terça-feira, 28 de agosto de 2012

"Porque o melhor, enfim" - Poema de Camilo Pessanha


Imagem de Sarolta Bán



Porque o melhor, enfim


Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

Sorrindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva 

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas... 

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.


(Camilo Pessanha)



Imagem de Sarolta Bán



Pensamento


“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.”


(Manoel de Barros)

1 comentário:

Márcia disse...

Olá, Tia! : )

O teu blog está muito engraçado! Desculpa não ter passado por aqui antes, vou tentar fazê-lo com mais frequência!

Este poema está bonito, embora não concorde muito. Porque o autor diz que o melhor seria não ouvir nem ver para não sofrer, não é? Pois eu acho que esse comportamento é assim um bocado....isolado do mundo. Para existirem a alegria e a felicidade tem de existir a dor e o sofrimento, ou não tinham valor, não é? Faz tudo parte da vida.

E quando ele diz também "Passar o estio, o outono, (...) e eu dormindo debaixo um sono duma pedra.", também me faz parecer que não aprecia a vida, que simplesmente se deixa levar, com um espírito inerte.

Não sei se é este tipo de sentimentos que o poema quer transmitir, talvez eu o tenha interpretado mal. Ou é isto que o poema quer transmitir, como crítica da inércia dos homens? O que achas?

A música é muito bonita, eheh :P

Beijinhos,
Márcia! : D

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