domingo, 28 de junho de 2015

"Maluda: A cidade e o silêncio" - Crónica de Fernando Pernes


Maluda, Porto I, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1987, Colecção particular



Fernando Pernes 


O espetáculo urbano voltou à arte contemporânea, após as décadas de radicalismo abstrato, geométrico ou expressionista. Assim aconteceu desde o fenómeno «pop». Assim sucede nesta pintura de Maluda, diferentemente gerada num sistemático decantamento de experiências cezannianas que lentamente lhe determinaram específica originalidade. Figurativa, a pintura de Maluda absorveu da essencialidade geométrica, o primado da ordenação plástica. Do abstracionismo, reteve a exigência de um discurso anti descritivo. A essência construtiva, o ascetismo lírico, eis pois duas eloquentes constantes nos quadros de Maluda, organizados numa depuração do naturalismo e da efusão sentimental: uma busca da clareza formal a que se conjuga o culto da claridade cromática.

Nítidas e claras são pois as composições de Maluda, assumindo, entre ambos os vetores, uma óbvia relação arquitetural como sugestiva qualidade de luz solar que as torna paisagens reconhecíveis numa perspetiva de referência meridional. Nelas, há puros ritmos de formas urbanas a destacarem se na fixidez de cores frias. Cores que podem reproduzir o vermelho de telhados, o branco ou o cinzento de fachadas, o azul do firmamento ou de águas, feitos espelhos de certa densidade sensual atribuível ao «habitat» português. 
Mas aí, também nesses quadros de Maluda, a procura do essencial e do universal, tende a varrer o anedótico e o descritivo, qualquer ruído ou agitação perturbadora, até à anulação de trepidações atmosféricas. O resto, o que permanece além da pormenorização, é a visão universalizadora. E o que fica, para lá do narrativo, será então o silêncio.

Paisagens de silêncio, eis de facto como nos aparecem os quadros de Maluda, mundo do evidente e do espectral, desassombrado e insólito, significando se para melhor nos significar, a nós, habitantes possíveis destas ruas sem tráfego, destes blocos mudos e cegos que são as casas do homem pousadas entre faixas congeladas de luz evocativa do céu ou do mar. E que, anti naturalista, esta pintura de Maluda surge sobretudo poética de progressiva congelação da natureza. Daí talvez o seu eco de ressonância metafísica, tanto mais nos surpreendendo quanto ainda evidenciando a persistência de um próximo e familiar, conotável com os sítios referidos nos quadros. Com sítios que trazem memórias ou visões lisboetas, de terras alentejanas ou algarvias, simultaneamente reconhecíveis numa essencialidade cromática ou topográfica, quanto distanciados na permanência do mesmo olhar decantante do pormenor individualizador e agindo por exigências depuradoras.

De tal modo, com Maluda, a linguagem geométrica dos arquétipos plásticos surge processo de uma dramaticidade tensa, exigente da nudez na vida oculta de todos nós. Consigo, o empenho no despojamento formal redunda na desocultação de uma condição existencial progressivamente mostrando a cidade, o homem português num mundo tão cético como expresso numa intensão universalizante a repudiar o típico e o pitoresco.

Decerto a ambição do essencial e do universal foi a determinante máxima de um processo da arte moderna que Maluda soube absorver na receptividade ao que a rodeia, aos horizontes do seu quotidiano. Agora, tal sentido do próximo despoja-se de verosimilhanças tranquilizantes: abre-se para peregrinações ao invisível e ao alarme que o rigor estruturante adensa, transformando os locais vividos em espelhos de uma vivência de solidão onde nos reconhecemos. Aí, a pintura de Maluda encontra plena justificação de modernidade estética e de atualidade sociológica.

Retratos da terra que habitamos, os seus quadros retratam nos a nossa verdade que ocultamos. Aí, também as suas paisagens passam da representação à relação do mistério, subjacente no desnudar das aparências festivas. A nudez plástica das paisagens de Maluda é imagem desocultada de algo que as palavras não sabem e onde a sua pintura reencontra a sabedoria imemorial das autênticas realizações artísticas. O ser moderno é sempre a procura dessa antiquíssima eloquência. 


Fernando Pernes, in Catálogo da Exposição Individual na Galeria Dinastia, no Porto, em 1978



MaludaPorto II, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1994, Colecção particular


“Vim do Oriente, onde nasce a luz; passei por África, onde aprendi a amar a vida; cheguei à Europa, onde estudei pintura na cidade das luzes; depois fixei-me em Lisboa. Gradualmente refiz o percurso labiríntico em direcção à luz. Cada passo revela, à sua maneira, esse jogo de sombras e de luz que é a vida e a morte, a sabedoria e a ignorância. Eu pinto. É uma aventura que não troco por nenhuma outra.”

Maluda, in Revista Galeria de Arte, nº 5, Julho/Agosto de 1996



MaludaPorto IV, Óleo sobre tela, 50x60cm, 1994, Colecção particular



"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". 




Maluda, Foto de Augusto Cabrita, Lisboa, 1973


Maria de Lourdes Ribeiro, conhecida por Maluda  (Goa, Goa Norte, Pangim, 15 de novembro de 1934 — Lisboa, 10 de fevereiro de 1999) foi uma pintora portuguesa.
Embora experimentando vários géneros, incluindo retratos, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio, o cerne principal da pintura de Maluda está muito voltado para a síntese da paisagem urbana, no que a sua arte segue, conceptualmente, Paul Cézanne (1839-1906), o mestre do Impressionismo. Ou, como escreveu Fernando Pernes, a sua arte representa «um sistemático decantamento da experiência cezanniana».
Os quadros que pintava eram baseados principalmente nas cidades, nomeadamente na pintura de paisagens urbanas, janelas e vários outros elementos arquitetónicos. A notoriedade das suas obras pictóricas aparentemente mais simples (algumas utilizadas em selos oficiais por encomenda dos Correios portugueses), ao mesmo tempo que a promovia a uma das mais populares pintoras portuguesas das últimas décadas do século XX artístico português, também teve o efeito negativo de encobrir uma vasta obra de criação gráfica mais complexa. Na sua carreira, Maluda efetuou 24 exposições individuais e está representada em vários museus, entre os quais os da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Cultural de Belém mas também em várias coleções particulares em Portugal e noutros países. (Daqui)

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