terça-feira, 25 de outubro de 2016

"Sepultura Romântica" - Poema de Antero de Quental



Frederic Leighton (British Victorian painter, draughtsman, and sculptor, 1830–1896),
"The Reconciliation of the Montagues and Capulets over the Dead Bodies of Romeo and Juliet"
(A reconciliação dos Montecchios e Capuletos diante da morte de Romeu e Julieta)
, 1855. 


Sepultura Romântica


Ali, onde o mar quebra, n'um cachão 
Rugidor e monótono, e os ventos 
Erguem pelo areal os seus lamentos, 
Ali se há de enterrar meu coração. 

Queimem-no os sóis da adusta solidão 
Na fornalha do estio, em dias lentos; 
Depois, no inverno, os sopros violentos 
Lhe revolvam em torno o árido chão... 

Até que se desfaça e, já tornado 
Em impalpavel pó, seja levado 
Nos turbilhões que o vento levantar... 

Com suas lutas, seu cansado anseio, 
Seu louco amor, dissolva-se no seio 
D'esse infecundo, d'esse amargo mar! 


Antero de Quental, in "Sonetos"


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