terça-feira, 11 de outubro de 2016

"A Guerra" - Poema de David Mourão Ferreira





A Guerra


E tropeçavam todos nalgum vulto, 
quantos iam, febris, para morrer: 
era o passado, o seu passado — um vulto 
de esfinge ou de mulher. 

Caíam como heróis os que não o eram, 
pesados de infortúnio e solidão. 
(Arma secreta em cada coração: 
a tortura de tudo o que perderam.) 

Inimigos não tinham a não ser 
aquela nostalgia que era deles. 
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles, 
só na esperança de ver, de ver e ter 
de novo aquele vulto 
— imponderável e oculto — 
de esfinge, ou de mulher. 


in "Tempestade de Verão"



Felix Nussbaum, Triumph des Todes (Die Gerippe spielen zum Tanz), 1944



"A História é um pesadelo do qual tentamos acordar."





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