vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o "Comércio de Lisboa", a "Revolução de Setembro" e a "Gazeta do Dia", onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica "Ziguezagues". Fundou o O António Maria em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no "Álbum das Glórias". No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral "Viagem à roda da Parvónia", que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma "fiel pintura dos costumes constitucionais" do país à época. 
Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca "Gazeta de Notícias" nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida. 
As suas poesias, reunidas nas três colectâneas "Aparições" (1867), "Radiações da Noite" (1871) e "Alma Nova" (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país. 
Com o pseudónimo "João Rialto" deixou vários escritos com elevado humorismo.



Galeria de Walter Westley Russell
Walter Westley Russell, Camilla



"Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor." 

Antoine de Saint-Exupéry 



Sir Walter Russell, Tying her shoe



"A medida do amor é amar sem medida."

Victor Hugo 


Sir Walter Russell, Portrait of a Lady



"Quando somos amados, não duvidamos de nada. Quando amamos, duvidamos de tudo." 

Sidonie Colette


Sir Walter Russell, The Morning Room


"Gosto desta ideia: que o amor é uma forma de conversação em que as palavras agem em vez de serem faladas."

David Lawrence, O Amante de Lady Cnatterly 


Sir Walter Russell, Alice, 1926


"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama." 

 Dante Alighieri 


Sir Walter Russell, Alderman Robert Styring, Lord Mayor of Sheffield, 1906



"Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito." 

Bertolt Brecht, A Ópera dos Três Vinténs 


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